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domingo, 11 de novembro de 2012

Panfletos e sexo


Paulo Correia
Jornalista
paulo.correia@r7.com

Hoje acordei com o sol já forte. Passava e muito do meio-dia. Levantei e o corpo já pedia calma. A boca estava com o gosto da cerveja e do uísque de ontem à noite. A maquiagem estava ainda na face, mas a desconstrução da mulher fatal já tinha ocorrido. Do meu lado dormia a minha amiga de trabalho e de baladas. Amiga não, isso é muito profundo, colega mesmo. Uma garota bonita, morena, e com um corpão de fazer parar o trânsito. Duas meninas sem muito conteúdo e dispostas a quase tudo por uma noite de loucuras. 
Trabalhamos juntas. Fazemos a entrega de panfletos de festas em boates e bares freqüentados pela chamada elite de Natal. Uma rotina que começa cedo. Assim que recebemos a ligação do nosso “agente”, Carlos, temos poucas horas para produzir nossa imagem, e isso quer dizer: colocar muita maquiagem no rosto, roupas provocantes e curtas no corpo e fazer caras e bocas quando necessário. Uma rotina que já começa na quarta-feira, quando as primeiras concentrações de baladeiros saem de suas tocas para curtir a noite da cidade, e somente terminam no sábado, quando os últimos bares estão fechando as portas. 
Jess, ela não gosta que a chamem de Jéssica, está de rolo com Carlos. Parece que não é garota de rua como eu, que não sabe as malandragens desse escroto. Coitada. Pior que mulher ingênua é piriguete querendo ser ingênua. Eu já contei para ela o que ele faz nas horas vagas, quando não está no carro esperando a gente nas intermináveis noites de festas. Já lhe contei do seu sujo contato com policiais em roubos de veículos e tráfico de drogas. Já lhe contei da sua fuga de Pernambuco por conta de um assassinato na periferia de Recife. Ela que descubra o verdadeiro Carlos como quiser. Só espero que não seja através de tapas no rosto, nem muito menos roubada por ele. 
Mas voltando para as nossas noites. Ontem tivemos que fazer dois bares, entregando CD´s promocionais de uma dessas milhares de bandas de forró que estão por ai. Depois fomos para uma cidade próxima, distribuir gracejos em uma vaquejada comandada com mãos de ferro por um empresário do ramo de carros usados e um prefeito seboso acompanhado de dois vereadores mais asquerosos ainda.
Na festa, o prefeito sugeriu ao Carlos que ficássemos um pouco mais. Que as lindas meninas curtissem o forrózão alguma coisa que tava no palco e que era o maior sucesso da temporada. Um sucesso baseado em músicas que falam de carros 4x4, raparigas e bebidas. Nada de novo para essa danada aqui, que já ouviu esses repertórios incontáveis vezes. Que já sabia todos os passos daquela noite planejada na cabeça do prefeito e seus asseclas. O forró para eles era o de menos, o que eles queriam era sexo e putaria até altas horas. E tudo isso à custa das duas meninas-panfletos ali do lado. Eu e a Jess.
Depois de muito beber, cair e levantar, Jéssica já estava para lá de Bagdá. Ela foi presa fácil para os administradores locais. Eu, que já tinha levado muita porrada dessa vida ao longo dos anos, bebi pouco e soube enrolar muito até a madrugada. Observei que um dos vereadores era mais calado e tímido, e foquei minhas garras nele. Fiz de tudo para que ele me escolhesse e me levasse para algum lugar sozinho. Assim seria mais fácil embebedá-lo e conseguir trabalhar bem menos naquela noite. Se é que vocês me entendem. 
Dito e feito. O nobre caiu de amores por mim. Queria sexo, isso é inegável. Mas não da forma selvagem como o prefeito e o outro vereador. Esses ficaram com Jéssica, que foi liberada pelo Carlos. Esse fez cara de homem ciumento na frente dela, mas assim que a largou com os dois brutos no motel, foi logo para o forró e pegou uma menina de 17 anos para ficar. 
Eu fiquei mesmo com o edil mais tranqüilo, que gosta de romancear tudo o que vê e que é fraco para bebidas. Aproveitei e enchi seu copo várias vezes, e o meu também. Mas o nosso legislador foi mole na balada, caiu rápido num sono profundo, e eu que não sou besta, e no fundo queria isso mesmo, aproveitei para pegar a minha bolsa e me mandar. 
O táxi me deixou na porta de casa às 5 da manhã.  Jess só chegou às 9h, e está apagada até agora.
E aqui estou eu esquentando uma velha pizza para o nosso almoço. Um almoço de baladeiras.
               

domingo, 23 de setembro de 2012

Carros, relógios e roupas de marca: Tudo vira música


Paulo Correia
Jornalista
paulo.correia@r7.com

De uns tempos para cá, o Brasil despertou para um fenômeno que não é novo e que já atrai jovens do mundo inteiro: o de escrever, produzir e ouvir músicas que falam sobre marcas de carros, relógios e roupas de grifes importadas. Por aqui, essas canções são compostas, na sua maioria, por integrantes de duplas sertanejas, grupos de funk e cantores do chamado forró eletrônico. Lá fora, a coisa não é muito diferente. Com letras saindo da cabeça de cantores do country norte-americano e dos rappers mais antenados.
No Nordeste brasileiro, grupos de forró incorporaram esse novo filão nas suas gravações e shows disputados em toda a região. Vai desde as atuais “Camaro amarelo” e “Vem ni mim Dogde RAM” até a já batida “ Ai se eu tivesse uma Hilux”. Todas elogiando as máquinas e o sucesso desses veículos na conquista de mulheres.
No México e na comunidade hispânica dos Estados Unidos, o fenômeno é cantado em verso e prosa por artistas tão diferentes como Alfredo Rios e El Cinko. Todos inserindo o luxo como elemento principal de suas composições. Músicas que não diferem das brasileiras e que falam de baladas, mulheres fáceis e muita bebida.
Aqui no Brasil, os cantores de funk que aderiram as letras luxuosas já receberam a denominação de “funkeiros da ostentação”. Nesse bolo, se observa claramente o individualismo generalizado, o consumismo em alta voltagem, o sexo banalizado e uma pitada de valorização ao banditismo.
Nada também muito diferente do que é produzido no México e nas letras mais quentes de Miami. No país do Chaves e do Chapolin, as músicas tratam sobre a violência do narcotráfico e a história dos principais líderes de cartéis. Por aqui, algumas das canções falam de facções criminosas e confrontos com policiais militares.
O interessante de toda essa história é observar como esse estilo atingiu os gêneros musicais e como ele conseguiu colocar todos em um mesmo barco. Em um barco não, mas em um reluzente e veloz iate.     
“Agora eu fiquei doce igual caramelo
Tô tirando onda de camaro amarelo
Agora você diz: "Vem cá que eu te quero!
Quando eu passo no camaro amarelo” 

domingo, 19 de agosto de 2012

Patrícia Acioli

Paulo Correia
Jornalista
paulo@r7.com.br

Em 12 de agosto de 2011 um crime chocou o Brasil pelo alvo atingido. Uma juíza, de apenas 47 anos, e que era conhecida pelo seu exemplar trabalho na cidade de São Gonçalo, no estado do Rio de Janeiro. Patrícia Lourival Acioli. 21 tiros de pistola. Assassinada na porta de casa.

