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quarta-feira, 4 de maio de 2011

O segredo dos velhinhos

(Circula na Internet - autor anônimo)

Um casal está comemorando o 60º aniversário de casamento, com um jantar em um pequeno restaurante no campo. O marido se inclina e pergunta para a esposa:

- Meu bem, você se lembra da nossa primeira vez, há sessenta anos atrás? Nós fomos para a parte de trás deste restaurante, você se apoiou na cerca e...

- Eu lembro muito bem. - responde ela.

- O que você acha de repetirmos agora, em louvor aos velhos tempos?

- Oh, você é um sátiro, mas parece uma boa idéia!

Um policial sentado ao lado ouve a conversa e pensa: Essa eu não posso perder: Tenho que ver os coroas fazendo sexo, lá na cerca.

Eles saem e caminham até lá, se apoiando um ao outro, ajudados por bengalas. Chegam à cerca, a velha senhora ergue a saia, tira a calcinha, o coroa baixa as calças.

Ela se agarra na cerca e começam a fazer sexo. De repente, explodem no sexo mais furioso que o policial já tinha visto na vida. Repetem dezenas de vezes. Ela grita, ele agarra os quadris dela, furiosamente. O sexo mais atlético possível e imaginável.
Finalmente caem exaustos no chão e depois de mais de meia hora deitados se recuperando, os dois se levantam, apanham as roupas espalhadas e se vestem. O policial, ainda perplexo, toma coragem, se aproxima do casal e pergunta:

- Vocês devem ter tido uma vida fantástica! Como vocês conseguem? Qual é o segredo dessa performance ideal?

O velhinho com os cabelos assanhados e cara de estar em outro mundo responde :

- Sei lá...... Há sessenta anos essa cerca não era elétrica...

segunda-feira, 18 de abril de 2011

PORQUE NÃO TERCEIRIZAR O PODER EXECUTIVO MUNICIPAL?

Plinio Sanderson Saldanha
Escritor

Pasmem, a Prefeitura de Natal convoca a imprensa para anunciar a terceirização do combate à epidemia do dengue. Contratando um instituto de PE, pela bagatela de oito milhões de reais por mês, com duração de três meses.
Aliás, não é a primeira vez. No caso dos medicamentos a borboleta atordoada... já tentou contratar empresa do Recife. Assim como também, buscou na capital pernambucana terceirização para administrar as UPA’S. Falta quadro pensante nesses verdes de araque? É um puro atestado de incompetência já sabida por todos.

Os munícipes tem memória curta... Sem nada palpável para apresentar a sociedade, o palácio Felipe Camarão em 26 de março publica em seu sítio oficial que as ocorrências de dengue tinham caído 90%. Isso se devia “as ações continuadas de combate”. A primeira peça publicitária da lepidóptera: espalhar em outdoors anunciando boa nova.

Agora, a população traída pela pseudo-administradora, está atônita, vídeos institucionais tentando ressuscitar o moribundo no mesmo diapasão da ex-governadora, apelando para o trabalho aqui - e agora?
A cidade à mercê da imperfeita lagarta e seu séquito deplorável... Fica a sugestão: Por que não terceirizar o poder executivo municipal?

segunda-feira, 14 de março de 2011

Encontros e despedidas com Zeus e Luna*


Muriu de Paula Mesquita
Jornalista em Natal.

*Esta é uma crônica de evocação pela memória de dois queridos animais de estimação que agora estão no céu dos bichos

A chegada de um filhote encheu nosso lar de alegria. Zeus era o cãozinho Rotwailler mais meigo da ninhada. Toda a suposta ferocidade da raça era esquecida pelos que chegavam perto para acarinhá-lo, encorajados pelo olhar dócil, que retratava fielmente a lealdade canina. O nome do nosso belo animal, inspirado na mitologia grega, se encaixava perfeitamente na imponência e elegância de Zeus, deus do céu e da Terra, senhor do Olimpo, a divindade suprema do Universo. Criado com carinho pelo meu irmão Surya - que também significa deus do sol em sânscrito, uma língua hindú – Zeus protegeu como um guardião celestial três de nossas residências em pouco mais de oito anos de existência terrena.

Assim como na canção de Milton Nascimento, “O trem que chega é o mesmo trem da partida”. E a Roda Viva do reino animal girou. Em ritmo de Encontros e Despedidas, Zeus nos deixou e se foi para o além.

Em meio à saudade de Zeus, Luna surgiu como um astro para iluminar nossas vidas. A cadelinha filhote de Golden Retriever carregava um brilho radiante em seu pelo dourado e até no próprio nome astral. Mas Luna não era deste mundo. Sensível, arisca e curiosa, La Bella Luna brincava no jardim. E ingeriu algo como o fruto proibido de Adão e Eva. Atendida por uma médica veterinária, ela não resistiu à intoxicação e regressou ao paraíso celeste prematuramente aos quatro meses de vida.

