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sábado, 9 de maio de 2015

FUTEBOLISMO POLÍTICO


Públio José – jornalista
(publiojose@gmail.com)
                                    

                   É desestimulante, de uns tempos pra cá, assistir-se a uma partida de futebol no Brasil. É claro que no campo o que se joga é futebol – ou algo parecido; é claro que no campo todos os elementos têm ligações com o tal esporte bretão. Lá estão o estádio, as torcidas, os atletas, os juízes, os dirigentes... Mas futebol mesmo é mercadoria difícil de se achar. E um dos fatores a contribuir para esse desencanto é o relacionamento dentro de campo entre jogadores e juizes. No Brasil, o que se passa nos estádios é digno de estudo para psicólogos, psiquiatras e neurologistas – e de outros profissionais ligados ao comportamento mental das pessoas. Em campo, além do pouco futebol, o que se vê é um repetitivo festival de histeria dos atletas a tudo que o juiz apita. Se é um lateral o xingamento logo se faz presente; se é um impedimento do mesmo jeito. E raro, muito raro presenciar-se um gesto de educação, de civilidade.
                        Agressões físicas e verbais, faltas maldosas, malandragens explícitas, simulações desavergonhadas – e nunca, nunca mesmo, os jogadores aceitam a punição.  Sempre tem aquela rebeldia chata, aquela indisciplina tristemente já esperada. Ou os tais – sem exceção – fazem parte de um quadro patológico além da compreensão ou são instruídos pelos técnicos e dirigentes a agirem como irracionais. Na marcação de um falta correm todos pro juiz como se ele fosse voltar atrás da decisão; na marcação de um pênalti é um deus nos acuda; no caso de uma expulsão a reação é bem pior, chegando muitas vezes a agressão física. Técnicos e dirigentes também não ficam atrás. Vociferam, xingam, jogam a culpa em tudo e em todos – menos no faltoso. E quem pensa que tal cenário está circunscrito aos campos de futebol está redondamente enganado. É só olhar para o universo político que a realidade é a mesma.
                        Quando funcionários de governos, altos dirigentes de partidos e parlamentares são flagrados roubando descaradamente, logo aparecem superiores hierárquicos para colocar culpa em tudo – menos nos larápios. E, como no futebol, logo sobram acusações para o Judiciário, para os adversários, para a imprensa – menos para os faltosos. No caso específico dos ladrões do atual governo, e dos corruptos do partido petista, o argumento é sempre o mesmo: o mensalão – apesar de fartamente comprovado – foi invenção das elites, da mídia golpista, da direita reacionária. Já a corrupção da Petrobras é invenção de quem quer acabar com a empresa; da direita revanchista; dos que não aceitam a eleição de um operário à Presidência da República – nunca dos corruptos. E o caso da Petrobras é exemplar. Simples. Nela, jamais houve alguém com tanta influência como a Dilma Rousseff.
                        Como Ministra de Minas e Energia, como Ministra Chefe da Casa Civil (período no qual foi também Presidente do seu Conselho de Administração) e depois como Presidente da República. É público e notório que ela mandava, mandava e mandava na empresa. E não somente na Petrobrás, mas em tudo que diz respeito ao setor petrolífero brasileiro. E o que se observa? Para o governo, ao contrário de toda lógica, Dilma de nada sabia a respeito do escândalo que devasta a Petrobras – e, por extensão, a toda economia brasileira. Quanta inocência! Também dela não se tem um pedido de desculpa, nenhum reconhecimento ao prejuízo causado aos brasileiros, aos contribuintes, aos acionistas. Nada. No futebol, embora pressionado, de vez em quando o juiz expulsa um de campo. Já no caso de Dilma, ela vem dando botinadas pra todo lado e nada lhe acontece. Cadê o juiz? Cadê o apito? Prrrriiiiiiiiiiiiiiiiiiii!!!

quinta-feira, 23 de abril de 2015

QUAL O CUSTO DO 5º DEDO?


Públio José – jornalista
(publiojose@gmail.com)

                                   Muito se tem falado atualmente a respeito de custo. É custo a respeito de tudo. Tudo tem seu custo. É custo pra lá, é custo pra cá, numa neurose que não acaba mais. Tinha um custo, muito famoso por sinal, que até saiu de cena: o Custo Brasil. Falava-se nele a todo momento. Os entendidos nesses mistérios, entre os quais economistas, parlamentares, sociólogos, jornalistas, entre outros, enchiam páginas e mais páginas de jornal e revistas debulhando para nós o tão decantado custo. Agora, ao que parece, está meio fora de moda (Ou voltará à ribalta em função do estouro da inflação?) Pois é, tudo tem um custo. Olhando essas coisas todas e de tanto ver a mão de Lula sem o quinto dedo, comecei a imaginar o custo para o Brasil do dedo que falta na mão do nosso ex-presidente.  Sabe-se que o ex-metalúrgico perdeu o seu dedo numa prensa – uma máquina industrial. Imagine a dor. Imagine que pensamentos afloraram a sua mente naquele instante.
                        Certamente que o operário foi prontamente atendido e levado até a um hospital. No leito hospitalar, ou quem sabe na própria residência, depois das visitas, depois que o silêncio se fez, quais pensamentos acorreram àquele – até então – insignificante operário? Poucos têm parado para pensar a respeito desse momento. Mas é importante se indagar. O que aconteceu ali, Lula sozinho, com a sua dor, um sentimento de impotência enorme a lhe invadir o peito? Ódio, mágoa, rancor, desilusão, decepção, frustração? Ou uma nova tomada de posição, uma nova postura frente ao momento doloroso que estava vivendo? A intensidade da dor era maior na carne ou na alma? Como encarar a vida de metalúrgico sem um dedo? Ficaria desempregado? Como aceitar e administrar essa nova realidade? Pensamentos, mil pensamentos. Diz o ditado popular “que o gato, de tanto ser perseguido pelo cachorro, e se vendo sem saída, termina atacando seu agressor”.
                        Daí será que dá para concluir que Lula – na qualidade de “operário espoliado e explorado pelas elites” – decidiu então atacar? A verdade é que a sua vida não foi mais a mesma. Aquele dedo faltoso, com certeza, começou a incomodar. Suponho até que gerando em sua mente novos planos. Postura inteiramente nova. Será? Mas voltemos a falar a respeito do assunto principal desse papo. O que tem a ver o tal dedo que Lula não tem com essa conversa sobre custo. Com uma grande aceitação popular e um impactante reconhecimento internacional, com as pesquisas sobre sua popularidade, à época, lhe alçando a mais de 83% de aceitação, poucas, acredito mesmo que pouquíssimas pessoas no Brasil estariam preocupadas, àquele tempo, a respeito de quanto isso tudo nos custaria. Um ex-operário assumiu a presidência da república e quanto teremos de pagar por isso? A imprensa estrangeira – principalmente a europeia – se babava de orgulho.
                        Os líderes políticos – principalmente os de esquerda – se rejubilavam diante de uma nova experiência socialista na América Latina. Avante, companheiro! Mas não é no quintal deles que a subida da cotação do dólar está trazendo sufoco, nem é no bolso deles que está doendo os novos preços da gasolina e dos alimentos. Não é em suas searas que a subida de um ex-metalúrgico ao poder, e a eleição da afilhada Dilma, ocasionou uma tremenda elevação nos índices de corrupção e a perspectiva futura de um tempo de crescimento praticamente zero do Produto Interno Bruto. Ah, um ex-operário no poder! E sem um dedo... Claro que isso teria um custo! Romantismos à parte, é certo que todos estamos pagando por essa experiência ter redundado, à época, em sucesso. Sucesso aparente, ressalte-se. A realidade é que, hoje, estamos chorando esperanças perdidas, desilusão coletiva e um alto preço pelo investimento político feito em Lula.
                                   Mas, atenção. Não estou aqui entrando no mérito da questão, se foi certa ou não, boa ou não, a eleição dele. Mas me deixa interessado saber que influência na vida de Lula teve aquele momento da perda do quinto dedo – e como essa circunstância poderá afetar, para o bem ou para o mal, o destino de milhões de brasileiros. Será que foi naquele momento que ele decidiu perseguir com unhas e dentes a presidência da república? Se foi, já pensou o que pode causar a perda de um dedo? Divagações de lado, o fato é que o Brasil entrou numa aposta muito alta. De Lula veio Dilma. Até aqui desastre, desacerto. Será que o custo de ter feito Lula uma grande liderança redundou em enorme fracasso? Será que tudo não passou de um grande erro? E o dedo perdido que papel tem nisso tudo? Será que um dedo é tão impactante assim? E porque tantas perguntas em função de um dedo? Será que o dedo de Lula merece tanto espaço? Ou não...      

sábado, 18 de abril de 2015

A MENSAGEM DA CRUZ

Públio José – jornalista
(publiojose@gmail.com)

                            Todos sabem que Jesus Cristo morreu crucificado. Muitos conhecem particularidades e minúcias da vida que viveu entre nós. Alguns até defendem teses tecendo mil comentários a respeito do fenômeno que foi Cristo. Em todos os momentos, principalmente no período da Semana Santa, a humanidade, quase por inteiro, celebra a sua morte. Encenações teatrais, filmes, reuniões, retiros, conferências – enfim, os eventos mais diversos marcam a paixão, a vida, o ministério e a morte do homem que dividiu o tempo do mundo em dois tempos: antes e depois Dele. Mas, nesse momento de tanto emocionalismo, de tanta comoção, algumas perguntas necessitam ser feitas: o que o sacrifício de Jesus na cruz representa para nós? O conhecimento do gesto de Jesus na cruz traz alguma diferença no nosso dia-a-dia?  A morte de Jesus nos fez pessoas diferentes ou continuamos os mesmos?