De lá para cá, diversas autoridades prometeram a prisão dos culpados e um maior incremento no combate ao crime. Prometeram segurança especial para juízes ameaçados de morte. A sociedade pedia, e por conta desse clamor, o Governo do Rio começou a investigar o caso e prendeu os principais envolvidos no assassinato.

Agora em agosto, o governo anunciou que cinco dos 11 policiais militares acusados de envolvimento na morte da juíza, irão a júri popular. Júnior Cesar de Medeiros, Handerson Lents, Sérgio Costa Júnior, Jovanis Falcão e Jefferson Araújo, devem ser julgados em setembro. Os outros acusados, Cláudio de Oliveira, Daniel Benitez, Charles Tavares, Carlos Adílio e Alex Pereira, pediram para não ir a júri popular e aguardam nova sentença.

Saindo um pouco da esfera do Rio de Janeiro, onde a corrupção policial ganhou ares endêmicos, observamos que essa estrutura viciada e criminosa se espalha pelo restante do Brasil e continua não poupando nem as autoridades judiciais (anteriormente vistas com certo receio pela bandidagem). Pulamos perigosamente a fase da criminalidade que não enfrentava de peito aberto juízes e promotores e que agora os matam sem medo. O dedo que puxou o gatilho contra a juíza Patrícia é o mesmo que manda recados velados (ou com a ajuda de uma bela loira) para os juízes Paulo Augusto Moreira Lima e Alderico da Rocha Santos. Ou alguém duvida que o caso Cachoeira e os seus desmembramentos não são obras do crime organizado?

Para esse humilde jornalista de canto de página, Carlinhos Cachoeira, os irmãos Natalino e Jerominho Guimarães, e a corja de policiais desonestos que tomou de assalto as comunidades carentes do Rio de Janeiro são a mesma coisa: mafiosos. Esse negócio de contraventor e miliciano são termos inventados. Eles são sim, a pura definição de máfia tupiniquim. Com toda a sua violência, controle absoluto (por meio de extorsões) dos serviços básicos de transporte público, gás, água mineral e segurança privada. Até o exibicionismo do “preso político” de Goiás e o assistencialismo barato dos irmãos da Zona Oeste do Rio são parecidos.

John Gotti e Salvatore "Totò" Riina fazendo escola no Brasil.

Infelizmente.

domingo, 12 de agosto de 2012

Uma boa diversão

Paulo Correia
Jornalista
paulo.correia@r7.com


Nesses últimos dias, procurando algo interessante nas prateleiras das livrarias de Natal (infestadas de livros de auto-ajuda e literatura juvenil) descubro “O Cobra”, publicação de 2011 do escritor e jornalista aposentado Frederick Forsyth. Folheei a obra sem muita atenção, pois admito: não sou um fã do autor especializado em livros de ação e suspense, e que somente conseguiu me prender no seu primeiro livro, o competente “O Dia do Chacal”.

De lá para cá, li outras obras de Forsyth e não gostei do resultado de nenhuma delas. Mas com O Cobra foi diferente. Por tratar em suas quase 400 páginas de um tema que tenho muito interesse, o tráfico de drogas internacional e as pessoas que circulam nesse meio, resolvi apostar minhas fichas na publicação. E posso garantir: vale à pena.

Na história, o personagem central é Paul Devereaux, um ex-agente da CIA conhecido como o Cobra. Escalado pelo presidente dos Estados Unidos para uma missão ingrata e perigosa: acabar de vez com os cartéis de cocaína e a sua indústria da morte, ele decide formar um grupo de especialistas das mais diferentes áreas para elaborar um plano global e enfrentar, com todas as armas possíveis, o inimigo.
À sua disposição estão equipamentos, dinheiro, os melhores peritos em tecnologia, autoridade total e seu braço direito Cal Dexter (personagem tão interessante quanto o Cobra). No entanto, do outro lado estão os impiedosos barões da cocaína e os inúmeros traficantes, intermediários e outros tantos envolvidos que lucram imensamente com o negócio.

Nas páginas, o universo de operações policiais que quase nada conseguem no combate aos cartéis, a alta tecnologia empregada pela indústria da droga, o total desconhecimento desse mundo, por meio das autoridades governamentais, a corrupção de fiscais alfandegários e o trágico dessa potente máquina: a morte de uma multidão de viciados diariamente. O início do livro é chocante e exibe uma realidade que é comum aos bairros pobres de Washington, as favelas do Brasil e a toda família que possui um dependente químico em casa.

A história de Frederick Forsyth é fictícia, mas possui fragmentos de verdade. Não creio que uma operação elaborada nos moldes do Cobra possa ter sucesso. Pelo menos, ao longo de um tempo. A corrupção de elementos chaves em um plano como aquele seria rápida. Mas não custa sonhar com toda aquela ação se passando na vida real. O fim dos impiedosos cartéis de drogas é o desejo de muitos. Da mesma forma como é o desejo de muitos a sua continuidade.
O Cobra, de Frederick Forsyth.
Uma boa diversão.