A efêmera Lua espanhola nascida em Natal deixou uma semente de alegria, melancolia e saudade. Quem gosta de pássaros admira o cântico do Rouxinol. Já os sertanejos aplaudem o canto dos aboiadores. E eu ouço amiúde os latidos inconfundíveis de Zeus e Luna, que ecoarão eternamente pelos quatro cantos do universo.

quarta-feira, 9 de março de 2011

OS SEGREDOS DO ZELADOR

Ailton Salviano – Jornalista

 Dona Patrícia, uma jovem senhora alagoana, apesar dos seus vinte e poucos anos é a síndica todo-poderosa de um condomínio de luxo aqui em Natal. Um dia desses, numa sala de espera de um cardiologista, a minha bisbilhotice foi aguçada ao ouvir as descobertas e observações ditas, alto e bom tom, por esta senhora numa roda feminina, sem a menor cerimônia. Dizia ela às amigas:
- Minha filha, não gosto de trocar de zelador. Quando obrigada a faze-lo, reluto, esbravejo, imponho mil exigências!
 - Que tolice, Patrícia! Vejo no zelador um empregado como outro qualquer! Observou dona Olga, uma senhora gorda e corada, aparentemente bem mais velha que Patrícia.
 - É aí que você se engana, minha filha! É exatamente no zelador onde mora o perigo. Cada zelador que sai, é mais um que fica conhecendo os segredos do seu condomínio. Respondeu Patrícia com voz experiente e completou: outro dia, fui obrigada a despedir um zelador por conta de umas informações que me foram passadas pelo porteiro do condomínio. Fiquei estarrecida com o que escutei. Simplesmente, o porteiro me falou que o tal zelador comentava muitos detalhes íntimos das vidas dos condôminos.
 - Como assim? Indagou outra senhora sentada ao lado de Patrícia e curiosa pelo tema.
 - Olhe, respondeu Patrícia, quase ninguém atenta para os detalhes que vou contar, mas é a mais pura verdade. O zelador do seu prédio sabe entre outras coisas: o supermercado onde você costuma comprar, as marcas dos seus alimentos – óleo, feijão, arroz, açúcar; sabe ainda os tipos de bebida que a sua família bebe e pra ser mais precisa, ele conhece até a marca de uísque que seu marido prefere.
E não fica por aí, continuou Patrícia, agora atraindo a atenção de todas. Os conhecimentos dele vão bem mais adiante, como a marca do papel higiênico, o tipo do seu absorvente, a marca e a quantidade de camisinhas usadas no mês e tem mais: pela presença do absorvente, ele sabe até os dias que você menstrua!
 - Pelo amor de Deus, Patrícia! Nunca pensei nisso.
 - Pois é amigas. Um zelador curioso é um perigo afirma Patrícia pondo fogo na conversa.
 - Mas Pat, como ele descobre tudo isso?
 - Ora, caras amigas, simplesmente observando nosso lixo. E agora com essa onda de lixo seletivo, é que é mão na roda! Foi só após essa conversa com o porteiro que entendi o papo que, certa vez, o zelador levou com Paulinho, meu filho de seis anos, que me contou na maior das inocências.
 - Paulinho teu pai deixou de beber? Perguntou o zelador.
 - Não, respondeu o garoto. Papai bebe água todo dia.
 - Não estou falando de água, menino. Falo de uísque.
 - Por quê?
- Faz uns dois meses que não encontro garrafa de uísque no lixo de vocês!?

sábado, 19 de fevereiro de 2011

RELATOS DE UMA MULHER

Na noite passada, fui convidada para uma reunião com as meninas.

Eu disse a meu marido que estaria de volta a meia-noite:

- Prometo! - Eu disse.

Mas as horas passaram rapidamente e a champanhe estava rolando solta.

Por volta das 3 da manhã, bêbada feito uma gambá, eu fui para casa.

Mal entrei e fechei a porta, o cuco da sala disparou e 'cantou' 3 vezes.

Rapidamente, percebendo que meu marido poderia ter acordado, eu fiz 'cu-co' mais 9 vezes para que ele pensasse que era meia-noite.

Fiquei realmente orgulhosa de mim mesma por ter tido uma idéia tão brilhante e rápida (mesmo de porre) para evitar um possível conflito com ele.

Na manhã seguinte, meu marido perguntou a que horas eu tinha chegado e eu disse confiante:

- Meia-noite!

E ele não pareceu nem um pouquinho desconfiado. Ufa!

Daquela eu tinha escapado!

Então, ele disse:

- Nós precisamos de um novo cuco.

Quando eu perguntei - por que? Ele respondeu:

- Bom, de madrugada nosso relógio fez 'cu-co' 3 vezes, depois, não sei porque, ele murmurou um "caraaaaalhooooo!" e aí fez 'cu-co' mais 4 vezes e espirrou, depois fez mais 3 vezes e soltou um rizinho e finalizou com mais 2 cu-cos.

Daí, tropeçou no gato, derrubou a mesinha da sala, vomitou no tapete, deitou, deu dois peidos e dormiu...

(autor desconhecido)

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

E deu-se o apagão...

...é que quando estávamos no sentido da busca da luz, sabíamos viver sem ela, e sabíamos ficar felizes com pouca alegria.

E sempre haveria a luz no fim do túnel, e sempre haveria o dia anunciando a noite, e sempre haveriam os mais velhos mostrando estrelas aos mais novos, sem nem saberem que aquelas não estavam mais ali há tantos e tantos anos...o que não deixava de ser um simbolismo e tanto!

Agora estamos aqui ao contrário:

O que fazer se a luz acaba?

Onde está o candeeiro?