                        A questão vital é se tomar conhecimento de que nada do que Jesus fez foi gratuito. O menor dos seus gestos teve uma significação especial. E o evento no Monte do Calvário, com sua crucificação, morte e ressurreição, foi o fato mais extraordinário já acontecido até hoje na história do homem. Aliás, Jesus só rivaliza com ele próprio. Pois outro acontecimento que pode se ombrear em magnitude à sua morte e ressurreição é o seu nascimento, único até hoje ocorrido nas condições especiais em que ocorreu. Mas hoje o assunto é a sua morte; do nascimento de Jesus cuidaremos outro dia. O relato sobre como tudo se passou recai na leitura do livro de Lucas, capítulo 23, a partir do versículo 33. Ali, após ser crucificado, Jesus profere uma das sentenças de maior significado prático para as nossas vidas, ao dizer “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem”.

                        Nunca, jamais – e em nenhum outro momento da história humana – alguém manteve tamanha lucidez diante de uma realidade de tanto desconforto físico e tanta dor espiritual. Rejeitado, traído, cuspido, execrado, Jesus exalou amor até os minutos finais de sua vida. A humanidade O matava, porém Ele intercedia junto ao Pai em favor dos homens. Este gesto de Cristo deve ser seguido, praticado em todos os momentos de nossa vida. Afinal, se não perdoarmos a quem nos magoa, terminamos por transformar em acontecimento inútil o sacrifício de Jesus na cruz. Esta é, portanto, a primeira mensagem que Jesus nos envia da cruz – daqueles dias até os dias de hoje: o perdoar em qualquer circunstância. Pelo seu gesto, o perdão é uma condicionante fundamental para um viver cristão, para todos aqueles que se dizem seguidores de suas ideias e detentores de seu legado espiritual.

                        Passemos agora ao versículo 46, do mesmo capítulo 33 de Lucas. Ainda na cruz, já exalando seus últimos minutos de vida, Jesus faz uma confissão surpreendente – naquelas circunstâncias – de fidelidade incondicional ao Pai, dizendo: “Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito”. O que é o espírito? A vida, a nossa essência, o nosso eu. Com a sua exclamação, Jesus queria dizer que o seu espírito, a sua essência Ele só entregaria ao Pai – e a mais ninguém. O que isso significa? Comunhão total, absoluta com Deus, apesar do extremo sofrimento que estava enfrentando. Com seu gesto, Jesus nos remete à segunda mensagem da cruz: mantermos a comunhão com Deus em qualquer situação, mesmo nos momentos mais dolorosos. Será que é fácil? Não, não é. Daí a necessidade de não apagarmos da mente o cenário da cruz, local onde Jesus praticou comunhão e fidelidade a Deus em condições extremamente adversas.

                        Ao lado de Jesus dois homens também foram crucificados, conforme o mesmo Lucas capítulo 33, versículo 43. Numa delas, um homem ruma para a morte. De repente, de forma surpreendente, se volta para Jesus: “Mestre, lembra-te de mim quando entrares no teu reino”. Momento terrível para ele descobrir que Jesus era mestre, um título nobilíssimo naquele tempo, e proprietário de um reino. Noutra cruz, o Filho de Deus, também nas piores condições físicas, se volta para ele: “Filho, ainda hoje estarás comigo no paraíso”. Estranho momento para chamar um marginal de filho e lhe garantir a salvação, não é verdade? Aí está, então, a terceira mensagem da cruz: ao nos voltarmos para Jesus – seja qual for a circunstância – Ele nos garante a salvação, a morada com Ele no paraíso! Portanto, sem a aceitação e vivência dessas três mensagens, de que serve, para nós, o sacrifício de Jesus? Perdão, comunhão e salvação – a verdadeira essência da cruz. Vamos vivê-la?   

sábado, 4 de abril de 2015

O SILÊNCIO DE ADÃO

                                                                                                                                                       
Públio José – jornalista
(publiojose@gmail.com)

                       O silêncio é uma atitude estranha. Na maioria das vezes, apresenta-se como demonstração de humildade, de submissão, de renúncia. Em outras, deixa transparecer o verniz da covardia, da omissão. Mas não deixa de ser um comportamento contraditório, polêmico até. Jesus, por exemplo, deu conotações edificantes ao silêncio. Utilizando-se dele, deixou Pilatos maravilhado e seus acusadores totalmente desnorteados, sem terem o que dizer. Calado, ele eternizou um momento em que o esperado, de sua parte, era que falasse, argumenta-se, se defendesse das acusações injustas que lhe imputavam. Do episódio saiu engrandecido. O seu silêncio rasga os séculos até os dias de hoje como elemento de sabedoria, de renúncia, de negação de si mesmo. Já outros personagens... Estes, pelo silêncio, fugiram do desconforto de falar e deram péssimo testemunho com essa atitude. 
                        Um livro de um escritor cristão trata do assunto de forma interessante. Com o título “O Silêncio de Adão”, ele trata da paralisia cerebral e da inércia comportamental que acomete a grande maioria dos homens nos cruciais momentos de decisão. E constata que duas atitudes se destacam no universo masculino. A primeira delas é o silêncio simplesmente. Covarde, omisso, pegajoso – e, o que é pior, contagiante. Acontece na ocasião em que se faz necessária a prática do falar em defesa de uma causa, em defesa de alguém e – para não se prejudicar – o homem foge, se cala, se omite. A segunda atitude se traduz na incorporação, pelo homem, da figura do machão, que, não tendo o que falar, não tendo destreza mental para argumentar, opta pelo clássico gesto de usar da violência, de esmurrar a mesa. Em ambas as situações ele dá adeus ao diálogo e fecha a porta ao desabrochar de uma nova realidade.
                       Com este enfoque, “O Silêncio de Adão” trata, enfim, da inclinação histórica que o homem vem apresentando através dos tempos para fugir de suas responsabilidades. O primeiro grande exemplo que o livro apresenta é o de Adão. Sim, o Adão da Bíblia, o primeiro homem. Pela narrativa bíblica, Deus fez de Adão o detentor de todo o plano divino para a humanidade. Só exigiu que Adão e Eva, ela criada posteriormente, não comessem da árvore do bem e do mal. A exigência foi feita especificamente a Adão. Certamente já sabendo disso, a serpente procura Eva para tentá-la na desobediência a Deus, convencendo-a a comer do fruto da árvore. O interessante é que Adão estava presente ao episódio e em nenhum momento se pronunciou contrário ao assédio da serpente a Eva. Fez pior. Além de se omitir, de se calar, concordou com a mulher e comeu do fruto da árvore proibida.
                        Porque Adão de calou? Porque não esbravejou contra a invasão da serpente ao território mental de Eva, terreno que, pelas instruções claras de Deus, teria que preservar? Ao que tudo indica, Adão se curvou ao auditório constituído tão somente de duas pessoas, ao invés de argumentar com as instruções das quais era possuidor. Também através de outro exemplo bíblico, o livro mostra um homem que se utilizou da truculência para resolver uma situação que tinha tudo para ser equacionada pelo diálogo. Trata-se de Caim, o assassino de Abel. Na narrativa bíblica consta apenas um convite de Caim a Abel para irem, juntos, ao campo. Lá, ele matou o irmão sem dar nenhuma chance ao diálogo. Foi a típica atitude de quem, não tendo disposição para se utilizar da fala, preferiu dar “um murro na mesa” para deixar bem claro que o mais forte fisicamente tinha o controle da situação. Será?
                        Esse comportamento também pode ser facilmente observado nos dias de hoje. No casamento, então, nem se fala. Quantos lares desfeitos, destruídos pela fuga, pela covardia, pela indisposição de falar, de dialogar, de enfrentar, da parte do homem, situações de conflito. Pelo exemplo de Adão, nessas ocasiões, só resta, ao universo masculino, duas soluções: ou se cala, se omite e vai embora, consumando a separação, ou dá um murro na mesa e vence a situação pela truculência, pela violência, pela lei do mais forte. E vence? Será vitorioso um homem que só sabe resolver suas questões pela violência, pela força? Essa, lamentavelmente, é a herança que o primeiro homem nos deixou. Como antídoto, temos a herança que o segundo homem nos legou, Jesus. Este sim, o Adão perfeito. Que tal conhecê-lo, para passar a praticar o silêncio que edifica e a fala que constrói?     

sábado, 21 de março de 2015

SANGRANDO A VACA


Públio José – jornalista
publiojose@gmail.com                                    

                   É bastante conhecida a expressão “sangrar a vaca” no sentido de se aproveitar, de se levar vantagem, de se dar bem. Ao longo do tempo, a expressão se adaptou ao formato “sangrar fulano”, como demonstração de que alguém encontrou em um desavisado a maneira de ganhar a vida com pouco esforço. Tudo isso em razão da importância histórica que o animal representou e representa na vida do homem -  e também pelo fato de que sangue é vida. Na África, por exemplo, até recentemente, tribos inteiras enfrentavam os piores períodos de seca mantendo um rebanho bovino que, regularmente, era sangrado (sem pôr os animais em risco de morte) para a obtenção dos elementos vitais à sobrevivência do grupo. Também se impõe a importância do animal como elemento econômico a ponto de se afirmar que “da vaca só se perde o berro”. Enfim, o que a vaca produz tem relevância para a humanidade.
                        Para se ter uma ideia, por mais sofisticado que seja o ambiente, sempre haverá, ali, a presença da vaca, na forma de queijos, iogurtes, manteigas, couro nos móveis, etc., etc. Aliás, leilões de animais bovinos são realizados atualmente nos ambientes mais refinados em função da importância econômica que a atividade atingiu. Assim, adequando-se a história da vaca, em relação à humanidade, à importância que a Petrobras alcançou para o Brasil, se conclui ter sido a petroleira uma vaca de compleição excelente, digna de ser comparada aos mais extraordinários PO da raça bovina (animais puros de origem, de desempenho produtivo muito acima da média, portanto, de excelência comprovada). Olhando-se para a Petrobras ao longo do tempo, analisando-se o papel que desempenhou para o desenvolvimento industrial brasileiro, pode-se afirmar: “que vaca magnífica, que animal excepcional!”  
                        Agora, diante do assombroso assalto que uma quadrilha cometeu à empresa, talvez a ponto de leva-la à morte, cabe uma observação até singela: tais bandidos não aprenderam com as tribos africanas a maneira de sangrar a vaca sem encaminhá-la à exaustão. Pois as cifras saqueadas da Petrobras revelam-se de monta tão assustadoramente altas que é como se o sangue do seu corpo fosse retirado até a última gota. O processo de aniquilamento ao qual a Petrobras foi destinada tem dimensão tão grande que não dá para imaginar. E dá. Fora os enormes prejuízos causados às inúmeras empresas que lhe são fornecedoras – e, por extensão, à economia brasileira como um todo – ainda resta o incalculável perigo da empresa ser condenada pela justiça americana, fato que poderá lhe acarretar multas que irão variar do estonteante patamar de três a trinta e três bilhões de dólares! Haja sangue...
                        E pior ainda pode ficar. Em caso de condenação nos Estados Unidos, a Petrobras corre o risco de ser declarada inidônea pelo Banco Mundial, tornando-se um pária no mercado internacional – principalmente no de crédito. E ainda pode ficar pior. Caso a petroleira não tenha condições de pagar a multa, seu sócio principal terá que bancar a conta para não vê-la soçobrar de vez. E quem é o maior sócio? O governo brasileiro. Que, caso a questão chegue a esse ponto, terá de retirar a estratosférica quantia dos cofres públicos, recursos destinados à educação, à segurança, à saúde... E ainda pode ficar pior. Terá o governo brasileiro destinado no Orçamento Anual dinheiro para tal fim? Diante de cenário tão tenebroso para a Petrobras, e para o país por extensão, teria sido muito mais vantajoso mandar os ladrões da Petrobras a África aprenderem a tirar sangue da vaca sem mandá-la para o beleléu. Moooooonnnnn...  