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Amores brutos

Paulo Correia
Jornalista
paulo.correia@r7.com


Eles se conheceram em uma das inúmeras paradas de ônibus de Natal. Ela, com 15 anos, vendia bombons e chicletes e era ajudada por sua irmã menor, de nove anos. Ele, com 17 anos, também vendia chicletes e balas de gengibre. O local das vendas e os clientes eram os mesmos: o interior dos coletivos e os cansados passageiros que se espremiam dentro dos veículos.
Ela e a irmã eram natalenses e moradoras do bairro do Bom Pastor. Ele era paulista, com pouco tempo em Natal e morador de um cortiço no centro da cidade. Ela se chamava Jéssica. Ele se chamava Alex. Ambos eram bonitos, com corpos bronzeados pelo sol de Natal e espertos como todos os jovens criados nas ruas. Possuíam uma sensualidade que saia pelos poros do corpo e atingiam até o mais distraído transeunte que cruzasse o seu caminho. 
Ela tinha pernas bem torneadas, bunda arrebitada e seios de tamanho correto. Nada de exageros ou medidas formuladas em academias ou por remédios importados. A sua genética e o trabalho diário formataram a bela adolescente. Ele também possuía uma boa aparência. Com dentes limpos, cabelo bem cortado e um corpo magro. Os olhos dos dois tinham as mesmas expressões: uma firmeza e ao mesmo tempo uma ternura. Uma ingenuidade e ao mesmo tempo uma malícia.
Os dois faziam parte do exército de meninos que todos os dias acordavam cedo e logo se aboletavam nos ônibus da cidade. Com as suas inseparáveis caixas de doces e o repertório batido e apresentado diariamente para uma platéia pouco receptiva e sem muita paciência. Um interminável sobe e desce. Dependentes da boa vontade de motoristas e cobradores.
Entre uma viagem e outra eles se conheceram melhor. Conversaram por mais tempo e descobriram afinidades. Descobriram a tensão sexual perto um do outro. Despertaram o monstro adormecido. Com toda a sua loucura e prazer. 
No mesmo dia, um sábado, resolveram tomar umas cervejas em alguma birosca e conversar mais sobre essas afinidades. Largaram as suas caixinhas de balas e confeitos nas mãos de colegas, que estranharam a saída de ambos, conhecidos por serem trabalhadores e por ficaram até mais tarde nos ônibus da cidade. O desejo não bate ponto e nem espera anoitecer. O desejo é imediatista. É veloz.
Foram para um boteco no Alecrim e pediram uma cerveja e churrasquinhos de carne, para ele, e queijo, para ela. Com a Presidente Bandeira e os seus carros como testemunhas, se beijaram pela primeira vez. Se abraçaram pela primeira vez. E com o pouco dinheiro recolhido durante o dia, fizeram a primeira loucura juntos: Ao invés de levar para casa e comprar o pão e leite, investiram a grana em uma espelunca próxima que exibia na fachada o nome Motel Love. Se não fosse a proximidade com o bar, eles teriam transado nos becos escuros ou entre os carros estacionados. O desejo não respeita à hora do jantar ou a rua movimentada.
Depois dessa tarde/noite, eles ficaram inseparáveis. Mesmo entrando em linhas de ônibus diferentes para venderem os seus produtos, a ligação de ambos era notória. Os beijos molhados, os amassos, a malícia no olhar e o carinho eram o que se destacava naqueles dois garotos sem roupas de marca, sem calçados confortáveis e sem a falsidade de muitos. O amor era rasgado. Gritado. Louco.
Com o tempo, os olhares de maldade de alguns colegas injetaram o líquido sujo do ciúme em ambos. Alex passou a desconfiar do riso gostoso de Jéssica, e a jovem passou a suspeitar de escapadas do garoto com outras mulheres. Ambos, tocados pelas garras do monstro. Tocados pela sua insegurança e individualismo.
Tempos de cólera nas calçadas de Natal. Gritos e insultos para todo mundo ouvir. Que se fodam! Tempos de choro e músicas românticas repetidas no pequeno toca CD na casa do Bom Pastor. Tempos de cachaça queimando o juízo em um cortiço do Centro.
Os venenosos que plantaram o ciúme no coração dos jovens foram os mesmos que informaram a Jéssica sobre a partida de Alex. Voltou para São Paulo para cuidar da mãe doente e tentar algo melhor. Quem sabe, como embalador de um supermercado qualquer e com carteira assinada.
A tristeza pela perda do sexo gostoso. Pelo carinho. Pelo amor perdido. 
A realidade que deve ser encarada. Que não espera a cicatrização da dor. Que cobra agilidade, ação e alegria (mesmo que ela seja irreal). A vida dentro dos ônibus da cidade deve continuar. O repertório deve voltar a ser anunciado aos quatro ventos. 
A vida, com todos os seus atropelos, deve seguir. Deve passar. 
Apesar da dor.

segunda-feira, 9 de julho de 2012

Um bom thriller de suspense

Paulo Correia
Jornalista
paulo.correia@r7.com

Não sou um telespectador assíduo de novelas. Nunca fui. Mas confesso que de uns tempos para cá tenho acompanhado a nova do horário das 21h, Avenida Brasil. O ritmo da história, em formato de thriller  de suspense, me anima e deixa a novela com um ritmo muito bom.
O autor, João Emanuel Carneiro, já tinha feito o mesmo com a sua obra anterior, A Favorita, de 2008, e mostrou que soube reinventar muito bem os enredos de mocinhos e bandidos e injetar um novo componente nessas historias (a maioria já muito batida) que foi o foco dúbio e nebuloso dos seus personagens principais, incluindo ai a mocinha da novela.
Em Avenida Brasil, a personagem da atriz Débora Falabella, a Nina, é o exemplo maior dessa inovação. Com ações que apresentadas ao grande público noveleiro (notadamente muito conservador) há uns dez anos, seria muito mal recebidas, mas que atualmente passam quase que despercebidas e que são normais para um confronto de vingança com a vilã da história, a Carminha, interpretada pela atriz Adriana Esteves.
Na novela, outro ponto de destaque é o núcleo de moradores da periferia. Na história de João Emanuel Carneiro, os personagens circulam pelo movimentado bairro fictício do Divino. Inspirado em localidades da Zona Norte do Rio de Janeiro, com todos os seus problemas e soluções tomadas pelos inúmeros moradores, o Divino é o centro onde nasceu o personagem Tufão, interpretado pelo ator Murilo Benício, que dali saiu para o mundo do futebol internacional. Nas ruas do bairro também circulam a chamada e exaltada classe C. Personagens que de uns dez anos para cá, estão saindo da pobreza e conseguindo, com muito trabalho, adentrar no mundo do consumismo dividido em parcelas. A cabeleireira Monalisa é o personagem exemplar dessa ascensão popular.
Esses dias, o autor João Emanuel Carneiro deu uma boa entrevista para as páginas amarelas da revista Veja, contando sobre o sucesso da novela (que já bate na casa dos 40 pontos de audiência no IBOPE) e sobre o cansaço do formato antigo de se fazer novelas. Depois de publicada a entrevista, alguns autores da rede Globo soltaram declarações veladas sobre João Emanuel e a sua obra. Eu li a entrevista e não achei nada de mais o que ele comentou. As declarações partem de setores que já estavam acostumados e acomodados com o sucesso de suas novelas, algumas repetitivas e muito fantasiosas. Esse foi o grande problema de João Emanuel Carneiro: ele afetou os interesses de um grupinho e mostrou que para se fazer boas novelas não é necessário ir para Dubai, Londres ou Marrocos.
Vida longa ao autor e as suas historias recheadas de tramas policiais, reviravoltas, bom humor na dose certa e diálogos afiados.

