Mostrando postagens com marcador COLUNA Sílvio Caldas. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador COLUNA Sílvio Caldas. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

O destino de Lula

Sílvio Caldas 
(jsc-2@uol.com.br)

       Não gosto de Lula, entretanto discordo daqueles que pretendem se deleitar com o atual estado de saúde do ex-presidente.
       Desejar o mal, a quem quer que seja, jamais será considerado uma virtude.
       Jamais simpatizei com a asquerosa silhueta de Kadaffi, entretanto me enojei com a maneira como o trataram nos seus últimos momentos de vida. Kadaffi tinha tudo para merecer uma morte por meio de uma condenação através de um órgão de Justiça, mas não morrer miseravelmente, como um cão vadio. Um ato desumano.
       Por mais que sejam evidenciados defeitos no nosso ex-presidente e que dele se discorde, não é justo colocar em blogs notas se vangloriando de seu atual estado de saúde. Afinal, todos nós, mais cedo ou mais tarde partiremos, de um modo ou de outro. E quanto mais “importantes” tenham sido nossas vidas aqui na terra, seremos possivelmente mais severamente julgados. Contudo, cabe a Deus o julgamento de cada um de nós.
       Por outro lado, por mais que se discorde dos atos ou atitudes de Lula, ninguém pode lhe tirar o mérito de chegar onde chegou e de governar nosso país por oito anos, colocando-nos enfim no cenário mundial, ele mesmo projetando-se como um líder, apesar dos escândalos internos que obnubilaram seu governo.
       Lula não é nenhum santo, todo mundo sabe disso. Porém jamais será digno de ninguém escarnecer ou menosprezar o estado de saúde dele. Deus é quem sabe. Lula é um homem inteligente, racional e tem sensibilidade bastante para ele mesmo aquilatar os caminhos ou descaminhos de seus atos. Nenhum juiz é melhor do que a própria consciência de cada um de nós. 
       Por enquanto, o mínimo que se pode desejar é que Lula escape do terrível mal que o aflige e que Deus tome conta do resto.

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Décio Holanda

 Sílvio Caldas
(jsc-2@uol.com.br)

         Ultimamente tenho andado me perguntando qual será a idade ideal para morrer.
       Cheguei a perguntar ao doutor Vicente Modesto, meu cardiologista, o que significa realmente o risco cirúrgico. Ele sorriu e me disse o seguinte: o ser humano vive sob risco de morte, desde o dia em que nasce. Quando chega a hora dele, não há escapatória, de modo que não adianta pensar sobre esse assunto. Enfim, quem sabe é Deus.
         Sexta-feira passada, sem mais nem menos, o mano Décio partiu. Assim, de repente, dentro de casa, sem se despedir dos amigos.
         Disse-me Dominguinhos que ele aparecera no início da semana lá pelo Azulão – a catedral da boemia – meio macambúzio.
         Será que ele pressentiu alguma coisa?
       Eu soube por Pegado que estava tudo combinado para no dia seguinte formarem uma caravana para visitar Roberto Furtado em Muriú. Portanto, pelo menos naquela sexta-feira não estava nos seus planos qualquer encontro com a sinistra.
         Cerca de um mês atrás encontrei-me com Décio na casa de Clênio. Tomou duas doses de whisky e pediu licença para se retirar. 
        - Que é que há? Não está gostando do tira-gosto, diga logo – insultei.
        - Nada disso – respondeu-me com aquela voz rouca característica. O problema é que hoje é sexta-feira e é dia de levar Gracinha para dançar na AABB. E ai de mim, se falhar!
         Todos sorrimos, e lá se foi, banzeiro e bonachão o amigo, a quem estava vendo pela última vez.
         O negócio dele, nos últimos tempos era nos relatar as aventuras do netinho.
       Não parecia, mas Décio era homem de cultura geral bem acima da média. Homem sofrido na vida, embora tenha recebido dos pais excelente formação – e talvez por isso mesmo – não demonstrava o menor apego às coisas materiais. Um homem simples, mas que jamais foi um simplório. Desconheço quem não gostasse de sua companhia. Quando passava da terceira dose, se o ambiente era musical simplesmente pegava o microfone e começava a cantar. No início, afinado, lembrando, sem ser imitativo, Martinho da Vila, principalmente quando cantava Jaguatirica. 
         Certa feita (Gracinha estava presente), pedi-lhe para cantar aquele samba que começa “Já tive mulheres”. Olhou-me de cenho, fechou a cara e respondeu: esqueci da letra.
         - Como esqueceu a letra? Ontem mesmo, no clube de Engenharia, você cantou.
         - Já lhe disse que esqueci a letra e pronto!
         Depois foi que me esclareceu, chamando-me num canto.
         - Sílvio, jamais me peça para cantar essa música na frente de Gracinha, pois ela não gosta.
         Cai na risada, mas o assunto ficou encerrado.
     Minha amiga Gracinha, de uma coisa eu tenho certeza: vocês se amavam e foram felizes. Prefira,  portanto,  mandar a tristeza às favas e guardar na saudade, para sempre, o grande companheiro que tinha muita consciência do que você significava para ele.