 ( SimoneSodré)

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

O Reveillon

Tasso Soares de Lima

Na verdade, das festas de fim de ano, esta é a que exige mais cuidado e preparação. Não é só ir para festa. Não. Tem que se preparar, seguir o ritual necessário para uma boa passagem de ano. Tem aquela história dos sete caroços de romã, pular sete ondas após a meia noite. E, por fim, você tem que fazer a passagem de branco. Ou, pelo menos, ter uma peça branca. Certa ocasião, a minha mulher perguntou se eu tinha comprado a roupa do Ano Novo. Como todo daltônico que se preza mostrei uma bermuda azul e uma camisa amarela. Quando ela viu, quase teve um ataque:
__Você vai de bermuda roxa e uma camisa verde cana?? Falta só o tênis ser marrom. Eu ainda ensaiei contestar, afirmando que o tênis não era marrom e sim preto desbotado. Mas o meu histórico de daltônico não me era muito favorável. O tênis realmente era marrom.
__E agora? Você não pode romper o ano com cores desfavoráveis__ gritou minha mulher, preocupada com o possível atraso para ir à festa. Perguntei:
__Se é assim, quais são as cores favoráveis?
__Você tem que usar uma peça branca, para trazer paz, amor e ter um ano seguinte próspero.__respondeu ela, já esbaforida.
__Mas isso é superstição. Não acredito nisso não __ falei como a maioria dos homens que dizem não ter superstição, mas num passa por baixo de uma escada nem pau.
__Nada disso. Eu não vou passar o ano com um homem azarado. Lembra de Arnóbio, casado com minha prima Estere (o pai botou o nome na filha de Estereofônica, porque viu numa radiola).Pois, ele foi para o reveillon de marrom. No mês seguinte foi preso pela Receita Federal por sonegação __ respondeu, já ficando desesperada
__Mas o que faltou a ele foi pagar os impostos, e não uma roupa branca __ respondi com o meu direito a tréplica.
__Nada disso. E o Tio Nenzinho que quando se separou da mulher, ela levou tudo que ele tinha, só porque fez a passagem do ano de vermelho __ respondeu resoluta.
__Mas aí faltou um bom advogado e não roupa branca. Se fosse assim, Papai Noel despencava do trenó todo ano, pois ele não só passa o reveillon de vermelho, como também o ano todo __ respondi.
__Não seja engraçadinho. Ele deve trocar de roupa, que num é besta. E o Alfredinho, que virou gay no ano seguinte, porque rompeu o ano de cor-de-rosa __falou, já chateada.
Aí eu descobri que ela não só acreditava em superstição, como também em Papai Noel. Mas, para não “encumpridar” a conversa, resolvi ceder.
__Vou vestir então aquela camisa branca do casamento.
__O quê?? Nem pensar! Primeiro porque aquela camisa num lhe cabe mais. Naquela época você tinha 64 quilos, e hoje você é o terror das balanças. Além do mais, ela tem uns vinte anos. Depois, tem que ser uma roupa branca nova, que ainda não foi usada __ sentenciou ela.
E agora, o que fazer? São 23h, num tem loja, shopping e nem supermercado aberto a essa hora. Estaria eu fadado a ser preso pela Receita Federal, perder todos os meus bens, que por sinal já não são muitos, e virar gay? Prá num arriscar, resolvi tentar encontrar uma solução. Deixando claro que eu não sou supersticioso, mas os argumentos eram muito fortes.
Saímos desesperados procurando algum estabelecimento aberto. O único que encontramos foi uma farmácia de plantão, que, lógico, não vendia roupa branca. A solução foi drástica e dramática, para mim, claro: passei o reveillon de fralda da Turma da Mônica, sem poder beber nem água, para evitar ir ao banheiro. Já imaginou ter que pedir algum colega de sanitário para prender o broche na minha fralda.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Só de passagem ...

Conta-se que no século passado, um turista americano foi à cidade do Cairo no Egito, com o objetivo de visitar um famoso sábio. O turista ficou surpreso ao ver que o sábio morava num quartinho muito simples e cheio de livros. As únicas peças de mobília eram uma cama, uma mesa e um banco.

- Onde estão seus móveis? Perguntou o turista.

E o sábio, bem depressa olhou ao seu redor e perguntou também:

- E onde estão os seus?

- Os meus?! Surpreendeu-se o turista.

- Mas estou aqui só de passagem!

- Eu também... - concluiu o sábio.

(Enviado por Jorge Lira)