quinta-feira, 28 de junho de 2012

O pacifista do tráfico

Paulo Correia
Jornalista
paulo.correia@r7.com

No começo de junho, desembarcou nas livrarias de todo o Brasil o livro Tudo ou Nada, do antropólogo e ex-secretário nacional de Segurança Pública, Luiz Eduardo Soares. O calhamaço, de mais de 350 páginas, é a história de um jovem economista, que durante a década de 1970 ganhou muito dinheiro, e que nos anos seguintes, por vários motivos, resolveu abandonar o mercado financeiro e curtir os seus dias a bordo de um veleiro. Navegando pelos mais diferentes lugares, conhecendo pessoas e aproveitando ao máximo a filosofia hippie.
Tudo ou Nada é a trajetória de Ronald Soares, no livro transformado no personagem Lukas Mello. Um homem que, como muitos de sua época, caiu com todo corpo no movimento paz e amor e nas eternas viagens com maconha, haxixe e LSD. E como poucos, aproveitou todo o prazer que o dinheiro poderia comprar. La dolce vita nos mares do Caribe e nos passeios com belas mulheres. Anos de brilho e alegria. Tempos de ingenuidade.      
Experiências que logo mais o levariam para outras viagens e drogas. Para o mundo da cocaína e da heroína. Viagens que o transformariam em um viciado completo. Anos de pouca grana e tempestades familiares.  Tempos que transformaram o antigo pacifista em um louco.
Nas páginas, a cronologia que levará esse homem a se transformar em um associado do famigerado cartel de Cali, da Colômbia, e enfrentar os seus piores dias preso em celas da Inglaterra e nas masmorras do Brasil. Tudo isso, por ser preso em fevereiro de 1999, em Londres, intermediando uma transação de duas toneladas de cocaína.
Nas páginas, a sensibilidade de um escritor disposto a entender um personagem real cheio de confusões internas. Um homem em constante mudança.  “Ele já não buscava a variedade e a intensidade das experiências, fossem elas alegres ou penosas. Esse talvez tenha sido o seu ideal quando trocou a riqueza pelas viagens marítimas, aos vinte e poucos anos. Mas certamente não estava mais em pauta quando responsabilizou-se pelo ato que decidiu o sentido do seu futuro, isto é, quando optou por seguir a linha da institucionalidade econômica vigente, a mais tradicional, conservadora e previsível. O alvo do ato fazia-o parte do jogo jogado, ainda que fraudando as regras”, como escreve Luiz Eduardo no final da obra.
Tudo ou Nada. Um livro que merece ser lido!

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Tramas

Paulo Correia
Jornalista
paulo.correia@r7.com

Um dos assuntos mais importantes no Brasil atual e que deveria ser analisado por toda a população como forma de conhecer melhor a sua política, os seus personagens, e a parceria entre esse setor e empresas privadas passa quase que despercebido por todos: O escândalo da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Cachoeira.
Ali se encontram todos os elementos mais impactantes de um grupo criminoso que opera em parceria plena com parlamentares federais, empresários da construção civil e policiais. Uma história que a cada dia fica mais complicada e ao mesmo tempo mais esclarecedora sobre a forma de trabalhar das máfias tupiniquins. 
Os mais recentes (amanhã surgirão outros) tópicos dessa trama são a não convocação, por parte dos integrantes da CPI, do empresário Fernando Cavendish, ex-presidente da construtora Delta, e Luiz Antônio Pagot, ex-superintendente do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit). O acerto para a não convocação dos dois partiu de integrantes das bancadas do PMDB e do PT.
Cavendish e Pagot são peças fundamentais para se compreender esse balaio de gato que se transformou a CPI e as manobras, algumas descaradas, para se encobrir certas verdades. Manobras feitas por deputados e senadores que explicitamente estão na comissão para defender qualquer interesse, menos a verdade e o bem público. 
A não convocação de Fernando Cavendish e Luiz Pagot exibe a face de certos integrantes dessa CPI. Afinal, o primeiro teve a sua empresa declarada como inidônea pela Controladoria Geral da União e de possuir um ex-diretor ligado à Cachoeira. O segundo prometeu fazer revelações bombásticas sobre o esquema: empreiteiras-Cachoeira-políticos.
Por que esse receio de convocar os dois senhores? Quais serão as revelações de Pagot? O Brasil e a sua população precisam dessas respostas. Ou será que ficaremos parecidos com o personagem de Tom Cruise no filme Questão de Honra, quando confronta o personagem de Jack Nicholson e esse lhe diz que ele não suporta a verdade. Ficaremos tão atordoados assim?
Às vezes tenho a sensação que essa CPI será mais uma para o eterno forno dessa pizzaria chamada Brasil.

segunda-feira, 4 de junho de 2012

O sonho de todo fã

Paulo Correia
Jornalista
paulo.correia@r7.com

Nesses dias de pouca grana e cartão de crédito mais que estourado, recebo de minha querida amiga Karla Rocha um bom presente (emprestado, mas ainda um bom presente): O livro “Under their thumb- Como um bom garoto se misturou com os Rolling Stones e sobreviveu para contar”, do jornalista Bill German. 
A publicação, lançada nos Estados Unidos em 2009 e por aqui em 2011, é o relato de um aficionado pela banda inglesa e a criação de um fanzine que contava todos os passos dos integrantes dos Stones durante as décadas de 1980 e 1990. E o melhor: a história de como esse fã/escritor se tornou um frequentador assíduo dos shows, casas, e vida dos velhotes do rock. Um sonho concretizado que todo verdadeiro fã deseja para si.
No livro, a trajetória de German descobrindo a sonoridade, as letras cruas, sensuais e violentas da banda são o passo inicial dessa caminhada que o levou aos bastidores e ao contato pessoal com Mick, Keith, Ronnie, Bill e Charlie. Uma trajetória marcada inicialmente pelo fascínio total e que terminou com a confirmação de que eles não são deuses e nem muito menos homens exemplares, mas seres humanos que possuem muitas virtudes, mas também muitos defeitos. Defeitos potencializados por egos gigantescos, drogas e bajuladores de toda espécie.
No livro, a confirmação que a banda é uma caixa de loucos que milagrosamente se entendem.  Mick Jagger é o mais chato, irritante e louco por dinheiro da banda. Um empresário acima de tudo. Keith Richards é o boa praça do grupo, Ron Wood é o doidão por drogas e exímio pintor, Charlie Watts é o caladão e membro mais recluso e Bill Wyman é o fã de menininhas de 14 anos. Um grupo que poderia facilmente ter acabado ainda na década de 1960, mas que continuou despejando o seu veneno durante as próximas décadas e que agora em 2012 completou 50 anos.
É por essas e outras que recomendo o livro de Bill German. Um trabalho deliciosamente bem escrito e que deixa cada leitor com uma pontinha de inveja do autor.
Ou não.