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Mais uma vez, Dilma

Sílvio Caldas  (jsc-2@uol.com.br)

Nela não votei. Mas poderei algum dia votar, quem sabe! Por exemplo, se ela mudar de partido e se continuar a me impressionar do jeito como vem fazendo, ou seja, assumir essa postura de estadista.
Pensando calmamente é preciso que se compreenda a situação da política interna que prende a Presidenta, de certa forma, às peias petistas. Afinal, foi decidido o apoio e a indicação que recebeu para estar na posição em que se encontra. Ela precisará de muita habilidade para assumir os princípios que defendeu em campanha, ser ela mesma, sem demonstrar ranços de ingratidão.
Contudo, mais cedo ou mais tarde, pelo andar da carruagem, terá que ocorrer a ruptura, caso ela continue com o comportamento atual.
Em primeiro lugar, não há como se negar a inteligência que lhe é inata,  a capacidade administrativa e profissionalismo demonstrado ao longo dos anos que vem ocupando cargos públicos de gerenciamento e comando. Mas por isso mesmo foi louvável e mesmo corajosa a escolha de Lula para indicá-la como sua sucessora.
Sendo Dilma tão talentosa quanto Lula, em relação ao seu discurso de palanque, aliando-se esse talento ao que lhe é inato - o da fama de boa administradora - isso faria dela, de logo, uma das maiores Presidentas que o País já conheceu. E ainda está em tempo. Basta que ela faça um bom curso de oratória.
Mas voltando à realidade do jogo da política, o que eu acho mesmo é que Lula já escolheu Dilma contando com o retorno nos próximos quatro anos.
Porém continuo acreditando que Deus é brasileiro.

terça-feira, 27 de setembro de 2011

A juíza que perdeu o juízo


Sílvio Caldas

         Acabo de receber um e-mail de um leitor remetendo uma entrevista da Ministra Eliana Calmon que, com a coragem dos verdadeiros heróis escolheu o lado certo e fez denúncias em relação a fatos que todos já sabíamos ou no mínimo, desconfiávamos, em relação à demagogia existente também, no Poder Judiciário.
         De logo me incluo dentre os covardes que se acomodam ao longo da carreira, com medo de retaliações. Sendo que, no meu caso, juiz concursado, o máximo que me foi dado foi ser perseguido aqui e acolá, mas nada que não tenha conseguido superar ao longo de minha carreira, até finalmente chegar a uma aposentadoria compulsória. Mas de fato, jamais denunciei nada, como o faz agora a Ministra.
         A bem da verdade, ao longo da minha carreira pude observar que em sua maioria, os jzes que conheci são pessoas sérias, comportamento realmente ilibado e honram o juramento assumido quando concluíram o Curso. O problema é que esses se acomodam e fingem que não se incomodam com as coisas que acontecem. Fazem como eu fiz, isto é, desenvolvem a arte de engolir sapo. Cabe à minoria dos aproveitadores colher as “glórias” e alcançar os píncaros do orgulho e da troca de favores, resquício da colonização brasileira.
         Ouvi de alguns presidentes, várias vezes, o flácido argumento de que precisavam atender pedidos de políticos, pois estes são os que conseguem as verbas – necessárias ou não – para a administração, isto é, aprovam leis ou emendas muitas vezes desnecessárias em sua essência.
         A Ministra fala, por exemplo, do famoso quinto constitucional, que nomeia procuradores e advogados sem concurso público, não para um início de carreira, mas já diretamente para os tribunais, inclusive o caso dela.
         O problema é que as escolhas normalmente recaem nos menos qualificados tecnicamente, mas sim nos mais aptos a praticar logo adiante a troca de favores. Claro que existem as exceções, embora raras, como no caso dela própria.
         Mas o problema não reside apenas nas nomeações provenientes do quinto constitucional. Existem também as nomeações ditas “por mérito”, que pouco tem de meritórias, no geral, pois depende de quem tem mais QI (Quem Indique), pouco importando o comportamento do juiz ao longo da carreira que deveria ser exercida com profissionalismo.
         Como acabar com sistema tão doentio? Acho que não será jamais possível, uma vez que as leis são feitas por um Poder que, como os demais, também está doente. E o próprio arcabouço do sistema é feito sob medida, pois a própria nomeação para os tribunais superiores passa pelo crivo do Poder Executivo, que no mínimo atende aos próprios interesses e aos interesses do Poder Legislativo. Verdadeiro festival de troca de favores.
         E o pior de tudo: não pense ninguém que o pior regime é o da demagogia dos poderes em geral. O pior de tudo é a verdadeira ditadura do Poder Judiciário. É muita força, muita pompa e pouca objetividade em busca da verdadeira Justiça.
         Na entrevista da Ministra o repórter indagou: - O que a senhora pretende fazer?
         E a Ministra, na condição atual de Corregedora do Conselho Nacional de Justiça respondeu:
         - Nós magistrados temos tendência a ficar prepotentes e vaidosos. Isso faz com que o juiz se ache um super-homem, decidindo a vida alheia. Nossa roupa tem renda, botão, cinturão, fivela, uma mangona, uma camisa por dentro com gola de ponta virada. Não pode. Essas togas, essas vestes talares, essa prática de entrar em fila indiana, tudo isso faz com que a gente fique cada vez mais inflado. Precisamos ter cuidado para ter práticas de humildade dentro do Judiciário. É preciso acabar com essa doença que é a “juizite”.