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Panfletos e sexo

Paulo Correia
Jornalista

Hoje acordei com o sol já forte. Passava e muito do meio-dia. Levantei e o corpo já pedia calma. A boca estava com o gosto da cerveja e do uísque de ontem à noite. A maquiagem estava ainda na face, mas a desconstrução da mulher fatal já tinha ocorrido. Do meu lado, dormia a minha amiga de trabalho e de baladas. Amiga não, isso é muito profundo, colega mesmo. Uma garota bonita, morena, e com um corpão de fazer parar o trânsito. Duas meninas sem muito conteúdo e dispostas a quase tudo por uma noite de loucuras.
Trabalhamos juntas. Fazemos a entrega de panfletos de festas em boates e bares freqüentados pela chamada elite de Natal. Uma rotina que começa cedo. Assim que recebemos a ligação do nosso “agente”, Carlos, temos poucas horas para produzir nossa imagem, e isso quer dizer: colocar muita maquiagem no rosto, roupas provocantes e curtas no corpo e fazer caras e bocas quando necessário. Uma rotina que já começa na quarta-feira, quando as primeiras concentrações de baladeiros saem de suas tocas para curtir a noite da cidade, e somente terminam no sábado, quando os últimos bares estão fechando as portas.
Jess, ela não gosta que a chamem de Jéssica, está de rolo com Carlos. Parece que não é garota de rua como eu, que não sabe as malandragens desse escroto. Coitada. Pior que mulher ingênua é piriguete querendo ser ingênua. Eu já contei para ela o que ele faz nas horas vagas, quando não está no carro esperando a gente nas intermináveis noites de festas. Já lhe contei do seu sujo contato com policiais em roubos de veículos e tráfico de drogas. Já lhe contei da sua fuga de Pernambuco por conta de um assassinato na periferia de Recife. Ela que descubra o verdadeiro Carlos como quiser. Só espero que não seja através de tapas no rosto, nem muito menos roubada por ele.
Mas voltando para as nossas noites. Ontem tivemos que fazer dois bares, entregando CD´s promocionais de uma dessas milhares de bandas de forró que estão por ai. Depois fomos para uma cidade próxima, distribuir gracejos em uma vaquejada comandada com mãos de ferro por um empresário do ramo de carros usados e um prefeito seboso acompanhado de dois vereadores mais asquerosos ainda.
Na festa, o prefeito sugeriu ao Carlos que ficássemos um pouco mais. Que as lindas meninas curtissem o forrózão alguma coisa que tava no palco e que era o maior sucesso da temporada. Um sucesso baseado em músicas que falam de carros 4x4, raparigas e bebidas. Nada de novo para essa danada aqui, que já ouviu esses repertórios incontáveis vezes. Que já sabia todos os passos daquela noite planejada na cabeça do prefeito e seus asseclas. O forró para eles era o de menos, o que eles queriam era sexo e putaria até altas horas. E tudo isso à custa das duas meninas-panfletos ali do lado. Eu e a Jess.
Depois de muito beber, cair e levantar, Jéssica já estava para lá de Bagdá. Ela foi presa fácil para os administradores locais. Eu, que já tinha levado muita porrada dessa vida ao longo dos anos, bebi pouco e soube enrolar muito até a madrugada. Observei que um dos vereadores era mais calado e tímido, e foquei minhas garras nele. Fiz de tudo para que ele me escolhesse e me levasse para algum lugar sozinho. Assim seria mais fácil embebedá-lo e conseguir trabalhar bem menos naquela noite. Se é que vocês me entendem.
Dito e feito. O nobre caiu de amores por mim. Queria sexo, isso é inegável. Mas não da forma selvagem como o prefeito e o outro vereador. Esses ficaram com Jéssica, que foi liberada pelo Carlos. Esse fez cara de homem ciumento na frente dela, mas assim que a largou com os dois brutos no motel, foi logo para o forró e pegou uma menina de 17 anos para ficar.
Eu fiquei mesmo com o edil mais tranqüilo, que gosta de romancear tudo o que vê e que é fraco para bebidas. Aproveitei e enchi seu copo várias vezes, e o meu também. Mas o nosso legislador foi mole na balada, caiu rápido num sono profundo, e eu que não sou besta, e no fundo queria isso mesmo, aproveitei para pegar a minha bolsa e me mandar.
O táxi me deixou na porta de casa às 5 da manhã. Jess só chegou às 9h, e está apagada até agora.
E aqui estou eu esquentando uma velha pizza para o nosso almoço. Um almoço de baladeiras.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Dorme Neném