terça-feira, 15 de maio de 2012

Sanguessugas do Brasil

Paulo Correia
Jornalista
paulo.correia@r7.com

No começo de abril, chegou as livrarias de todo o país, pela Geração Editorial, o livro “Sanguessugas do Brasil”, do jornalista Lúcio Vaz. A publicação, pertencente à coleção História Agora, que já lançou no mercado o estrondoso “A Privataria Tucana”, é um apanhado de 12 escândalos nacionais que envolvem corrupção, assassinatos e políticos e empresários bandidos.
No texto, Vaz explica como se articularam e operaram alguns dos principais grupos criminosos do Brasil. De licitações fraudulentas, passando por ajuda e participação direta de parlamentares e servidores públicos, até assassinatos de prefeitos de pequenas cidades que falavam demais.
Na leitura dos casos, a constatação que o sentimento de impunidade é absoluto. Uma certeza que o Brasil e o seu dinheiro merecem ser roubados. Uma certeza que nada irá ocorrer e que ninguém será punido verdadeiramente. Algumas peças precisam cair para saciar a opinião pública, mas o jogo sujo continua e os milhões de reais continuarão sendo desviados.
Um dos casos apresentados e que dá nome ao livro, envolve um deputado federal de Rondônia, Nilton Capixaba, em uma trama que mistura propina paga por pequenas prefeituras e uma fábrica que constrói ambulâncias. Uma história que poderia ser fatal para o jornalista, caso ele não se cercar-se das boas cautelas da profissão.
No texto, dois capítulos são integralmente dedicados ao Rio Grande do Norte e as mazelas enfrentadas pela sua população, notadamente a população mais pobre e moradora da zona rural. Nas páginas, o escândalo da Máfia dos Remédios (que desviava verbas federais destinadas a compra e distribuição de remédios para municípios do interior), a obra inacabada do Hospital Terciário de Natal e a eterna construção da barragem de Oiticica, em Jucurutu.
Na leitura desses capítulos e em todos os outros, observei que os principais personagens dos desvios são os mesmos. Os nomes, sobrenomes e filiações partidárias podem até ser diferentes, mas a desfaçatez, o desprezo pelo próximo e a sensação que são intocáveis são os mesmos. “Bem cuidados senhores da suas riquezas, senhores dos muitos favores. Das vantagens fáceis do poder. Senhores do tráfico de influência”, como canta a banda de reggae Tribo de Jah.
 No final da publicação, a alegria no meio do lixo. A alegria de saber que um bom repórter continuará perseguindo uma boa história. E que sempre existirão esses homens e mulheres. Mesmo sofrendo com as caras feias, as informações pela metade e até as ameaças diretas.
Fica a dica de canto de página: Sanguessugas do Brasil, do jornalista Lúcio Vaz.

sábado, 28 de abril de 2012

Temporadas policiais

Paulo Correia
Jornalista
paulo.correia@r7.com


A revista Status, na sua edição de abril, trouxe um aperitivo para os fãs do escritor Marçal Aquino: Uma curta entrevista onde o autor de “Cabeça a Prêmio”, “O Invasor” e outros livros, conta sobre a sua rotina e sobre o novo calhamaço que deve sair em breve. No texto, Aquino também comenta sobre a sua participação como roteirista da série policial “Força Tarefa”, da TV Globo, e sobre a encomenda de um novo roteiro para outra série, do mesmo segmento, na TV do plim-plim.
Lendo a entrevista e vendo as chamadas da nova aposta da Rede Record, a série “Fora de Controle”, observo que vem embate bom por ai, com as duas principais TV´s abertas do Brasil na briga pelos fãs do gênero policial. Uma corrida por melhores atores, enredo, tecnologia e boas histórias.
Na Record, a atração será encabeçada pelos atores Milhem Cortaz, Rafaela Mandelli e Claudio Gabriel. Na trama, o delegado vivido por Milhem é titular de uma delegacia da zona sul do Rio de Janeiro. Homem de gosto refinado e conhecido por sua eficiência, também provoca polêmica pelos métodos que aplica em seu trabalho. Mesmo assim é tido como uma espécie de mestre para o inspetor Brandão (Claudio Gabriel). Já a inspetora Clarice (Rafaela Mandelli) é excelente profissional, extremamente correta e fiel à lei.
E foi assim, com disputas por melhores histórias, que o gênero cresceu e se desenvolveu ao longo dos anos na televisão americana (A rainha dessas produções). E foi por conta dessa briga saudável que assistimos séries como Miami Vice, NYPD Blue, CSI, Lei e Ordem, e muitas outras que souberam trabalhar o universo policial com maestria. Sem muita ingenuidade ou com caricaturas de policia e bandido, essas séries souberam transportar a atmosfera das delegacias, botecos, ruas e a vida de policiais que se arriscam para cumprir o seu dever.
Por aqui, o universo também é muito amplo e aberto para vários enfoques. Nas mãos de escritores competentes como Marçal Aquino e Marcílio Moraes (autor de A Lei e o Crime e da nova Fora de Controle) os resultados poderão agradar a gregos e troianos.
Agora é esperar a aposta da Rede Record, que tem estréia marcada para o dia 08 de maio, e ficar na torcida na nova série roteirizada pelo genial Marçal Aquino.
Que venha logo!

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Um romance policial inusitado


Paulo Correia
Jornalista
paulo.correia@r7.com


Nesses últimos dias tenho me dedicado a prazerosa leitura de “Fábrica de diplomas”, livro do jornalista e professor da Universidade Federal Fluminense, Felipe Pena. Na obra, lançada em 2008 com outro título e relançada em 2011 pela Editora Record, é exibida a trajetória da fictícia Universidade Bartolomeu Dias. Encravada no meio da Tijuca e vizinha do morro do Borel, a instituição de ensino, particular, é o local onde se passa toda a história de um assassinato e os personagens envolvidos nessa trama policialesca nada comum.
Na publicação, a personagem Adriana Maia, aluna de Farmácia da Bartolomeu Dias, é baleada nas dependências da universidade depois de correr pelos becos do Borel com um misterioso papel em suas mãos e letras de Funk na cabeça. Para investigar o caso, é designado não um policial, mas o professor de Psicologia da universidade: Antonio Pastoriza.
No meio dessa investigação, Pastoriza reencontra uma ex-namorada, envolve-se numa disputa pessoal com o chefe de polícia civil, e se vê no meio da guerra entre milicianos e traficantes pelo controle de uma nova droga sintética produzida no laboratório de farmácia da universidade.
Fora esses aspectos, o livro é especial por mostrar os rumos da educação no Brasil. Notadamente, da educação privada. Mais preocupada com o lucro das altas mensalidades do que a formação de seus alunos.  E é sobre esse prisma que a publicação de Felipe Pena merece uma nota boa. Juntar uma história policial e elementos da vida acadêmica foi uma jogada de mestre. E tudo aliado com uma extraordinária escrita e bom humor.
Eu não sei não, mas acredito que esse livro pode gerar futuramente um ótimo filme ou série de televisão. Afinal, ele tem todos os elementos para cativar o público fiel das histórias policiais. E com esse gancho com a realidade do ensino privado, é tiro certo para boas audiências.
Fica a dica de canto de página: Fábrica de diplomas, do jornalista e professor Felipe Pena.
Vale cada centavo!