QUE SAFRA!


Públio José – jornalista
(publiojose@gmail.com)                               

                   Parafraseando um certo líder latino-americano, nunca nesta região se viu uma safra tão ruim de governantes e lideranças políticas. Até onde alcança o olhar do analista político (livre e desembaraçado de qualquer ideologia, ressalte-se) o cenário é desolador. Particularmente, desconheço outro período da história tão árido e carente da presença de lideranças ajuizadas como o que atravessa atualmente a América Latina. No Brasil, a catraca do desenvolvimento – agente catalizador para a conquista de um razoável padrão de crescimento – está rodando para trás há bastante tempo. A Venezuela, por sua vez, já cansou a plateia, tanto interna quanto externa, de tanto causar vexames. No país a crônica da insensatez chegou a tal ponto que o prato de rotina do venezuelano é a insuportável escassez de tudo – seus moradores já encontram dificuldades até para adquirir papel higiênico. Já pensou?
                        Na Argentina, a treslouquice de seus mandatários tirou o país do patamar, a até poucas décadas atrás, de um dos mais prósperos e avançados do mundo, para jogá-lo numa trilha de empobrecimento e atraso cujo desfecho final se afigura de cores trágicas e de indigestas consequências, culminando com a ascensão ao poder da Presidente Kirchner, cuja desmiolabilidade vem alcançando índices inimagináveis. Correndo por fora, numa desabalada e incompreensível disputa para ver quem alcança a primeira posição desse verdadeiro campeonato do caos, outros países da região também se dizem presentes, como a sinalizar a existência, entre eles, de uma irmandade de ações e pensamentos. De quebra, atiram para longe qualquer atitude de bom senso e de sensatez, demonstrando que, quanto mais ilógico e estapafúrdio for o desempenho de seus governos, mais pontos perfazem na disputa.
                        As consequências, diante da existência de tal trupe, são nefastas. Desabastecimento generalizado, contas públicas em frangalhos, déficits públicos monumentais, portos, aeroportos e estrutura viária em pandarecos, dificuldade para obtenção de créditos externos, moratória, falência de empresas e bancos – e uma imagem na comunidade internacional que condiz com o ditado popular: “fulano está mais sujo do que pau de galinheiro”. Entretanto, e apesar dos altíssimos sacrifícios impostos às populações, tais mandatários administram seus países com mão de ferro, impondo-lhes um regime que vacila, no fio da navalha, entre a democracia de araque e a ditadura. Em comum, a adoção de medidas que amordaçam a Imprensa, escravizam o Judiciário e emporcalham o Legislativo através da concessão de cargos, verbas de origem criminosa e vantagens de fazer corar o mais sem-vergonha dos canalhas.     
                        E o Brasil? O Brasil também não fica atrás nesse contexto – embora ainda conte com uma Imprensa razoavelmente livre, um Judiciário não escancaradamente governista e um Congresso onde ainda se vê lampejos de oposição. O futuro, porém, é incerto. E para se ombrear aos demais integrantes do bloco, conta com uma Presidente que desperdiçou o primeiro mandato, prepara-se para fazer o mesmo no segundo – e segue com um discurso de difícil entendimento, caracterizado por uma tortuosidade mental insondável e um labiríntico raciocínio que ninguém alcança. Difícil. De quebra, se vê às voltas com uma onda de corrupção como nunca se viu, para a qual demonstra solene desprezo pela punição aos envolvidos, e uma ferrenha disposição de defender amigos e aliados – quando tudo aponta para o oposto. Um desastre! Que pode ficar bem pior: pelo risco de vê-la vencedora do certame. 

sábado, 7 de março de 2015

ECONOMIA NEGATIVA (OU ATIRANDO NO PRÓPRIO PÉ?)

Públio José – jornalista
(publiojose@gmail.com)

                        O que mais se tem ouvido falar ultimamente, em se tratando de noticiário econômico, é o corte de gastos que o governo está promovendo para equilibrar o orçamento. É a tesoura dos tecnocratas penetrando fundo nas entranhas do orçamento para adequá-lo, segundo as próprias bocas governamentais, à realidade vigente. As manchetes, por sua vez, têm apregoado essa medida governamental com volúpia e estardalhaço, como se o fato de o governo projetar um volume de investimento, para depois cortá-lo, tivesse um viés meramente econômico ao invés de embutir alta taxa de imprevisibilidade governamental. Os cortes chegam à casa dos bilhões e bilhões de reais. Coisa de assustar. Isso, por acaso, soa como medida racional? Ou sugere haver, no mínimo, um padrão meio doidão, meio bamboleante, no tocante ao planejamento dos investimentos e dos gastos governamentais?
                        Com isso, não estou querendo ser contra uma realidade econômica que se impõe. O que acho estranho é se anunciar, com bandas e fanfarras, um volume de investimentos que deixa todos os segmentos na maior expectativa, para, dias depois, anunciar-se cortes de tal monta que nos deixam tontos, capazes até de nos lançar em clima de bovina melancolia. Isso sem falar na prejudicial falta de credibilidade que tais iniciativas do governo passam a merecer da opinião pública, aí incluídos, principalmente, os segmentos mais interessados no assunto, como economistas, empresários, políticos e Imprensa. O que levanto, portanto, não é uma posição contrária aos cortes em si, mas tão somente uma postura crítica em relação à planejamentos fantasiosos e a facilidade com que, no Brasil, os governos anunciam vultosos investimentos sem a necessária e obrigatória substância orçamentária.
                        É lá se vão tantos milhões pra ali, tantos milhões pra acolá, outros tantos bilhões pra isso, outros tantos pra aquilo, em investimentos tão alvissareiros, que, se transformados em realidade, já teriam feito o Brasil se encarapitar na cumeeira da mansão do Primeiro Mundo. Atrelado a esse mundão de dinheiro que os governos, imprudentemente, fazem escorregar pelo vale profundo do desgoverno, são divulgados, com estrepto e foguetório, números impressionantes na criação de empregos. Aí a galera começa a sonhar. Sonhar com a compra da tv de última geração, com o celular que toca, canta, requebra, fotografa, com a ida ao shopping mais chique, com aquela viagem tão acalentada... E haja sonhos para, dias depois, vir tudo de água abaixo com mais um comunicado das autoridades. Desta feita para informar que, ao invés dos tais investimentos, a vez agora é de cortar, e cortar, e cortar. Como pode?
                        Dias desses uma revista semanal fez um levantamento do volume de obras inacabadas pelo país afora e descobriu um patrimônio incalculável de dinheiro jogado fora, de recursos desperdiçados pelos nossos governantes – irresponsavelmente. Culpar, em vista desse descalabro, somente os atuais ocupantes do poder? Nem pensar, pois tal comportamento ensejaria uma enorme injustiça, embora os de hoje também venham contribuindo para a continuidade desse fenômeno tão brasileiro. Aliás, essa visão distorcida e desprovida de rigor com o planejamento estatal, essa postura de iniciar obras sabendo, de antemão, que o dinheiro não dará para terminar vem de muito longe. E caracteriza muito bem o pensar e o agir dos nossos homens públicos desde priscas eras. Falando nisso, tem circo no pedaço? “E o palhaço que é, é ladrão de mulher!”. Olha o circooo! O circo chegooou! Olha o circooo! Legaaaaaal!!!

sábado, 28 de fevereiro de 2015

CIVILIZAÇÃO ENJAULADA


Públio José – jornalista
(publiojose@gmail.com)