Cláudia Magalhães
Escritora

"Tutu-Marambá não venha mais cá, que a mãe da criança te manda matar, bicho-papão sai de cima do telhado, deixa a menina dormir sossegada...'', Ofélia acordou com a voz da criança cantando e sentiu um forte mal-estar, uma náusea que fazia seu estômago dar voltas e mais voltas. As pancadas da chuva na janela só aumentavam sua dor de cabeça. Com as pernas trêmulas seguiu em direção a porta de entrada e ao tocar no trinco pensou que ia desmaiar. Ela estava fechada, não havia como escapar. Segundos depois, andava de um lado para o outro da sala buscando o controle da situação, mas o mundo insistia em correr mais rápido. Foi até o outro quarto e encarou com espanto o rosto quadrado, esquálido da velha. "Boi, boi, boi, boi da cara preta, pega essa menina que tem medo de careta...", ouviu a voz da criança que cantava sem parar e sentiu o peito fervilhar como se estivesse dentro de um forno. Por que não nos deixa em paz? Por que nos manter presas aqui?, gritou encarando a velha. Sentiu uma forte dor no estômago. Há quanto tempo não comia algo? Não lembrava. Pobre criança, já não sabe mais sorrir!, pensou com tristeza.
Correu até a cozinha e encontrou uma garrafa de gim fechada. Que alívio, ela vai se sentir melhor!, pensou enquanto abria a bebida. Encheu o copo e, em seguida, voltou ao quarto com a garrafa e ofereceu a bebida a velha que tomou de um só gole. Não gosto de você, te odeio o suficiente para te matar. Por favor, desista! Não me olhe assim, com esse olhar caído, fraco, não terei pena de você! Não use seu sofrimento como pretexto para nos prender aqui! Vou revirar cada canto dessa casa e descobrir onde escondeu a chave. Vou pegar a criança, sair por aquela porta e encontrar meu amor. Sim, eu sei viver um grande amor, ao contrário de você! Por isso fica assim com essa inveja no peito e com esse desejo de morte, disse vendo a velha virar mais um copo de gim. Por que não se mata de uma vez? Não sabe que não pode manipular os desejos do mundo? Não são nossas vontades que fazem a faca cortar nossos pulsos, mas nossas fraquezas. São elas que dão poder às coisas. Então, vá em frente, velha! Pegue essa faca que você deixou sobre a cama, pois fraqueza é o que não lhe falta! Você não consegue, não é? Não minta pra si mesma, não esconda suas limitações. O nome disso é covardia!, disse encarando a velha que, nesse instante, tomava mais uma dose de gim. "Dorme neném que a cuca vem pegar, papai foi pra roça, mamãe foi trabalhar...", a voz da criança a deixava em pânico. O que você fez com a menina? Vamos, diga! E as chaves, onde estão as chaves?, gritou estérica. Por que você faz isso? Por quê?, perguntou com um fiapo de voz. Você foi amada, descobriu o real sentido de levantar a saia e no lugar de se sentir feliz, se tornou inquieta e medrosa. Penetrou mais em você do que no amor que poderia ter te dado tudo e não gostando do que viu, se tornou sua maior inimiga. Perdeu e diante do abandono e da solidão só fez envelhecer, disse revirando tudo pelo quarto. Essa brincadeira toda me perturba. Vou encontrar essa chave e, ao contrário de você, uma fracassada, vou em busca da felicidade. Vou em busca do amor perdido. Vou dizer que ao seu lado dou as costas a tudo que faz tremer a felicidade, que sua companhia me rouba de uma vida miserável e que isso me deixa mais distante da morte. Direi que o amo e se minhas palavras não forem suficientes para trazê-lo de volta, não ficarei de braços cruzados como os covardes que tentam se matar com as mãos nuas, falarei com o olhar, com as mãos, com as coxas, com os pêlos, com o sexo faminto e de cada uma dessas partes que fazem esse amor doarei sua porção mais generosa, doce e erótica, até ele purgar todas as dores, tristezas e dúvidas e me levar ao gozo dos que amam deixando escapar da sua boca um "eu te amo"! Seremos causa e efeito, sob o comando da emoção no espaço e no tempo encontraremos a inteligência do amor e reduziremos a estupidez a pó. Vê a velha tomar mais um gole de gim e sente a cabeça girar. Amamos de maneira diferente. Não vou deixar você tirar ele de mim porque não suporta me ver feliz. "O cravo brigou com a rosa, debaixo de uma sacada, o cravo ficou ferido e a rosa despetalada!", a voz da menina em sua cabeça a deixava cada vez mais desorientada e a amargura da velha já cobria por completo seu juízo. Sei que perdi, não precisa me lembrar disso. Eu vou gritar. Vou gritar até que apareça alguém para me salvar, disse correndo desesperada até a porta de entrada.
A chave está na porta!, constatou em pânico. Como não a vira antes? Deu altas risadas. Gargalhou muito, até a exaustão, até dobrar a esquina daquela emoção extrema e desabar num choro grave, sofrido. " O anel que tu me deste era vidro e se quebrou. O amor que tu me tinhas era pouco e se acabou!", era a voz da criança que escutava cada vez mais forte. Voltou ao quarto sentindo a alma pesada, capaz das piores atrocidades. Ficou mais uma vez em frente ao espelho e encarou os olhos da velha Ofélia dentro dela, observou sua inércia, seus lábios enrugados que jamais ousariam dizer o que sonhava, que nunca soube se enfeitar de sonhos, seus pés fincados no chão frio e decidiu se salvar daquele mal que a atormentava. Pediu ajuda a pobre criança Ofélia, mas ela desaprendeu a sorrir, desaprendeu a brincar. Antes tão cheia de vida, agora, um pequeno raio de luz, muito fino e frágil, uma voz de saudade, doces lembranças pulando corda, caindo no poço, chupando manga nos quintais. A criança, a velha e a mulher, três forças desordenadas que formavam a Ofélia. Três em uma. Quantas faces cabem em nossa alma? Qual delas irá cuspir na vida enterrando os desejos das outras sete palmos debaixo do chão? Não importa. A velha venceu. Há momentos em que devemos proibir a compaixão pois ela torna santo o que devemos desprezar. "A canoa virou, por deixá-la virar, foi por culpa de Ofélia que não soube remar." Nenhuma palavra mais foi dita. Entre ela e a realidade, somente o silêncio e a distância. Ali, diante do espelho, com a certeza de que todas as promessas e desejos da infância se perpetuam, Ofélia deu adeus a si mesma. Sem rodeios, cortou os pulsos, matando a mulher, a velha e a criança Ofélia de trinta e cinco anos. 

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Por um trilhão de reais

Eduardo Alexandre
Jornalista

Ubiratan: Hai Kai

Na má disputa
Exceção a verdade
Efêmera luta

Hai Kai faz pensar. Neste de Bira, eu sei que ele quer dizer que a campanha de Serra mente, mas que essa é uma luta vã: Dilma vai ganhar, apesar das mentiras da campanha adversária.

Eu me ative a outro pensamento: nesse momento brasileiro, exceção é a verdade. Todos mentem. Mente Serra; mente Dilma. Nunca na história desse país, se mentiu tanto.

E mentir, aqui, não é só o ato de proferir e divulgar uma mentira. É uma série de gestos.

Quando se ardila uma mentira, já aí surge o feio, que se sequencia exalando mal.

Eu sei que a mentira não se manifesta apenas em palavras. Quando um governante, uma autoridade qualquer se vale de impostos para pagar uma campanha política, ele está usando isso para fabricar uma mentira de resultado eleitoral, que resultará numa gestão onde a mentira será continuada.

Os dois maiores orçamentos da Nação estão disputando um mandato. Estão disputando uma máquina arrecadadora que hoje atingiu, no ano, mais de um trilhão de reais.

Dá pra se fabricar muita mentira em busca de uma fábula rica e fácil assim.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Analista, marqueteiro e adivinhão

Minervino Wanderley*

Não sou analista político. Não sou marqueteiro. Não sou adivinhão (se bem que gostaria de prever uns números por aí). Sou apenas um apreciador da cena urbana (da de Serejo também). Assim, enxergando o mundo sem grandes pretensões, vejo muita coisa. Analistas políticos querendo ser adivinhões, marqueteiros querendo ser donos da verdade e adivinhões dando pitacos.

Pois bem. Todos eles se esforçam para mostrar a um povo uma face que não pertence a determinado candidato. Dilma ficou simpática. Serra deu engordada e o cabelo cresceu. Esse é o verdadeiro milagre econômico. O dinheiro faz tudo. Desesperados ante a falta de assunto partiram para uma viagem no tempo. De repente, o aborto virou assunto de primeira página. Parece que estamos nos anos 50, quando as pessoas se benziam ao pronunciar tal coisa.