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Esquecidos

Paulo Correia
Jornalista
paulo.correia@r7.com

Lendo os jornais e acompanhando o noticiário policial na televisão, me deparo, quase todos os dias, com a morte, sempre muito violenta, de jovens que não atingiram nem os 20 anos. São execuções por disputas de pontos de vendas de drogas, brigas entre torcidas de futebol, brigas por namoradas. Casos que a cada dia igualam Natal a cidade de Nápoles, descrita pelo jornalista Roberto Saviano no seu livro Gomorra.
Até quando esses assassinatos ficarão impunes e serão tratados como meros casos de traficantes contra traficantes ou discussões entre torcidas organizadas? Até quando a nossa sociedade ficará sem voz e o nosso Governo sem atitudes com esse verdadeiro morticínio de nossa juventude? Afinal, esses meninos e meninas não merecem uma maior observação e um cuidado especial com o seu presente e futuro?
Sinto que as pessoas que leem essas matérias em jornais ou acompanham os programas policiais na TV estão ficando apáticas com todas essas informações e esquecendo que esses jovens que morrem e matam todo dia são parte fundamental de nossa comunidade. Esses adolescentes têm famílias, amigos, histórias. Não são ratos de laboratório ou baratas para ficarem esquecidos e soltos ao Deus-dará.
Vamos realmente abandoná-los e deixar que se matem nas ruas de nossa periferia ou tentaremos algo de positivo para esses garotos? É inconcebível que os nossos governantes tratem a juventude como algo de importância mínima. Uma geração inteira largada a própria sorte. Por quê? Por que são pobres, e na sua esmagadora maioria, negros?
Somente com investidas policiais não acabaremos com esse faroeste caboclo e nem muito menos com o oferecimento de subempregos que remuneram mal e sugam a juventude desses garotos e garotas. As ações, sejam elas governamentais ou da sociedade civil organizada, devem analisar a história dessas pessoas e também os seus desejos como participantes de uma geração que é estimulada a todo o momento a consumir e se inserir no capitalismo.
Ou pensamos e colocamos em prática algo concreto ou perderemos essa parada para as drogas, a prostituição e a violência desenfreada. Ou alguém acredita que a coisa não pode piorar e degringolar de vez?
Vamos agir!

sábado, 31 de março de 2012

Mudanças

Paulo Correia
Jornalista
paulo.correia@r7.com


         Estamos bem próximos do período junino. Época de festas regadas com muito forró por todo o Nordeste brasileiro. Época de bandas como Aviões, Garota Safada, Cavaleiros do Forró e Saia Rodada ganharam rios de dinheiro, animando cidades e mais cidades pelo interior afora. Mas será que é somente nesse período do ano que esses conjuntos musicais conseguem essa boa visibilidade e esses bons valores por suas apresentações?
Se pararmos para observar, e isso não é muito difícil, de uns 20 anos para cá, esse novo forró, conhecido como Forró eletrônico ou Oxente Music, dispara na preferência de 9 entre 10 jovens na região Nordeste. Se no início dos anos de 1990, bandas como Matruz com Leite, Cavalo de Pau e Magníficos eram pioneiras na busca por esse novo formato de forró, com a implantação de guitarras elétricas, dançarinos em cima do palco e, principalmente, com estruturas de som e luz de dar inveja a muita gente do meio artístico, hoje elas já são consideradas dinossauros pela turma mais jovem. Em um curto espaço de tempo, essas bandas e suas letras que falam de amores mal correspondidos, foram suplantadas pelas batidas fortes e músicas que falam de cachaça, mulheres pouco corretas e... Mais cachaça. Em resumo, as letras de Eliane, compositora nascida no estado do Ceará e considerada a Rainha do Forró, foram esmagadas pelo fenômeno Xandy e Solange, líderes da banda Aviões do Forró.
Assim como toda expressão cultural, esse novo forró também trás com ele modernidades e concepções que alteram não somente o gosto do ouvinte, mas, também a sua relação comportamental com os outros. Um bom exemplo dessa mudança é o modo de vestir e os anseios do jovem, principalmente, do jovem de cidades pequenas. É claro que não é somente o forró eletrônico que tem o poder de modificar as atitudes dos jovens. Seria muita ingenuidade escrever uma coisa dessas. Já que é inerente ao jovem a mudança, a transformação, a rebeldia. E isso é aqui em Natal, em Jardim do Seridó ou em Nova York. Mas é também muito claro, para todos, que esse estilo musical consegue aglutinar, com suas letras e bandas, um maior número de idéias que passam a girar no universo da garotada de uma forma que outros meios não conseguem ou conseguiram lá atrás.
Independente de serem boas ou ruins, as canções dessas bandas de forró conseguem mostrar uma fotografia de como são as ruas, bares, motéis e a vida desses adolescentes e jovens do Nordeste brasileiro.
Hoje, “Xote das Meninas” de Luiz Gonzaga, continua sucesso e é uma verdade de toda moça, mas canções como “Beber, Cair e Levantar”, “Motel disfarçado” e “Eu Não Quero Me Amarrar” são mais demonstrativas com a realidade desse público.