                   Certas imagens – embora aparentemente sem importância – deveriam marcar a paisagem profundamente. Mas não conseguem. A rotina diária, impregnada de violência acontecente a todo momento, faz com que certos fatos ocorram e sumam na poeira do tempo sem deixar rastro, sem nenhum registro. Esse contexto, por sinal, se insere na luta da grande mídia em selecionar o que acontece nos mais variados recantos para trazê-lo à presença do expectador. E, apesar das modernas tecnologias à sua disposição, e do batalhão de profissionais que emprega, inúmeros episódios fogem ao foco da grande mídia. Frise-se, porém, que tais fatos, embora não sofrendo registro, permanecem importantes, impactantes, e cumprem o papel de expressar, de expor, para quem os presencia, o modus vivendi das gerações de hoje. Em suma, coisas acontecem, muitos não tomam conhecimento – mas elas estão aí. Acontecem.  
                        Essa introdução serve para trazer à tona o registro de um fato e de como ele expressa o paradoxo de fazermos parte de uma nação dita civilizada e que, ao mesmo tempo, produz episódios de pura selvageria, coisa de deixar de queixo caído bárbaros de épocas pré-históricas. Para demonstrar essa realidade, não precisamos nem nos apegar à espantosa roubalheira que toma conta dos altos escalões da administração pública em todas as instâncias. Basta, apenas, nos fixarmos no futebol. Por sinal, em termos de imagem impactante, o futebol é cenário farto e rico. E é uma imagem de um jogo de futebol – ou melhor, de seu final, que nos deixa a refletir sobre o impacto que certas cenas deveriam causar e como somem na fumaça da rotina e do anonimato. E, afinal, o que se viu? Teve tiros, mortes, cenas em delegacias de polícia ou em emergências de hospital? Não. Foi pacífico, então, o que se viu? Foi.
                        Então, onde está a estupefação, o queixo caído, os olhos arregalados? Era fim de um jogo entre os times do ABC e do América, noite de uma quarta-feira qualquer. De fora do estádio, dava para se ver o cortejo de torcedores americanos em direção ao estacionamento e às paradas de ônibus. E aí, o que chamou a atenção? Só havia ali, naquele momento, torcedores de um time só. E os da outra agremiação, do ABC, onde estavam? Enjaulados. Enjaulados? Isso mesmo. De fora do estádio, via-se o frenesi dos que tratavam de ir pra casa, enquanto a outra torcida permanecia trancafiada no interior do estádio. Alguns agarravam-se às grades dos portões, como querendo apressar a saída, dando a nítida impressão, a quem olhava de fora, de que algo de grave acontecera e que fora necessária a retenção de alguns para o restabelecimento e a manutenção da ordem. Engano. Nada de grave acontecera.
                        Explicação: aqueles torcedores não estavam presos, retidos. Porém, a polícia e os administradores do estádio não se arriscavam a permitir que as duas torcidas saíssem ao mesmo tempo. Elas não poderiam se encontrar. Uau! Seria, digamos, uma medida de prevenção. Certamente, baseada em fato anterior que levou as autoridades a adotar a cautela. Que cena! Ali, presos – à espera de que os outros torcedores tomassem seus destinos – estariam homens simples do povo, mas também, e com certeza, magistrados, políticos, altos funcionários públicos, jornalistas, médicos, advogados, professores, empresários... Gente de poder, responsável, em grade parte, pelos destinos da cidade. Estranha civilização essa em que tais pessoas, em função de uma paixão, se veem na condição de bárbaros, de incivilizados, de irracionais – por não poderem conviver com outros que nutrem paixão diferente. Enjaulados. Uau...        

E SE HOUVESSE MISERICÓRDIA?

                                                                                                                                                           
Públio José 
Jornalista
publiojose@gmail.com

                            Misericórdia é um termo composto em sua raiz pela soma das palavras “miseri”, relacionada a miséria, pobreza, aflição, desespero, e “córdia”, relacionada a coração no sentido de matriz geradora de nossos sentimentos. A junção, então, compôs o termo misericórdia que, em última análise, representa o domínio, a prevalência dos bons sentimentos em relação aos sentimentos negativos, e também lastro para a compreensão das situações aflitivas vividas pelos outros. A misericórdia também significa o ato de tratar um ofensor, um transgressor com menor rigor do que este merece. Atualmente, muitos conceitos existem em torno do termo, mas, indiscutivelmente, nenhum deles se afasta desse eixo central que trata a misericórdia como um sentimento nobre, desprovido da presença do egoísmo, do individualismo, e forte aliado da bondade, da benignidade, da compaixão, da paciência – do amor enfim, de onde sobrevêm todos os outros.
                        Segundo os dicionários atuais, misericórdia significa compaixão suscitada pela miséria, pela dor alheia. Trata-se do ato de não aplicar um castigo merecido, mas também envolve a idéia de dar a alguém algo que este não merece. Aponta ainda para o ato de aliviar o sofrimento de outrem, inteiramente à parte da questão do mérito pessoal de quem recebe. A misericórdia, enfim, é um gesto que parte de alguém em estado de amor para com outra pessoa, com a particularidade de que o favorecido encontra-se, naquele momento, desprovido da condição de exigir, de propor uma troca – já que nada tem a oferecer. O misericordioso tem o que o outro precisa, enquanto o necessitado nada tem para justificar o bem recebido. A misericórdia se resume, portanto, a um sentimento altamente valioso do ponto de vista cristão, qualidade espiritual que procura aliviar o sentimento humano e retém, por conta disso, a vingança e os atos de retaliação.
                        E é precisamente esse ponto que gostaríamos de ressaltar. Pois a falta de misericórdia no coração dos homens gera todo tipo de sentimento de revolta, de revanche, de sanha vingativa naquele que busca no outro um gesto compassivo e recebe, de volta, a moeda firme, crua, dura da insensibilidade. O mundo de hoje, com a obrigatoriedade do ganhar, do ter, realidade que coloca as pessoas na trilha da exaltação ao individualismo, tem contribuído para a eclosão constante de situações de conflito, de injustiças. Estas, por sua vez, têm originado, de um lado, uma geração de pessoas marcadas pela dor, pela desesperança, pela desilusão, e, de outro, uma geração árida de sentimentos, seca, desconectada, e alheia às necessidades e carências dos mais necessitados. É indiscutível, então, a conclusão de que misericórdia é sentimento a se cultivar incessantemente como forma de ajuda aos outros, mas também para preservação de nossa qualidade de vida.  
                       Segundo Bultmann, estudioso cristão, “tem razão quem conceitua a misericórdia como a qualidade da fidelidade na ajuda”. É a postura, enfim, de quem se mantém fiel aos seus princípios, independente do ganho que, porventura, possa auferir. Nesse sentido, ninguém é mais misericordioso do que Deus. Ele, através de Jesus, ministra sobre nós, a todo instante, a sua capacidade infinita de nos entender, de nos compreender, de nos perdoar. E isso é misericórdia pura. Ah, se o homem entendesse os propósitos de Deus e estivesse de coração sempre aberto para receber – e agir a favor do outro em misericórdia! Com certeza o mundo não seria o mesmo. Pois, se houvesse misericórdia em nossas ações, o dinheiro público não seria desviado para outros fins e o leite das crianças jamais serviria a outros objetivos que não o de alimentá-las. Ah, pobres crianças! Aliás, para estes que agem assim, só a misericórdia de Deus é o que nos resta pedir.  

PELO MUNDO AFORA – EM BUSCA DE PAPEL HIGIÊNICO!

Públio José – jornalista
publiojose@gmail.com

                       Há um ditado popular que assegura existir para cada mulher um homem. Por mais feio, fedorento, desdentado, desajeitado, pobre, burro, tapado, grosso, ignorante, que alguém seja, ou, por outra, com qualquer atributo (ou desatributo) que possua, dificilmente alguém – seja homem ou mulher – fica desacompanhado. É como se para cada fechadura houvesse uma chave.  Adaptando esse raciocínio ao campo político, pode se afirmar que para cada ideologia existe uma plateia correspondente. A História não nos deixa mentir. Ao longo do tempo, reis, imperadores, generais, mandatários, enfim, de qualquer índole, sempre contaram com (muitas vezes numerosíssimos) seguidores. Não à toa, pode ser relembrado aqui o episódio ocorrido em 18 de novembro de 1978 na Guiana, quando o líder religioso Jim Jones levou à morte centenas de pessoas, a maioria por envenenamento.
                        O argumento? O de que a “terra mãe” (os Estados Unidos), se transformara no império do Satanás – com isso, mantendo-as confinadas na selva da Guiana até a morte. Já Adolf Hitler conduziu a nação alemã à prática de crimes horrendos com base na pureza da raça ariana. Ora, ora! Para cada louco uma plateia; para cada ideologia – por mais ilógica – multidões dispostas a dar-lhe crédito. Nesse contexto, a América do Sul também não fica atrás. Sob o manto de uma tal “revolução bolivariana”, a Venezuela está sentindo de perto o péssimo negócio que fez ao dar ouvidos a Hugo Chávez. Seu período no poder coincidiu com o boom consumista mundial, com as exportações de petróleo trazendo fartos recursos a Venezuela – e a ele altíssimos índices de popularidade. Tanto dinheiro o elevou à líder regional, em condições até de enxergar a implantação do bolivarianismo em outros paises.
                        No Brasil, várias vertentes de partidos de esquerda – órfãos de profetas e gurus em razão da queda do Muro de Berlim, da derrocada da União Soviética e de outros acontecimentos semelhantes mundo a fora – entregaram-se de corpo e alma às teses chavistas, tentando, de todas as maneiras (algumas até ao arrepio da lei), implantá-las em solo brasileiro. E os frutos resultantes? No Brasil, um desastre. A mistura de lulopetismo com bolivarianismo deu no que deu: inflação alta, baixo crescimento, corrupção incontrolável, entre outras mazelas – Petrobrás no destaque. Na Venezuela, o sucessor de Hugo Chávez, Nicolás Maduro, deu de cara com outra realidade econômica – e está levando o país à bancarrota. A China não é mais o dragão devorador de commodities e petróleo como antes, fato que fez seus preços descerem a ladeira, muito em função da produção de petróleo americano extraído de xisto.
                        Em vista de tal realidade, e pela não priorização em infraestrutura, a Venezuela escorrega em direção ao caos social e econômico com o qual o bolivarianismo não sonhava, embora, paradoxalmente, Maduro tenha sido reeleito presidente (diz a oposição em eleições vergonhosamente fraudadas), e ainda conte com simpatizantes suficientes para continuar a tomar as mais loucas atitudes. Enquanto isso, a inflação dispara, o crescimento é zero, o desabastecimento de gêneros de primeira necessidade se generaliza, incluindo papel higiênico – e Maduro nem, nem. Quem faz crítica é taxado de traidor da pátria, a liberdade de Imprensa inexiste e o Parlamento e o Judiciário endossam toda tipo de patifaria. Recentemente, em verdadeiro tour, visitou a China tentando recursos para tapar o rombo. Será que a China lhe deu dinheiro pra comprar papel higiênico? Trágico. Ou será ridículo?  

sábado, 14 de fevereiro de 2015

AOS PÉS DA CRUZ: O MELHOR LUGAR PARA FICARMOS EM 2015


Públio José
Jornalista
publiojose@gmail.com

                   Há dias atrás, ouviu-se no meio evangélico uma afirmação que encarei como muito interessante: ?no Reino de Deus, para subir, o melhor caminho é descer ? aos pés da cruz?. Até lamento o fato de não lembrar o autor da frase, pois gostaria de lhe dar o devido crédito. Porém, mesmo no anonimato, nosso desconhecido frasista cunhou uma dessas verdades que a rotina, a competitividade profissional, o desenrolar sucessivo dos acontecimentos diários, nos fazem esquecer: a importância da cruz para os que se dizem cristãos. Tal colocação também me lembra a resposta de João, o batista, a alguns de seus discípulos e a um judeu, sobre o fato de Jesus também estar batizando (prerrogativa que os tais creditavam somente a João): ?É necessário que ele cresça e que eu diminua?, respondeu, conforme João, capítulo 3, versículo 30. Ou seja: no conceito de Deus, na visão do Pai Celeste, só cresce quem diminui.