Dilma, ouvi não sei aonde – tenho mais o que fazer – disse que a mulher de Serra tinha afirmado que ela queria ver criancinhas mortas. Porra! Isso me lembra propaganda anticomunista dos anos 60, né não, Alex Nascimento? Não acredito nisso. Acredito que ela possa até ter querido ver gente grande morta, lá naqueles tempos, sabe?

Serra, depois do desempenho de Marina, parece a reencarnação de Chico Mendes. Ou um primo magro do Hulk. Verde que te que quero verde. Lula defende Dilma com uma veemência de dar inveja a qualquer mortal. Ai de quem falar mal “da Dilma”. Fernando Henrique Cardoso se queixou porque “Lula nunca me chamou para um café da manhã”. FHC, tome juízo. Você não encara uma buchada com farinha com uma lapada daquelas de manhã cedo! Seu estômago é fino. Bem acostumado às iguarias francesas.

Será que eles pensam que somos um povo idiota? Epa! Esqueci que Tiririca foi o deputado federal mais votado do Brasil. Bom, pelo menos ele é um palhaço de carteirinha, deve ser sindicalizado e tudo. E quem votou nele? Em que categoria se enquadra? Gozador? Heroi: “Votei para demonstrar minha insatisfação’”? Rebelde: “Se hay gobierno soy contra”? Ou, como disse o presidente, além dos petistas, somos todos uns bundões?

Sou não, Lula. E, para provar, vou dar uma de analista político, marqueteiro e adivinhão.

- Analista: “Se Dilma não ganhou no primeiro turno, perdeu força. Não chega mais”.

- Marqueteiro: “Mudamos a cara de Dilma e Serra e nos esquecemos de Marina. E agora?”

- Adivinhão – Vai dar Serra.(MW)
*Jornalista, analista, marqueteiro e adivinhão

No reduto de Nazaré

Novela de Eduardo Alexandre
Capítulo II

No vácuo de Leo, chega o poeta Plínio Sanderson.

- Tem um newgento federal e um príncipe sem sorte, o consorte.

- Ei, vamos parar! Salta Alex. Marina teve vinte porcento do eleitorado.

- Esse eleitorado está mais para Serra, analisa Leo.

- No Aldeia, é uma chuvarada de e-mail de Elder Heronildes, fazendo propaganda de Dilma, informa Serrão. E Walner Spencer não deixa nenhum sem resposta... insinua arenga.

- Agora, o debate é frei Beto e o aborto. Walner cantou a bola: agora até na propaganda oficial estão chamando a candidata de madre Teresa, Anita Garibaldi... Continua Serrão, filosofando: essa é a eleição da soberba!

- Tomba foi eleito. Agnero... Luís Almir dançou. A filha vai renunciar para o filho evitar processo... Gardênia está aí: quer dois real.

sábado, 9 de outubro de 2010

No reduto de Nazaré

Novela de Eduardo Alexandre
Capítulo I


Na quarta-feira passada, Huguito Macedo aprontou por aqui. Convocou para uma discussão pósprimeiroturno, conversa de reiá o cano no reduto de Nazaré. Leozito apertou o nó e enviou pauta, pontos mais costurados que os bolsos de Alex, confidenciou mais tarde a Ricardo, balcão do Bardalos.
Na bike que custa mais que a limosine de Dunga, Plínio encosta derramando suores pelo corpo inteiro para anunciar presença de Volontê. E como de repente vem, vai, dobrando a esquina da Vigário.
Paulinho, de mau, chega e pergunta, de chofre, como dizia papai:
- Meninos, vocês não estão trocando de dia, não? Bia só vem amanhã...
Hugo levanta seu olhar fulminante, raios reflexos das águas das acauãs e depara vulto vindo envolto à escuridão.
- É Alex! Vai passar a noite falando de Macau, defendendo a Borboleta e coçando os ovos... Se abaixa para não bater a cabeça no celular de Tásia, toma os caminhos do balcão.
- Chegando e já saindo para outra reunião, aff!
Claudinha, doida alvoroçada do juízo, só chega assim: vapt!
- Cadê Dunga? Vou telefonar pra ele. Cadê Plínio? Retenticia na indagação, enquanto a cabeça vai rapidamente de um lado a outro como se a querer encontrar o povo da noite toda naquele exato instante.
- Crys vem?
- Respondeu nada, não. Mas Zé me ligou e disse que vinha. Informou Hugo.
No pesadão prateado, Tourinho chega à Coronel Cascudo, 130, descendo vidro lateral esquerdo do carango:
- Civone está terminando uns detalhes para a noite de Glorinha e Waldemar Ernesto no Tam, mas vem.
Barbeado, cara mais lisa que a do índio Serron de las Ribas dos Manguezais do Nordeste depois de noite inteira de aplicação de pepinos fatiados sobre cútis faciais, chega Leozito esfregando as mãos:
- Ermano a gente emplacou!

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

A FLOR DO ESPIA-CAMINHO – IMORAL ?