domingo, 18 de março de 2012

Lutas internas

FOTO: boainformacao. com.br
Paulo Correia
Jornalista
paulo.correia@r7.com

As folhas locais divulgaram esses dias que um policial militar, licenciado do 9° Batalhão, localizado na Zona Oeste de Natal, foi preso em flagrante vendendo pedras de crack na Avenida Antônio Basílio. O PM, de 54 anos, estava à paisana quando foi detido por colegas do próprio batalhão. No momento da prisão, ele alegou que era usuário da droga e que não estava comercializando o entorpecente.
Lendo essa notícia, fiquei pensado em como anda o nosso quadro de policiais militares e civis. Como está sendo tratada a questão do vício, seja ele qual for, de nossos homens da lei. Não é de hoje que observo, com espanto, esses casos extremos na força policial do Rio Grande do Norte. São dezenas e dezenas de homens e mulheres, submetidos todo santo dia a pressões gigantescas, que sucumbem ao vício em narcóticos e, por um caminho muito próximo, também acabam caindo no tráfico. Se nesse caldeirão também se encontram bandidos disfarçados de policiais? Isso é óbvio. Para esses, o rigor máximo da Justiça tem que ser aplicado.
Mas o que chama a atenção é o descaso e o total despreparo dos nossos governantes com os policiais doentes. Com o homem que recebe pouca ou nenhuma atenção social dos seus superiores e do Governo que os manda para as ruas todos os dias. Esse descuido, em um setor nevrálgico de nossa sociedade, é um verdadeiro atestado de incompetência. E isso não é de hoje. 
Os casos estão ai. Todos os dias. Alguns passam despercebidos de grande parte da população e não geram nenhuma notinha de jornal.  Mas eles acontecem. E volto a dizer: todos os dias. Alguns disfarçados de brigas de marido e mulher, outros de surtos nas patrulhas noturnas. Quase todos, abafados em sindicâncias que não saem das gavetas.
Quem bem retratou a vida desses homens da Lei foi o escritor e cineasta Leonardo Gudel, no seu livro Sangue Azul. Na publicação lançada em 2009, o autor conversou com um soldado da PM carioca e relatou nas páginas do livro a trajetória desse homem que viveu de tudo nas intermináveis noites de perseguições em favelas e que terminou com a sua separação da esposa e filho. Um caminho tumultuado pelos extremos e violência diária.
Um caminho que muitas vezes é sem volta.

segunda-feira, 5 de março de 2012

Educação tratada como brincadeira

Paulo Correia
Jornalista
paulo.correia@r7.com

No dia 01 de março, o jornal Diário de Natal publicou uma matéria que deveria ser lida por todos os potiguares sérios e preocupados com os rumos da educação de nossos jovens. A reportagem, assinada por Sérgio Henrique Santos, falava sobre a birra do Governo Rosalba de somente liberar 150 novos ônibus para as escolas estaduais no dia 08 de março (as aulas iniciaram no dia 01). O motivo: A presença do ministro da Educação, Aloizio Mercadante, só poderá ocorrer nesse dia. A encenação da entrega só poderá ser feita nesse dia. Com a sua presença.
É por essas e outras, que há muito tempo eu deixei de acreditar nos rumos do Rio Grande do Norte e do Brasil. Com essa classe política mais preocupada com oba-oba e destaques em colunas sociais, vai demorar muito para virarmos, realmente, um País de respeito.
Tratar os alunos dessa forma é um desrespeito gigantesco com o futuro do Rio Grande do Norte. Esperar a visita de um ministro de ocasião para fazer a entrega de ônibus escolares é uma piada de muito mau gosto. Uma pena que essa notícia passará incólume pelas vistas de grande parte da sociedade e somente no dia 08 de março é que os veículos sairão do estacionamento do Centro Administrativo. Infelizmente os nossos gestores públicos tratam a educação e os que dela dependem como troça de carnaval.
Na matéria do Diário, a informação que a entrega dos ônibus na presença do ministro apenas uma semana depois do início das aulas também poderá atrasar ainda o início do calendário escolar (Já ameaçado por uma greve geral dos professores). Em Currais Novos, por exemplo, dezenas de alunos da comunidade Negros do Riacho, na Zona Rural, estão sem aulas depois que houve um acidente num carro conhecido como pau-de-arara, que resultou na morte de uma criança em 2011.
É por essas, dona Rosalba Ciarlini, que o seu governo é tão mal avaliado pela população. Com pesquisas confirmando um índice de rejeição na casa dos 60%. Acorde, e talvez a senhora consiga reverter esse quadro.
O Rio Grande do Norte aguarda!

quinta-feira, 1 de março de 2012

Subjugados

Paulo Correia
Jornalista
paulo.correia@r7.com

A jornalista Ana Paula Padrão escreveu na revista Istoé, de 25 de janeiro, um artigo revelador sobre as condições de vida na Coreia do Norte dos tempos do falecido ditador Kim Jong-il. Um texto que exibe todo o medo de uma gigantesca população e as mentiras impostas pelos asseclas do poderoso Kim. Um artigo que mostra a propaganda governamental em sua escala máxima.
Lendo o texto da jornalista, fiquei pensando nas inúmeras populações que sofrem os abusos dos regimes fechados. Homens e mulheres que são obrigados, todo santo dia, a concordar com as falácias dos déspotas que os governam. Kim Jong Il era apenas um desses ditadores. Países como o Egito, a Arábia Saudita e o Iraque são outros exemplos de populações subjugadas.
As revoltas civis nos países árabes, que começaram no fim de 2010, foram às provas mais irrefutáveis contra essa cortina de terror imposta pelos ditadores. Populações inteiras que, já não aguentando a barbárie oficial, resolveram pegar em armas e lutar pela democracia. Uma pena saber que muitas dessas pessoas que estão acampadas em praças e ruas serão logo-logo, se não tomarem cuidado, governadas por líderes políticos piores do que aqueles que caíram.
E revolta maior é saber que nesse interminável jogo sujo de xadrez, os únicos que não perdem são os países do Ocidente e o seu cinismo de séculos. Ou alguém acredita realmente que sanguinários ditadores como Saddam Hussein, Suharto, Muamar Kadafi ou a família Saud governam ou governaram sem o apoio de líderes do chamado Primeiro Mundo?
De volta a Coreia do Norte. O país agora será chefiado por Kim Jong-un, filho mais novo de Kim Jong-il. Um rapaz que aparenta ter entre 25 e 30 anos e que comandará os destinos do país pelos próximos anos com a colaboração de uma junta militar.
 É aguardar. 

