segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Uma morte anunciada


Paulo Correia
Jornalista /

paulo.correia@r7.com

No dia 12 de agosto foi assassinada com 21 tiros de pistola a juíza Patrícia Lourival Acioli, na cidade de Niterói, no estado do Rio de Janeiro. Na ocasião, a magistrada chegava à sua casa, localizado no bairro de Tibau, quando recebeu a carga mortal que a vitimou. Nas primeiras investigações sobre o crime, o forte indício de morte encomendada pelas milícias que infestam os bairros periféricos do Rio e as cidades localizadas na Região Metropolitana da cidade. Milícias essas que estavam sendo asfixiadas pelo bom trabalho desenvolvido pela juíza e, que se sentindo ameaçadas, resolveram demonstrar o seu forte poderio para as autoridades constituídas.
Nos jornais, a comoção da família de Patrícia e a perplexidade das autoridades públicas com mais essa afronta das milícias. Afronta essa que não é de hoje e que já vitimou muitas pessoas, mas que só ganha destaque quando acontece com juízes, advogados ou algum político importante.
No Rio de Janeiro, desde o começo da década de 2000, grupos de policiais militares, civis e bombeiros corruptos descobriram o novo filão para ganharem mais dinheiro fácil. Descobriram as invasões em favelas e comunidades pobres comandadas por traficantes de drogas e, expulsando esses marginais dos locais, resolveram eles próprios extorquirem e ameaçarem os moradores desses lugares. Descobriram a mina de ouro das vans clandestinas de transporte público, a cobrança abusiva por botijões de gás, os gatonet (roubo de sinais de TV por assinatura), e de mais uma infinidade de artifícios para roubarem essas comunidades desassistidas pelo poder público.
Os brutais assassinatos cometidos pelos milicianos nas favelas e bairros afastados do centro do Rio chamaram a atenção de magistrados como à juíza Patrícia Acioli. Pessoas corajosas que resolveram peitar esses bandidos fardados e mandar os seus chefões para a cadeia. Pessoas que estão pagando com a vida por essa coragem.
Em 2008, o deputado estadual Marcelo Freixo resolveu promover na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigar possíveis participações de políticos, entre eles vereadores e deputados, com as milícias. Nos trabalhos, descobriu a participação ativa do deputado estadual Natalino Guimarães e do seu irmão, o vereador Jerônimo Guimarães, o jerominho, com esses grupos criminosos.
De lá para cá, muito pouco foi feito para combater efetivamente essas máfias tupiniquins. E uma das pessoas que ousou bater de frente com elas foi a juíza Patrícia e os seus assistentes.
Na sua última semana de vida, a magistrada estava no início da montagem de uma força-tarefa formada para investigar os casos de auto de resistência (registro de mortes durante suposta troca de tiros com policiais militares). Na visão da juíza, esses autos eram na verdade uma cortina de fumaça. O que eles realmente significavam eram procedimentos forjados, na maioria das vezes para encobrir outros crimes cometidos pelos PM´s.
Por todas essas notícias, será que já não passou da hora de nossos governantes se alertarem para o perigo que são as milícias? Será que não acordaram para a realidade que o Rio de Janeiro poderá se tornar, muito em breve, uma nova Sicília? Um estado que no papel é comandado pelo Governo, mas que na realidade é chefiado por grupos mafiosos.
Alguém responde?

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