                        Este conceito, por sinal, Jesus deixou bem claro inúmeras vezes em que tratou de humildade, em contraposição à arrogância, elevando João ? o mesmo que se diminuiu para que Ele crescesse ? a um patamar moral e espiritual de dimensão quase inalcançável, conforme Mateus 11, versículo 11: ?Em verdade vos digo que, entre os que de mulher têm nascido, não apareceu alguém maior do que João Batista?, ao mesmo tempo em que, no mesmo versículo, arremata: ?mas aquele que é o menor no Reino dos céus é maior do que ele?. Paradoxo? Inexplicabilidade? Incongruência? Tortuosidade mental? Claro que não. Na verdade, o que Jesus traduziu para atônitos circunstantes foi um dos mais sublimes enunciados da inteligência divina, pilar da concepção de Deus para a vivência e o testemunho do rebanho pertencente ao seu reino e que se estabelece na estranha equação: para ser grande é preciso ser pequeno.

                        E qual a melhor escola, qual o melhor ambiente, qual o melhor curso, qual a melhor condição para aprendermos sobre esse (muito estranho e impraticável para a grande maioria) extraordinário conceito: aos pés da cruz. Não para sofrermos as dores indescritíveis que Jesus padeceu; mas para entendermos o que significa, para Deus, ser grande no seu reino. Pois, se atentarmos, vivenciarmos, estudarmos, compartilharmos, nos aprofundarmos o que na cruz se passou, veremos de como Jesus se tornou pequeno (para o mundo de então e, ainda hoje, para empedernidos sabichões), porém enorme, maiúsculo, grandioso, imponente, monumental, gigantesco ? majestoso para Deus. Para enxergarmos a real dimensão que Jesus alcançou na cruz (e até mesmo antes dela, nos diálogos com Pilatos), basta depurar sua resposta a Pedro, no Getsêmani, diante dos soldados do Sumo Sacerdote que vieram prendê-lo.

                        O episódio, narrado em Mateus 26, versículos 52 e 53, todos conhecem. Após recompor a orelha do soldado atacado por Pedro, Jesus volta-se para o discípulo, dizendo: ?Mete no seu lugar a tua espada, porque todos os que lançarem mão da espada à espada morrerão. Ou pensas tu que eu não poderia, agora, orar a meu Pai e que ele não me daria mais de doze legiões de anjos?? Ora, uma legião era composta por seis mil soldados. Ao se referir a 12 legiões, Jesus enumerava 72 mil guerreiros celestiais, àquela altura um exército formidável diante do pequeno comando que Pilatos mantinha em Jerusalém. Por alguns instantes, Jesus mostrou todo o seu poder, enquanto ? em humildade e estrita obediência a Deus ? submetia-se às ordens de pouco mais de uma dúzia de soldados. Começara ali o caminho do Calvário. Local de sofrimento, de morte ? porém sem vez, nem espaço, para a soberba e a arrogância.

sábado, 31 de janeiro de 2015

OS MUROS DE BRASÍLIA


Públio José
Jornalista
publiojose@gmail.com                                    

                   A guerra fria legou ao mundo, entre tantas desgraças, o Muro de Berlim. Anteriormente, Mao Tse Tung já dera sua contribuição ao tema ao erguer a Muralha da China. Tanto um como outro são símbolos físicos, palpáveis, do desejo do homem de separar, segundo loucas ideologias, determinados agrupamentos humanos dos demais. É também uma forma de se elitizar, de se diferenciar em relação a outros, em função do estabelecimento de doutrinas as mais diversas, de cunho ideológico, social, cultural, político, esportivo, religioso, militar, econômico... É ainda, e principalmente, uma forma de aprisionar pessoas segundo conveniências as mais variadas. São notórios os casos recentes da Coréia do Norte e de Cuba, e da antiga União Soviética, todos à esquerda do espectro político, países onde o ir e vir das pessoas era e é dificultado a todo momento, conforme apontem as idiossincrasias de seus dirigentes.

                        A direita também não ficou atrás e tratou de erigir seus muros, muitos dos quais, se não em formato físico, também contribuíram para o estabelecimento dos guetos mais diversos. Aliás, basta consultar a História para se ter conhecimento dos muros físicos e não físicos que o homem construiu para se separar de outros, ou para aprisionar populações inteiras – segundos seus interesses. Na China, das dinastias imperiais, a Cidade Proibida é um exemplo clássico de elitização e domínio de uma classe em relação às demais; na Grécia e na Roma antigas, as castas também serviram de muro para separar os nobres de escravos e plebeus; a Índia é famosa ainda hoje pelo sem número de castas que servem de muro no contexto geográfico e populacional do país. Enfim, até onde o olhar do passado e do presente alcançam, o homem teve em muros e separações de toda ordem uma forte marca do seu mover na História.

                        Também pode ser incluído nesse tema a utilização, como muro, do aparato econômico para separar pessoas, embora, de certa forma, isso possa ser visto como incentivo às pessoas para a conquista de espaços maiores no ambiente social que habitam (o tal do “subir na vida” que nossos pais tanto bradavam). Mas, e os muros do Brasil? Como país diferente dos demais, ou melhor, mais criativo que os demais, o Brasil tinha que arrasar nesse quesito. Aqui, além dos formatos de muro conhecidos em outros quadrantes, a corrupção se estabeleceu com um forte baluarte da separação entre as pessoas. Outro muro a vicejar em solo verde e amarelo, além da corrupção, é o da impunidade. No Brasil, legislação, costumes, hábitos, canalhices, sem-vergonhices e que tais se transformaram em verdadeiros muros a beneficiar pilantras, ladrões de colarinho branco, políticos, autoridades, funcionários públicos, magistrados...  

                        Como exemplo de muro, de fenômeno a distinguir pessoas, a corrupção brasileira, principalmente em Brasília, chegou a tal ponto que saiu do terreno do palpável, do real – e achegou-se à ficção. Ora, em um país onde o trabalhador conta centavos para chegar ao fim do mês, como explicar um funcionário de quarto escalão da Petrobras ter em banco estratosféricos 100 milhões de dólares! Uau! Isso, sim, é que é muro! E o que se vê mais em Brasília? Integrantes do establishment local vivendo como nababos, padrão de vida incompatível com os salários declarados – surrupiando, para tanto, recursos da merenda de estudantes humildes, dos remédios dos idosos, de postos de saúde, estradas, portos... Note-se que, de toda a roubalheira divulgada, a Petrobras atingiu um nível ainda mais superior – pelos volumes registrados. Alguém da empresa na cadeia? Não. Não é Brasília cidade de portentosos muros?

sábado, 3 de janeiro de 2015

E SE HOUVESSE MISERICÓRDIA?

                                                                                                                                                         
Públio José
Jornalista
publiojose@gmail.com  

                            Misericórdia é um termo composto em sua raiz pela soma das palavras “miseri”, relacionada a miséria, pobreza, aflição, desespero, e “córdia”, relacionada a coração no sentido de matriz geradora de nossos sentimentos. A junção, então, compôs o termo misericórdia que, em última análise, representa o domínio, a prevalência dos bons sentimentos em relação aos sentimentos negativos, e também lastro para a compreensão das situações aflitivas vividas pelos outros. A misericórdia também significa o ato de tratar um ofensor, um transgressor com menor rigor do que este merece. Atualmente, muitos conceitos existem em torno do termo, mas, indiscutivelmente, nenhum deles se afasta desse eixo central que trata a misericórdia como um sentimento nobre, desprovido da presença do egoísmo, do individualismo, e forte aliado da bondade, da benignidade, da compaixão, da paciência – do amor enfim, de onde sobrevêm todos os outros.
                        Segundo os dicionários atuais, misericórdia significa compaixão suscitada pela miséria, pela dor alheia. Trata-se do ato de não aplicar um castigo merecido, mas também envolve a idéia de dar a alguém algo que este não merece. Aponta ainda para o ato de aliviar o sofrimento de outrem, inteiramente à parte da questão do mérito pessoal de quem recebe. A misericórdia, enfim, é um gesto que parte de alguém em estado de amor para com outra pessoa, com a particularidade de que o favorecido encontra-se, naquele momento, desprovido da condição de exigir, de propor uma troca – já que nada tem a oferecer. O misericordioso tem o que o outro precisa, enquanto o necessitado nada tem para justificar o bem recebido. A misericórdia se resume, portanto, a um sentimento altamente valioso do ponto de vista cristão, qualidade espiritual que procura aliviar o sentimento humano e retém, por conta disso, a vingança e os atos de retaliação.
                        E é precisamente esse ponto que gostaríamos de ressaltar. Pois a falta de misericórdia no coração dos homens gera todo tipo de sentimento de revolta, de revanche, de sanha vingativa naquele que busca no outro um gesto compassivo e recebe, de volta, a moeda firme, crua, dura da insensibilidade. O mundo de hoje, com a obrigatoriedade do ganhar, do ter, realidade que coloca as pessoas na trilha da exaltação ao individualismo, tem contribuído para a eclosão constante de situações de conflito, de injustiças. Estas, por sua vez, têm originado, de um lado, uma geração de pessoas marcadas pela dor, pela desesperança, pela desilusão, e, de outro, uma geração árida de sentimentos, seca, desconectada, e alheia às necessidades e carências dos mais necessitados. É indiscutível, então, a conclusão de que misericórdia é sentimento a se cultivar incessantemente como forma de ajuda aos outros, mas também para preservação de nossa qualidade de vida.  
                       Segundo Bultmann, estudioso cristão, “tem razão quem conceitua a misericórdia como a qualidade da fidelidade na ajuda”. É a postura, enfim, de quem se mantém fiel aos seus princípios, independente do ganho que, porventura, possa auferir. Nesse sentido, ninguém é mais misericordioso do que Deus. Ele, através de Jesus, ministra sobre nós, a todo instante, a sua capacidade infinita de nos entender, de nos compreender, de nos perdoar. E isso é misericórdia pura. Ah, se o homem entendesse os propósitos de Deus e estivesse de coração sempre aberto para receber – e agir a favor do outro em misericórdia! Com certeza o mundo não seria o mesmo. Pois, se houvesse misericórdia em nossas ações, o dinheiro público não seria desviado para outros fins e o leite das crianças jamais serviria a outros objetivos que não o de alimentá-las. Ah, pobres crianças! Aliás, para estes que agem assim, só a misericórdia de Deus é o que nos resta pedir.          