Ailton Salviano
Geólogo e Jornalista

Neste início de Primavera, a estação das flores, uma pequena história de uma curiosa flor. A primeira referência à flor da planta espia-caminho, segundo Câmara Cascudo, foi feita pelo escritor paraibano José Américo de Almeida em seu livro “A Bagaceira” publicado em 1928. Tal registro fala da aversão feminina por essa flor leguminosa de ocorrência tão comum às margens dos antigos caminhos, densos em nutrientes oriundos da urina e fezes de animais e de restos de comida jogados pelos transeuntes.
Em seu livro “Coisas que o povo diz”, mestre Cascudo fala dessa anacrônica ojeriza feminina quando afirma: “elas (as mulheres do povo) arrancam ou destroem as flores do espia-caminho por julgarem-nas imoral”. O motivo é mais que banal. Trata-se da forma dessa flor que em muito se assemelha ao órgão genital feminino.
Classificada como uma leguminosa do gênero clitória, a planta também é conhecida vulgarmente como erva mijona e cascavel. Porém, a sua denominação popular é que causava vergonha às mulheres - “boceta-de-negra”. Na descrição morfológica de Cascudo, “as pétalas formam os grandes lábios e, no centro, os estames e androceu, guardados pela carena, que os envolve, dá a parecença de um clitóris; daí o seu gênero...”.

sábado, 18 de setembro de 2010

A dama e o motorista

Paulo Correia
Jornalista
ph-correia@uol.com.br

Todos os estabelecimentos comerciais estavam com suas portas fechadas há horas. O velhinho que vendia doses de cana e amendoins já tinha recolhido a sua barraca e se encaminhava para casa. Os moradores da rua já estavam dormindo ou trancados em casa vendo os últimos capítulos do filme das onze. Enfim, já era madrugada. Os cães sarnentos da avenida principal já estavam alojados nos cantos de muro ou embaixo de algum galpão. Somente aquele velho lugar estava aberto, com as suas luzes avermelhadas e uma música que saia abafada de uma velha caixa de som. A canção falava sobre amores perdidos e a melancolia na voz do cantor somente aumentava o sentimento de desilusão.

Ele já tinha terminado o seu turno fazia um tempo. O ônibus que dirigia durante parte da tarde e toda a noite se encontrava completamente apagado e descansava na garagem da empresa. O seu colega de farras tinha faltado naquela noite. Problemas de saúde com filho menor e brigas da mulher, que não gostava de bebedeiras. Ele não tinha filhos, nem muito menos uma companheira para gostar ou não de álcool em excesso. O cheiro da madrugada fria o fez esquecer o assunto. O som que vinha da casa de drinks o despertou do sonho de casamentos e prole. A dama o esperava para mais uma noite de conversas e, quem sabe, algo mais.

Ele entrou no salão e o garçom já providenciou a sua mesa. No canto escuro e próximo ao banheiro, como ele já havia pedido desde a terceira visita ao local. Isso já fazia muito tempo, nem ele nem ou garçom lembram exatamente quando foi. Um sujeto estranho como todos os que freqüentam a casa, lembra o garçom. Um homem sem muitas qualidades, sem brilho nos olhos. Um motorista frustrado, uma máquina que somente abre e fecha portas, que freia e que leva pancadas o dia inteiro. Um cliente igual a todos os outros.

Depois de três programas naquela noite, ela chega para perto de sua mesa. O cansaço do corpo e da mente é disfarçado com algumas carreiras de coca no banheiro imundo e café requentado. Duas bombas pré-programadas para explodir daqui a algumas horas. A euforia da cocaína dará lugar a uma depressão de muito choro, e a dor de barriga será o resultado do café. Mas agora não. Agora é a vez de seduzir mais um cliente. Hora de ouvir lamurias dos outros, fracassos dos outros. Mentiras e sorrisos falsos para agradar.

Ele conta sobre o seu dia. Fala que irá pedir demissão da empresa. Já não aquenta mais a chefia e os passageiros. Fala de um assalto ocorrido no dia anterior.

Ela imagina como é bom viajar de ônibus.

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Tiririca com tudo, quero votar num Tiririca

Eduardo Alexandre
Jornalista

(A Eustachio Lima, que passa bem, baleado no braço por bandidos, ontem, defronte a sua casa)

Confesso que me sinto frustrado nessa campanha 2010 para presidente da República. E que está certo o eleitor paulista, que vai eleger Tiririca o deputado federal mais votado da História deste país.

Lamento que entre o elenco de candidatos à Presidência, eu não encontre um Tiririca pra votar. E lamento que não haja um Tiririca candidato no Rio Grande sem Norte.

Como estou tiririca, quero estar com Tiririca. Ah, como eu queria poder votar num Tiririca!

É o meu sentimento num país dominado pelo populismo ignorante e malévolo das nossas horas matreiras afastadas de leis, onde o golpe abaixo da cintura é válido posto que é cego o juiz que não quer ver.

Quisera poder votar num Tiririca para dizer da decepção de ter de escolher um cacareco para dirigir a nação amada, sem noção do que um palhaço seria capaz quando no timão da nave louca, em meio a mar revolto, sujeito a ventos incertos.

Incomoda-me a desfaçatez, a inconseqüência.

Incomoda-me em mim a minha incapacidade de não poder mudar o destino cinzento que se descortina sob manto de mentiras e chicotes direcionadores de inconsciências necessitadas.

Triste a nação que não sabe ler o seu destino; não enxerga seu futuro imediato.

Democracia de voto popular é sublime conquista da humanidade, conquista edificada em séculos de imaginação, sonhos, revolta e sangue. Reflexões filosofais levadas ao ralo que faz emergir finanças financiadoras de votos conspícuos, cabrestados em currais mapeados em pranchetas de casas conhecedoras de jogos manipuláveis, nos quais, como bispo ou cavalo de xadrez, é peça o elemento humano, eleitor privado de seu próprio querer.

Na ditadura partidária que vivemos, mais e mais força terão os coronéis modernos, senhores proprietários dos crachás convencionais pagos a migalhas.