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Pão com mortadela

Paulo Correia
Jornalista
paulo.correia@r7.com

No dia 15 de fevereiro, a prefeita de Natal, Micarla de Sousa, leu na Câmara Municipal a sua última mensagem ao Legislativo da cidade. Depois de quatro anos, a jovem administradora deixa a Prefeitura no último dia de 2012. Se vai tentar a reeleição? Somente ela poderá dizer e isso ficou para o mês de maio.
Lendo as matérias sobre a mensagem de Micarla em jornais e blogs de política, mais uma vez observei o velho e podre artifício das claques contratadas nos confins da cidade, a preços módicos, para se esgoelaram em nome do gestor da ocasião.
Em fevereiro de 2012, o contrato é fechado com a promessa de um copinho de suco e pão recheado com mortadela. Uma patifaria que todo brasileiro deveria denunciar aos órgãos responsáveis, logo após ouvir esse tipo de proposta. Uma atitude sem futuro que todo gestor sério deveria combater ao máximo. 
É de fazer chorar esse tipo de notícia. Suco e pão com mortadela para gritar inverdades. Gritar que isso e aquilo foi feito na sua rua e saber que é mentira. Meu Deus, quando acordaremos e descobriremos que somos governados pelos mesmos homens e mulheres há séculos?  
Até quando esse tipo de teatro dos horrores existirá em nossa Nação? Até quando essas baboseiras serão aceitas pelo povo? Será que nunca seremos uma sociedade adulta, e sim um bando de adolescentes abobados soltos na Disney que riem de qualquer porcaria? Seremos eternamente massa de manobra de um lado ou de outro do poder? Seremos coadjuvantes até a morte?
Lanço esse desabafo não somente para criticar o gesto da claque micarlista. Quem dera que fosse somente essa administração que utilizasse esse artifício entupido de mofo. Não é. Micarla de Sousa, pelos seus erros como gestora, já está de saída. É carta fora do baralho. O que me preocupa é o dia seguinte. Quem vem depois dela.
Ou pensamos seriamente em nossa política ou seremos eternamente bombardeados com esse festival de sandices. E veremos os nossos filhos e netos trabalhando em subempregos ou pendurados na saia de uma dita liderança. 
Vamos acordar!

sábado, 18 de fevereiro de 2012

Exterminadores soltos

Paulo Correia
Jornalista
paulo.correia@r7.com

Em uma decisão polêmica, o juiz Antônio Augusto Galvão de França Hristov, da 1ª Vara Criminal de Itapecerica da Serra (região da Grande São Paulo), mandou para as ruas os policiais militares Moisés Alves Santos, Joaquim Aleixo Neto e Anderson dos Santos Salles, acusados de sequestrar e decapitar o deficiente mental Antônio Carlos Silva Alves.
O fato macabro aconteceu no dia 8 de outubro de 2008, em um bairro da Zona Sul de São Paulo e chocou a cidade logo que foi descoberto. O corpo da vítima, decapitado e sem as mãos, foi achado no dia seguinte, em uma área conhecida pela desova de cadáveres em Itapecerica da Serra.
Em outubro do ano passado, a decisão do júri que os condenou a 18 anos de prisão foi anulada por conta de um pedido feito pelo advogado dos réus, Celso Machado Vendramini, ao Tribunal de Justiça de São Paulo. Com isso, os acusados que permaneciam presos foram liberados no último dia 09 de fevereiro. Agora, esses senhores aguardarão um novo julgamento, ainda sem data para ocorrer.
O triste de toda essa história é saber que esses meninos de ouro faziam (ou fazem?) parte de um grupo de extermínio conhecido como "Os Highlanders”. Famosos por aterrorizar as periferias de São Paulo e acusados de terem cometido doze mortes. O bando, formado no total por 15 PM´s, é investigado pela Corregedoria da Polícia pela suspeita de utilizar informações do serviço de inteligência do batalhão onde são lotados para extorquir dinheiro de supostos criminosos.
Em 2010, outro grupo de policiais militares de São Paulo foi investigado pela Corregedoria por conta de atos desabonadores. Na época, um grupo de extermínio formado por integrantes das Rondas Ostensivas Tobias de Aquiar, a temida Rota, foi acusado de várias mortes, roubos de carga e extorsão contra civis e militares. Hoje, os processos ainda se arrastam pela Justiça paulistana.
E aqui, em nosso bom e velho Rio Grande do Norte. Será que os homens de bem das forças policias estão na caça aos corruptos que se vendem por tostões, que matam colegas de farda, e que humilham pais de família, estudantes e trabalhadores?
Alguém responde?

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Se não fosse a classe média

Paulo Correia
Jornalista
paulo.correia@r7.com

Os últimos acontecimentos policiais em Natal, como roubos a banco e assalto em padaria, possuem algo em comum: eles afetaram diretamente as idéias da chamada classe média. A violência e a sensação de impunidade cresceram nesse começo de ano e atingiram a faixa da população que mora, em sua maioria, em bairros da Zona Sul da cidade. Pessoas que utilizam pouco o transporte coletivo e que não refletem muito sobre as condições de vida dos que vivem nas periferias.
As matérias nos telejornais do meio dia e nos periódicos são os exemplos do medo da classe média com os seus locais de trabalho e lazer. Uma sensação que começou em janeiro, com roubos em casas de praia e que descambou para o extremo dos tiros disparados dentro de uma padaria localizada no bairro de Petrópolis. 
Nesse tempo, as redes sociais (MSN, Facebook, Orkut e Twitter) colaboraram com as notícias dos jornais. Com isso, a bomba relógio se armou e estourou nesses dias, com 1.500 policiais militares convocados para garantir uma sensação de segurança maior aos natalenses e aos moradores das cidades que compõem a chamada Região Metropolitana.
Observando todos esses relatos, fico pensando no poder da classe média. Se não fosse por essa parcela da população, muito dificilmente o Governo estadual e a cúpula da segurança pública iriam para os jornais falar sobre operações e barreiras policiais. 1.500 homens (com militares até do BOPE fazendo acontecer) não é algo muito comum por aqui. 
Uma pena que essa disposição seja passageira. Midiática até. Perdoe-me quem pensa o contrário. Assaltos a padarias, farmácias e coletivos acontecem todos os dias e quase nada de efetivo é feito para coibir esses atos. O que ocorre agora é que essa violência atingiu as instituições e os pilares das nossas classe média e alta. Enquanto esses roubos, tiroteios e mortes eram perpetrados nos loteamentos afastados do grande centro e da nossa visão mesquinha, tudo valia. Agora ela bate a nossa porta e isso não podemos aceitar!
Por dever profissional, acompanho os jornais todos os dias e leio sobre assassinatos de jovens, envolvidos ou não, com o uso e tráfico de drogas. Observo que a idade desses meninos todo dia diminui. Antes, o envolvimento com os entorpecentes era com 19, 20 anos. Agora, com 12, 13 anos.
Adolescentes que perdem a vida por conta de dívidas de cinco, dez reais com traficantes, que brigam até a morte por times de futebol, e que não merecem muito de nossa atenção. Afinal, eles já estão moralmente mortos há muito tempo. Ceifados pelo preconceito por viverem em locais periféricos e que não oferecem o mínimo para uma boa infância e juventude.          
Não sou contra essas operações de segurança. Longe disso. Somente quem já sofreu nas mãos de bandidos armados é que sabe o verdadeiro valor de um policial nas ruas. O que não aceito é esse tratamento midiático. Se vamos fazer operações contra o crime, que façamos corretamente. Colocar carros de polícia na frente de bancos ou em grandes avenidas não resolverá o problema. Um trabalho de inteligência e de investigação terá efeito muito mais frutífero.
É só uma opinião.