sábado, 13 de dezembro de 2014

CIVILIZAÇÃO ENJAULADA


Públio José
Jornalista
publiojose@gmail.com 

                   Certas imagens – embora aparentemente sem importância – deveriam marcar a paisagem profundamente. Mas não conseguem. A rotina diária, impregnada de violência acontecente a todo momento, faz com que certos fatos ocorram e sumam na poeira do tempo sem deixar rastro, sem nenhum registro. Esse contexto, por sinal, se insere na luta da grande mídia em selecionar o que acontece nos mais variados recantos para trazê-lo à presença do expectador. E, apesar das modernas tecnologias à sua disposição, e do batalhão de profissionais que emprega, inúmeros episódios fogem ao foco da grande mídia. Frise-se, porém, que tais fatos, embora não sofrendo registro, permanecem importantes, impactantes, e cumprem o papel de expressar, de expor, para quem os presencia, o modus vivendi das gerações de hoje. Em suma, coisas acontecem, muitos não tomam conhecimento – mas elas estão aí. Acontecem.  

                        Essa introdução serve para trazer à tona o registro de um fato e de como ele expressa o paradoxo de fazermos parte de uma nação dita civilizada e que, ao mesmo tempo, produz episódios de pura selvageria, coisa de deixar de queixo caído bárbaros de épocas pré-históricas. Para demonstrar essa realidade, não precisamos nem nos apegar à espantosa roubalheira que toma conta dos altos escalões da administração pública em todas as instâncias. Basta, apenas, nos fixarmos no futebol. Por sinal, em termos de imagem impactante, o futebol é cenário farto e rico. E é uma imagem de um jogo de futebol – ou melhor, de seu final, que nos deixa a refletir sobre o impacto que certas cenas deveriam causar e como somem na fumaça da rotina e do anonimato. E, afinal, o que se viu? Teve tiros, mortes, cenas em delegacias de polícia ou em emergências de hospital? Não. Foi pacífico, então, o que se viu? Foi.

                        Então, onde está a estupefação, o queixo caído, os olhos arregalados? Era fim de um jogo entre os times do ABC e do América, noite de uma quarta-feira qualquer. De fora do estádio, dava para se ver o cortejo de torcedores americanos em direção ao estacionamento e às paradas de ônibus. E aí, o que chamou a atenção? Só havia ali, naquele momento, torcedores de um time só. E os da outra agremiação, do ABC, onde estavam? Enjaulados. Enjaulados? Isso mesmo. De fora do estádio, via-se o frenesi dos que tratavam de ir pra casa, enquanto a outra torcida permanecia trancafiada no interior do estádio. Alguns agarravam-se às grades dos portões, como querendo apressar a saída, dando a nítida impressão, a quem olhava de fora, de que algo de grave acontecera e que fora necessária a retenção de alguns para o restabelecimento e a manutenção da ordem. Engano. Nada de grave acontecera.

                        Explicação: aqueles torcedores não estavam presos, retidos. Porém, a polícia e os administradores do estádio não se arriscavam a permitir que as duas torcidas saíssem ao mesmo tempo. Elas não poderiam se encontrar. Uau! Seria, digamos, uma medida de prevenção. Certamente, baseada em fato anterior que levou as autoridades a adotar a cautela. Que cena! Ali, presos – à espera de que os outros torcedores tomassem seus destinos – estariam homens simples do povo, mas também, e com certeza, magistrados, políticos, altos funcionários públicos, jornalistas, médicos, advogados, professores, empresários... Gente de poder, responsável, em grade parte, pelos destinos da cidade. Estranha civilização essa em que tais pessoas, em função de uma paixão, se veem na condição de bárbaros, de incivilizados, de irracionais – por não poderem conviver com outros que nutrem paixão diferente. Enjaulados. Uau...        

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

DEUS LHE OUVE?


Públio José
Jornalista
publiojose@gmail.com

                        Uma das maiores dúvidas do homem está relacionada ao seu contato com Deus e a incerteza de ser ouvido. Essa questão está ligada a duas realidades: a primeira é que ninguém tem a capacidade de visualizar Deus, de vê-lo fisicamente como se vê as demais pessoas; a segunda é que ninguém ouve a Deus do ponto de vista físico, como se ouve o trinar de um passarinho ou o bate-boca de dois adversários. Para quem nunca o fez, ouvir a Deus, na verdade, é atividade de demasiada complexidade e que habita um terreno intrincado – o terreno da fé. Entretanto, embora pouco relacionada entre as dificuldades que compõem o dia-a-dia atual, a incerteza de que se é ouvido ou não por Deus é uma das piores calamidades de hoje. O fato de um governante não ouvir os reclamos de um segmento já gera um desconforto e uma incômoda sensação de rejeição, quanto mais o fato de não ser ouvido pelo Pai Eterno.

                        Assim, o fato de não ver Deus e concluir que não é ouvido por Ele – em razão de não escutar claramente a sua voz – tem levado muitas pessoas a abdicar totalmente de um contato com Sua Pessoa e, em consequência, adentrar perigosamente no terreno da descrença e da incredulidade.  Pois a pior sensação experimentada pelo ser humano, no encaminhamento de seus problemas existenciais, é quando cessam suas tentativas, suas buscas para a solução que almeja, e sua mente é invadida pelo vazio, pelo sentimento de que nada mais resta a fazer. A não ser se defrontar com o fruto cruel e amargo da impotência e da insustentabilidade. É também o tempo de se abraçar com a conclusão e a certeza de não se ter mais a quem recorrer. E agora? Do interior, angustiado, parte o grito, o clamor: “Por que ninguém me ouve? Por que ninguém me socorre; qual a razão para tamanho menosprezo?”.

                       Imaginemos, por exemplo, a situação de um suicida. Por que o atentado à própria vida? Com certeza, pelo sentimento de que o momento de continuar a luta chegou ao fim, exauriu-se a força para permanecer na peleja. E, se nas pessoas que vivem essa dolorosa experiência, se aconchegar uma certeza de que alguém lhe ouve, de que alguém muito poderoso está disposto a lhe escutar? Certamente as atitudes serão outras, não é verdade? Mas, afinal de contas, Deus nos ouve ou não? Se nos ouve, como é a Sua voz? Grave, aguda, alta, baixa, calma, tonitruante, acariciadora, intimista, impositora ou audível, simplesmente? E, se não nos ouve, qual o tom do seu silêncio? Duro, seco, ausente ou tão somente o ronronar do nada? Muitas pessoas há no mundo dando testemunho de que ouviram a voz de Deus. E ficaram maravilhadas. Dizem até que tal experiência modificou totalmente as suas vidas.

                        E o que fizeram de tão especial para ouvir a voz de Deus? Creram. Simplesmente creram. Personalidades bíblicas do porte de Davi também testemunharam ter ouvido a voz de Deus. No salmo 40, versículo 1, por exemplo, Davi assegura: “Esperei confiantemente pelo Senhor; ele se inclinou para mim e me ouviu quando clamei por socorro”. Também no salmo 54, versículo 17: “À tarde, pela manhã e ao meio-dia, farei as minhas queixas e lamentarei; e Ele ouvirá a minha voz”. E ainda como escreveu no salmo 120, versículo 1: “Na minha angústia, clamo ao Senhor, e Ele me ouve”. O profeta Daniel também viveu essa certeza, como está escrito no livro que leva seu nome, capitulo 10, versículo 12: “Não temas, Daniel, porque, desde o primeiro dia em que aplicaste o coração a compreender e a humilhar-te perante o teu Deus, foram ouvidas as tuas palavras; e, por causa das tuas palavras, é que eu vim”.

                        Vários escritores bíblicos asseguram, além do mais, que o próprio Jesus Cristo, como homem, como carne, também suportou todos os seus sofrimentos por conta da certeza de que Deus lhe ouvia. Essa convicção, para nós salvadora, está bem registrada em João, capítulo 17, versículo 1 ao 26, na célebre oração sacerdotal quando agradeceu a Deus que, “dos que me deste, protegi-os, e nenhum deles se perdeu, exceto o filho da perdição”, se referindo a Judas. Também no livro de João, capítulo 11, versículo 41, na conhecida passagem da ressurreição de Lázaro, Jesus agradece de público a Deus o fato de ser ouvido: “E Jesus, levantando os olhos para o céu, disse: Pai, graças te dou porque me ouviste”. Assim, com fé, está na hora de passarmos a ter, em Deus, um conselheiro e confidente especial. Afinal, como nos assegura Davi, “se meu pai e minha mãe me desampararem, o Senhor me acolherá”. Beleza, não?

sábado, 28 de junho de 2014

VOCÊ AINDA SABE CHORAR?