O santo é oco, o andor é de barro e, no entanto, Tiriricas só existem para poucos, privilegiados eleitores que podem mandar à pequepê a farsa da democracia movida pelo poder do capital.

Tiririca com tudo como estou, quero votar num Tiririca e nem nele sou apto a votar!

Argh!

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Sem emoção

João da Mata Costa
Escritor

Véspera de eleição muitos candidatos nas ruas. Todos os bares estão cheios. Políticos procuram eleitores em todos os lugares. No bar é mais fácil. Eleitores descontraídos que aproveitam para tomar mais uma por conta do futuro senador ou deputado. Por isso mesmo esse é um tempo bom para os bêbados, doidos, comediantes e jornalistas. Todos se aproveitam desse momento para molhar a palavra nem sempre fiel. Engordar um dinheiro e tirar a barriga da miséria. Eles estão em todos os lugares e bares e fazem tudo para atrair, com ou sem poluição. O cabo eleitoral passa por mim todo sorridente e não dou bolas. A cabo eleitoral capricha no decote e na minissaia. O outro traz o santinho escondido dentro da agenda. Todos os doidos fazem discursos e saem para as ruas. È bonita a festa, pai. Me ajude com essa crônica que não era para falar disso que eu comecei.

Ontem fui visitar as praias e lagoas da zona norte do RN. Fazia tempo que não fazia esse passeio eco-turístico. Mais turístico que eco. Na cachoeirinha de Pitangui bebida e comida com a mesa e pés dentro da lagoa. Um delicia. Churrasquinho de camarão e de lagosta Ula-ula a dez contos. Não sou turista não seu moço. Com emoção é mais caro!.

Descida de ski-bunda das dunas caindo numa piscina artificial e suja. Tô fora. Para fazer xixi só no banheiro ecológico em cima das dunas, nosso pulmão do aqüífero, continuamente poluído.

Antes, depois de atravessar a ponte Newton Navarro, uma passada em Estivas para comer sapoti, tomar uma água de coco e comprar frutas para a viagem que demorará o dia inteiro. Na Lagoa de Jacumã muito mais emoção ao descer de tirolesa. Achei pouco seguro para crianças e não recomendo às minhas sobrinhas. Tomo cerveja e faço mais um xixi ecológico: sem emoção.

Pitangui, Muriú, Barra de Maxaranguape para abastecer e comprar gelo para a vodka com laranjada. Zumbi, Maracajaú e Pititinga. Quantas lembranças do tempo em que descobríamos essas praias sem os estranjas. Só com os pescadores, todos nossos compadres. Trocávamos peixe por cigarro e o ensopado de polvo e lula estava garantido.

Emoção eu senti mesmo com meu irmão dirigindo o carro subindo e descendo dunas sem conhecer. Que medo. Lá na frente o carro não passa. Tivemos que baixar a pressão dos pneus.

A fome aperta e chegamos depois de alguns erros no bar do vovô, numa praia com nome de madeira. Delicioso pastel de arraia. O peixe frito e cozido é a pescada branca e cavala. A tapioca estava melhor. O preço mais salgado que a comida. É o preço do progresso. Até ali tinha prefeito. É o crepúsculo quando voltamos. Belo final de tarde de um maravilhoso passeio. Com e sem emoção. Vou procurar um bar para fazer xixi. O bar do vovô até que é limpo. Quando voltar, telefone. Até!.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Como faz

Uma conversa quase gastronômica na Redinha Nova

Eduardo Alexandre
Jornalista

Havíamos passado a manhã da quarta curtindo a ressaca das cervejas e peixe da noite anterior e precisávamos voltar a Natal.
Finalzinho da tarde, fomos à parada de ônibus mais próxima, onde encontramos nossa vizinha fazendo companhia à filha naquela espera angustiante pelo transporte que nem sempre passa na hora certa.
Apresento Delira a filha que cursa Gastronomia e a conversa gira em torno de pratos que sabemos fazer:
- A salada de Delira, de ontem à noite, além de bonita, estava deveras apetitosa, adiantei conversa.
- E o peixe de Dunga, eu que não gosto de fritura, só La Paranhos comeu três postas, contra atacou o Cabelos Brancos de Praia Grande.
- O peixe que vocês fazem aqui, com tapioca, é uma delícia, elogiou a vizinha pernambucana.
-Uma pena que eu não saiba fazer tapioca, lamentei.
- Mas é tão fácil: é só peneirar a massa e colocá-la sobre a chapa bem quente, ensinou a filha, perguntando em seguida:
- Cuscuz, você sabe fazer?
Respondi com ar de espanto:
- Ué, não é só botar o bicho dentro?
Delira segurou o meu pulso e disparou:
-Perái, Dunga: isso aí é como faz menino.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

O deficiente

Ailton Salviano
Jornalista
ailton@digi.com.br  

Nesta primeira quarta-feira do mês de setembro, dezenas de pessoas formavam longas filas diante dos guichês das lotecas. A mega-sena estava acumulada. 70 milhões de reais. Quantos sonhos! Na loja, onde costumo jogar, a fila preferencial para idosos, gestantes e deficientes estava anormalmente longa. Com paciência, entrei no final da fila e para passar o tempo, comecei a rever meu surrado jogo de poucos reais. A incômoda presença de um jovem, aparentemente sadio, naquela fila especial chamou a atenção de todos. Alguns ficaram irritados, mas ninguém ousou dirigir alguma palavra àquele mancebo. Na vez dele, a mocinha que faz o jogo percebeu a irregularidade e perguntou alto e bom tom:

- O senhor tem alguma deficiência?

O rapaz olhou para a moça e para os que estavam na fila e respondeu com voz de sofrimento:

- Eu sou broxa!