Públio José – jornalista
publiojose@gmail.com

                       Quase diariamente eu vejo pessoas chorarem. Manifestando, através das lágrimas, os sentimentos dilacerados que carregam dentro de si. Na maioria das vezes são pessoas hipersensíveis, de um lastro de princípios extremamente rigoroso, convictas de suas posições e detentoras de muitos sonhos. Também são cheias de boa vontade, de um desejo imenso de contribuir, de influenciar, de fazer parte do dia a dia dos outros, do próximo, de sua cidade, de sua região, de seu país. Destas, muitas têm os nervos sempre à flor da pele, a sensibilidade exacerbada, o ponto de equilíbrio normalmente estourado, semelhante a um correntista de banco que tem feito, de forma exagerada, o uso do cheque especial. Estão sempre no vermelho, expostas demais às intempéries da vida, às agressões naturais que grassam do meio ambiente social. E choram, e sentem – e declaram sua dor abertamente através das lágrimas.
                    Outras não sabem chorar. Estão esterilizadas por dentro, trancadas em si. De uma forma ou de outra, foram induzidas a não se manifestar nunca, a não declarar, diante dos outros, o que se passa em seu íntimo. A vida atual, pela sua extrema competitividade, tem muito a ver com essa postura. Para essas pessoas o chorar é uma demonstração de fraqueza, de vacilo, de pequenez de atitudes diante do enorme desafio que a vida requer de todos nós. Chorar, então, passa a ser um gesto menor, de gente desqualificada, despreparada para os embates do cada vez mais exigente mundo globalizado de hoje. Indiferentes ao que se passa à sua volta, essas pessoas seguem em frente, muitas vezes sem levar em conta o rastro de dor que estão deixando atrás de si. Não sabem chorar. E isso lhes acarreta uma postura de vida carregada de insensibilidade, dureza de coração e a relativização de conceitos e valores.
                     Para que chorar, imaginam, se o choro nada resolve? Na sua insensibilidade não vislumbram que, junto com o choro – ou na ausência dele – desabrocha todo um estilo de vida, um direcionamento em relação ao meio em que vivem, à sociedade como um todo, e ao próximo em particular. E que, ao vir, o choro traz em sua manifestação uma tomada de consciência, um “cair em si” que muitas vezes altera radicalmente o curso de uma vida. Um terrorista, por exemplo, não sabe chorar. Um corrupto que rouba o leite de crianças, o remédio dos idosos, que desvia recursos públicos para seus projetos pessoais e que, com isso, alastra dentro de si, mais ainda, o fogo da insensibilidade, uma pessoa assim, com certeza, não sabe chorar. E, com seu “modus operandi” agride, maltrata, adultera, fere – e muitas vezes, por conseqüência, mata. Insensível, egoísta, árido, seco – sem nem sentir.
                     Grandes personagens da história choraram. Fraqueza ou demonstração de grandeza? Pedro negou Jesus. Depois chorou – amargamente. E o choro reacendeu nele “a palavra que o Mestre lhe ensinara”. A partir daí nunca mais foi o mesmo. Jesus também chorou em inúmeras ocasiões, principalmente por sentir, momentos antes da sua prisão, a que ponto chega a avareza de homens voltados tão somente para seus próprios interesses. Mas, para os que não choram, ou desaprenderam a chorar, há sempre a oportunidade do reaprendizado. Acompanhado sempre, lamentavelmente, de um grande sofrimento, de uma grande dor. É o preço, por exemplo, que corruptos arrependidos têm que pagar para se reencontrar com o lado benéfico do choro. Limpando-se por dentro e redescobrindo a prática do sentimento de respeito para com os outros. Alegre-se se você ainda sabe chorar. Por sinal, você ainda sabe?

sábado, 21 de junho de 2014

O PRINCÍPIO DA QUALIDADE

                                         
Públio José – jornalista
publiojose@gmail.com

                            Os consultores, os entendidos em marketing, em processos industriais, os profissionais de venda, todos, enfim, envolvidos com a produção e a comercialização de produtos e serviços sabem que a qualidade é fundamental. Parafraseando Vinicius de Morais – que em certa ocasião falou “que me desculpem as feias, mas beleza é fundamental” – eu chego a afirmar: que me desculpem os produtos que não têm qualidade, mas qualidade é fundamental. Em tudo. Nas embalagens, na apresentação, no marketing, na assistência técnica e, principalmente agora, no que concerne à responsabilidade social e ao respeito ao meio ambiente. Todos esses passos têm que ser dados com qualidade. Chego até a ir mais além. Nos relacionamentos, no trabalho, em família, no que você produz, na palavra empenhada, no estilo de vida, a qualidade também se faz necessária, inclusive com o mesmo rigor da praticada no mundo dos negócios.
                        Alguém certamente irá pensar ser absolutamente óbvio o que estou dizendo. Entretanto, apesar da qualidade ser um princípio lógico, óbvio até demais, sua execução e sua prática deixam muito a desejar. Vejamos, por exemplo, os homens públicos. Quando agem movidos por estímulos ligados à corrução, estão agindo, com certeza, fora do princípio da qualidade. Pois a qualidade, no tocante ao desempenho de um homem público, significa, entre outros procedimentos, a prática constante da honestidade no manuseio do dinheiro alheio e a resistência a todo tipo de tentação que o induza a meter a mão naquilo que não é seu. Como se vê, o homem público também tem seu desempenho analisado sob a ótica da qualidade no que faz e no que produz, obrigação, aliás, a que todos eles estão sujeitos quando se dispõem a trabalhar em cargo público ou quando submetem seu nome, numa eleição, ao julgamento do eleitorado.
                        Do mesmo modo, o funcionário público, estando ali para servir, por isso mesmo chamado, apropriadamente, de servidor, também deve se submeter ao princípio da qualidade no serviço que presta à população. Entretanto, na realidade, o que se vê por esse Brasil afora? Tanto no que diz respeito ao comportamento dos homens públicos, como ao dos servidores estatais? No caso dos primeiros, um desprezo quase total às pessoas de quem mereceu o voto (afinal, uma procuração baseada na confiança), e, no caso dos segundos, uma má vontade no atendimento ao público de causar arrepios, aliada a um despreparo funcional gritante – com honrosas exceções, graças a Deus. Para essas pessoas, afinal, o que significa o princípio da qualidade? O que representa para elas estarem numa posição propícia à prática do bem comum e ao encaminhamento de soluções para problemas que afligem milhares e milhares de pessoas?
                        Pensando bem, a essas pessoas faltam, na verdade, o crédito e a prática do amor e da misericórdia. Aliás, os mesmos sentimentos, os mesmos princípios para os quais Jesus Cristo tanto se sacrificou para que deles tomássemos conhecimento. Falando em Jesus, a respeito do princípio da qualidade, ele nos dá uma grande lição na célebre passagem das bodas de Caná, conforme está escrito no livro de João, capítulo 2, versículo 1 ao 11. Trata-se da transformação, ocorrida em um casamento, da água em vinho. Na efervescência da festa, o vinho acabou, fato gerador de um desconforto enorme ao responsável pelas bodas. Procurado, Jesus salva a situação, transformando água em vinho. Entretanto, há que se ressaltar, no episódio, o compromisso de Jesus com a qualidade, com o rigor do produto a ser oferecido. Havia um profissional contratado para organizar a festa, que aprovou entusiasmado a qualidade do vinho que antes fora água.
                        Seu comentário de que “todos costumam pôr primeiro o bom vinho e, quando já beberam fartamente, servem o inferior”, marca, profundamente, a diferença do conceito de qualidade para Jesus (“tu, porém guardaste o bom vinho até agora”) e o mesmo conceito na visão dos homens. Pois o noivo, mesmo tendo na festa pessoas importantes na sua escala de interesses, ainda tentou iludi-las com vinho de boa qualidade no início, para, posteriormente, enganá-las com uma bebida de qualidade inferior. Infelizmente, esse é o típico comportamento humano. Que cumula de gentilezas as pessoas segundo o retorno que delas terão, passando a tratá-las de forma diferente quando for incerto o retorno da vantagem. Essa não é postura de qualidade. O princípio da qualidade, segundo Jesus, deve ser exercitado antes, durante e depois de qualquer relacionamento. Até para aquele que você julga não ser merecedor de um gesto seu – de qualidade.

sábado, 14 de junho de 2014

DESTEMPERO INCONSEQUENTE















Públio José – jornalista
publiojose@gmail.com

                    O título deste artigo é uma redundância. Pois destempero já é inconseqüente em sua essência, em sua natureza. Segundo o dicionário, destempero significa grosseria, atrevimento, desatino, destrambelho, estupidez, histeria, linguagem obscena. E modos obscenos, postura obscena, comportamento obscenamente destemperado foi o que a opinião pública de Natal presenciou da parte da vereadora Amanda Gurgel (PSTU/RN) na última quarta-feira, dia 21 de maio, no plenário da Câmara de Vereadores. Por vários dias, e por várias seções, a pauta da Casa foi ocupada pelas discussões e debates sobre a reforma administrativa, projeto encaminhado pelo Executivo municipal com o objetivo, segundo sua visão, de melhor ordenar, sistematizar e normatizar as ações da gestão municipal. Para a situação, tudo bem; para a oposição, tudo errado. Ok! Afinal, é o papel de cada uma.
                        O debate começou a desandar quando invadiu o terreno da irracionalidade. Em seu contexto, o projeto – além da extinção órgãos e cargos – retornava à realidade salarial do momento os vencimentos dos ocupantes de cargos comissionados, cujos salários – sem reajuste há 16 longos anos – estavam defasados em relação aos parâmetros de hoje. Em torno desse tema, travou-se um longo e cansativo debate entre situação e oposição – o que é de todo razoável. Entretanto, a partir do momento em que a oposição passou a agredir, cega aos argumentos contrários, sem atinar para os valores salariais praticados pelo mercado, eis que surge a figura da vereadora Amanda Gurgel, com seus destemperos de costume. Foi degradante. Toda Natal sabe do comportamento inconveniente e inoportuno adotado constantemente pela vereadora na tribuna da Câmara. Porém, no dia 21 passado, ela extrapolou
                        Até para os padrões Amanda. Ao microfone, arfante, olhos esbugalhados, mãos crispadas, dedos em riste, a vereadora usou e abusou de expressões inadequadas, ofensivas, de um linguajar grosseiro, absurdamente agressivo e totalmente inapropriado para o momento e o local. E contra quem? Contra os ocupantes de cargos comissionados! Nominou-os de escória, ladrões, corja de parasitas, vagabundos, paus-mandados, puxa-sacos, capachos e outros termos semelhantes. Tudo isso contra pessoas entre simples, humildes – porém íntegras, trabalhadoras, merecedoras de seus salários – e profissionais graduados, vários deles de curso superior, com mestrado, doutorado... Gente, enfim, de reconhecido valor. Alguns deles, quem sabe, até colegas de Amanda na universidade como estudantes, professores ou funcionários. Foi um espanto! Um senhor espanto!
                               Na tribuna, dentes arreganhados, Amanda mais parecia um animal acometido de raiva canina, cujos sintomas, segundo os cientistas, se manifestam pela mudança de comportamento, seguida de ansiedade, inquietude, desorientação, alucinações, agressividade em demasia e até convulsões. Convulsões? Sabe-se que o animal com raiva canina é um ser irracional. Já Amanda Gurgel, além de humana, é professora de Português (vejam só!), graduada em Letras pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte – e vereadora. No extremo contrário ao seu comportamento, o dicionário informa que vereador significa “zelar pelo sossego e bem estar dos munícipes”. Vem do latim “verear”, indicando vereda, caminho. É figura importante na engrenagem político-institucional do país, com a responsabilidade de indicar novos rumos aos munícipes. Com certeza, sem raiva canina. E as convulsões?

VOCÊ PERDE O PRÍNCIPE OU O REINO?















Públio José – jornalista
publiojose@gmail.com

 
                               Não sei se você já passou por essa situação de ter de escolher entre o todo ou a parte, de decidir entre uma pessoa só ou um conjunto de pessoas. Ou por outra, se você já prestou atenção na situação de presidente de um clube de futebol que teve de decidir entre o técnico ou o time todo. O técnico é muito bom, já deu várias vitórias ao clube, é um sujeito inteligente, pode ser considerado até um “boa praça”, mas está criando problemas para o presidente do clube no campo do relacionamento pessoal. Já criou caso com um dos craques do time, ou melhor, não teve o discernimento necessário para administrar uma pequena quizumba, um leve atrito com um dos principais jogadores do time. De uma pequena rusga, o problema virou um problemão, jogando na área da discórdia irrecorrível todo um passado de companheirismo e convivência diária. Ninguém sabe o que se passa na cabeça do técnico.
                       Fechado, macambúzio, a cada dia mais isolado, ele tenta se mover, tenta escalar o time para entrar em campo, mas o clima está pesado. Já tem jogador até se recusando a entrar em campo, outro já iniciou conversa com um time adversário, enquanto um terceiro já declarou que quer o cargo do técnico. Ou seja, quer disputar com o técnico, junto ao presidente do clube, o cargo, a primazia, a condição de comandar o time. Situação difícil, não é? Vamos supor que, no exemplo acima, você seja o presidente do clube. Como você agiria? A situação está insustentável. O campeonato corre solto, os outros times estão se fortalecendo, contratando, conversando, se articulando..... O tempo passa e a situação a cada dia fica pior. E agora, o que você vai fazer? Você vai defender o técnico contra todo o time, ou vai dispensar o técnico para salvar “o restante da pátria?” A História nos mostra, em períodos diferentes, a réplica de situações semelhantes à que acabo de trazer à sua meditação.
                       E, na maioria dos casos, o responsável pelo time termina sendo obrigado a optar pela manutenção do time em detrimento do técnico. Mesmo lamentando a situação, mesmo sentindo de forma intensa a perda do auxiliar, do companheiro, do filho, do irmão. Você também optaria por essa alternativa?  Essas divagações me vêm agora a propósito de algumas pessoas que estão na posição de príncipes imaginando já serem reis. E metem as mãos pelos pés no tocante a um item importantíssimo na vida de qualquer pessoa – principalmente dos que estão em posição de comando: a questão do relacionamento pessoal. É muito difícil você conquistar e manter com sucesso um cargo de liderança se você não valoriza esse lado fundamental da vida. Vivemos em comunidade, precisamos dos outros, principalmente dos amigos. Para complicar a análise dessa história, você precisa ficar sabendo que todos nós nascemos para exercer função de liderança.
                       O homem não nasceu para ser subalterno, submisso. Conseguir de alguém uma postura de submissão é algo a se conquistar – ou então se impor pela força. Neste último caso, os resultados já são conhecidos pelo suceder da história. Jesus Cristo, certo ocasião, dirigiu-se a Deus em oração, agradecendo ao Pai porque “dos amigos que Tu me deste eu não perdi nenhum, salvo o filho da maldição” (se referindo a Judas). Pois é, Jesus valorizava demais os amigos que conquistava – e mantinha. Em certas ocasiões a um custo altíssimo, como foi o caso do próprio Judas a quem fez tesoureiro de seu ministério, homem de sua inteira confiança, mesmo sabendo de seu caráter que variava da adoração momentânea à revolta latente pelos lucros e vantagens que pensava auferir ao se unir ao Mestre e que, com o passar dos dias, não via se concretizar. Outro foi Pedro que, como todos sabem, traiu a Jesus três vezes seguidas – numa noite só.
                        É interessante se notar que, ao ressuscitar, Jesus se referiu aos demais apóstolos como seus irmãos, mas a Pedro ele se dirigiu pelo nome. Você talvez esteja afirmando ser muito difícil se fazer de Jesus para manter suas amizades. E realmente é. Nem eu estou pretendendo tal coisa. Acontece que tem gente que recebe uma herança de mão beijada e – praticando um dia-a-dia de arrogância e menosprezo pelos outros – consegue deixar escapar pelas mãos um leque de amizades que lhe dá a sustentação necessária à manutenção do cargo que ocupa. São pessoas, portanto, inaptas para funcionarem como príncipes, mesmo tendo chegado ao posto pelos laços de parentesco com o rei. Mas ao rei cabe decidir se troca todo o seu reinado por um príncipe, ou se, em última instância, começa a ruminar, a articular, em seu silêncio e solidão palacianos, a saída política mais favorável, menos traumática. Aliás, você precisa tomar uma decisão, lembra-se? Afinal, vai optar pelo reino ou pelo príncipe?        

sábado, 31 de maio de 2014

ORDINÁRIA OU INOCENTE?















Públio José – jornalista
publiojose@gmail.com

                       Um pacote de comerciais de televisão de um site de venda de produtos usados, utilizando vários bordões de cunho popularesco e agressivo, vem conquistando a atenção de telespectadores de todo o Brasil. O conteúdo produzido pela agência de propaganda que criou a série de filmetes já gerou, pelo inusitado, até uma interessante matéria analítica nas páginas da revista Veja. Realmente não é fácil criar uma série de comerciais de televisão de viés jocoso, debochado, agressivo – até ofensivo, como vem sendo empregado na propaganda em referência. Até porque o tom insultuoso é direcionado ao consumidor, ao cliente em potencial do site, ou seja, pessoas que têm um objeto usado qualquer, passível de venda, ainda indecisas em se desfazer do tal objeto. Um ator, escondido do pescoço para baixo, falando um texto curto, porém agressivo, dá voz à mercadoria em efeito produzido em perfeita sincronização.
                        Para modificar a constrangedora situação, o ator/objeto/usado é expelido de cena, tendo antes cumprido o seu papel: despertar no proprietário do objeto usado o desejo de se desvencilhar dele o mais rápido possível – para tanto se valendo, é claro, dos préstimos do anunciante. São vários os comerciais já produzidos, cada um deles apresentando um texto diferente. O que tem feito o Brasil se esbaldar é o que mostra o ator/objeto/usado chamando uma aturdida senhora de “ordinária” e “inocente”. Diz ele, lá pras tantas: “ordinária, sabe de nada, inocente!” No Brasil inteiro não se fala de outra coisa. De norte a sul, de leste a oeste, do Oiapoque ao Chuí, tal fraseado é repetido à exaustão nos mais diferentes ambientes, nas ocasiões mais diversas e por pessoas de nível social de A a Z. Por quê? O que motiva o Brasil inteiro a celebrar um conteúdo depreciativo, quando o normal seria censurá-lo e enviá-lo pras cucuias?
                        Será pela simples irreverência da situação? Ou o brasileiro pratica uma certa cafajestice inerente ao seu caráter? Teríamos, por aí, o tal “espírito macunaímico”, de que falam os estudiosos? O “inocente”, por seu turno, significaria indolência, omissão, alheamento? Macunaíma, célebre personagem de Mário de Andrade, caracterizado como um “herói sem nenhum caráter” retrataria também a índole “inocente” (omissa) como elemento da falta de caráter do povo brasileiro? Afinal, a inocência em referência é falta de caráter? Independente dessas análises de cunho sociológico, o fato é que o caráter dos comerciais tem tudo a ver com o espírito debochado, cínico, desavergonhado de Macunaíma. Valendo-se, então, do paralelismo entre a celebração ao comercial e outras questões nacionais, pode-se inferir perfeitamente o motivo pelo qual o brasileiro adota certos comportamentos.
                        Exemplos? Votar em macacos, rinocerontes, hipopótamos... E, por extensão, em Malufs, Sarneys, Tiriricas – e assemelhados. Alguém pode achar tal raciocínio exagerado, desproposital. Nelson Rodrigues não fez por menos ao retratar a sociedade brasileira na peça cujo título diz tudo: “Bonitinha, mas ordinária”. Ora, em um país cujos valores e princípios são espezinhados e amarfanhados a tal ponto que ninguém enxerga neles início e fim; em um país cujas principais lideranças políticas se enredam cada vez mais em atos de corrupção e outras práticas condenáveis; em um país cuja onda de violência vem atingindo níveis maiores do que em países em guerra civil; em um país cujas promessas de governo nunca devem ser levadas a sério; em um país... Ufa! Em um país assim, é natural soar engraçado o conteúdo que agride, que insulta. Mas, acalmemo-nos todos, ordinários e inocentes (ou não)! A Copa vem aí!