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Um prêmio Nobel para o Brasil


Sílvio Caldas 
jsc-2@uol.com.br

          O primeiro brasileiro a ser cogitado para o honroso prêmio, por duas indicações infrutíferas, foi o grande marechal Cândido Rondon, patrono da arma de Comunicação do Exército brasileiro.
         Depois ocorreram umas poucas outras indicações, como por exemplo, Celso Furtado, Dom Hélder Câmara, e outras mais, igualmente infrutíferas.
 Enfim, o Brasil jamais recebeu a honraria.
         Se acaso houvesse o Nobel do Futebol, sem dúvida alguma já a teríamos obtido. Ao menos o rei Pelé ou mesmo Garrincha, quem sabe!
         Pelo menos no ramo da literatura creio que também de há muito já merecemos a tal distinção. Mas, nada.
       Se eu tivesse alguma influência nessa avaliação sugeriria que os organizadores do Prêmio criassem uma nova modalidade: a da corrupção.
         Aí, sim, duvido que alguém nos passasse para trás nessa matéria.
         Por falar nisso, foi interessante a manifestação de certos setores do povo a respeito da matéria. Esses movimentos, quando não são manipulados pelos políticos, começam tímidos, minguados, como as fontes que fazem nascer os grandes rios. Aí, dependendo da sua autenticidade, começam a engrossar as fileiras e vão se avolumando.
         Alguém se lembra do padre Payton?
         E as diretas já?
         E os estudantes que deram início ao movimento que derrubou Collor?
         Pois é, o atual movimento se irá adiante, não sei. Só sei que ele passou a existir e numa data muito simbólica: o nosso Sete de Setembro.
         Tomara que vingue.
         E se são realmente boas as intenções da Presidente Dilma, ela que se cuide, pois já existem boatos de franca sabotagem contra seu governo.
         E se realmente são boas as intenções dela, embora nela não tenha votado, terá meu apoio e meu aplauso, e, de resto, dos homens de bem desse país.

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Jobim perdeu o tom

Sílvio Caldas

        Perdeu o tom e o emprego. Falou demais.
         Ninguém tem dúvida que o Jobim Nelson tem mente brilhante e currículo invejável. Mas o que lhe sobra em competência falta em modéstia. E mais, diz o que pensa, mas não pensa no que diz.
         Com toda inteligência que Deus lhe deu, em matéria de reserva mental é um gigante de pés de barro. Acho que deve sofrer fortes dores no fígado.
         Corajoso, capaz de segurar cobras imensas, grandalhão e grandiloquente, de repente começou a pronunciar frases dúbias e que começaram a afrontar o governo da ex-guerrilheira.
         Talvez Dilma não tenha de logo demitido Jobim quando desnecessariamente fez uma dúbia alusão a idiotas e que tinha votado em José Serra, não por faltar a ela coragem, mas por exercer prudência em relação aos militares, por motivos óbvios.
         Mas Jobim, talvez se considerando intocável pelo mesmo motivo, continuou sua verborragia extra-prudencial e ironizou com duas ministras de uma só vez. Foi demais.
         Àquela altura, Dilma, que não tem nada de ingênua, já tinha produzido as sondagens necessárias e com toda razão fez o que tinha que fazer.
         Jobim foi ministro do STF por indicação de Fernando Henrique. Jamais negou sua admiração por aquele ex-presidente. Lula sabia disso. Até aí, tudo bem. Nesse ponto uma nomeação de Lula que confiou na ombridade do amigo do rival político. E Dilma, em respeito a indicação do ex-presidente Lula manteve, talvez nem tanto por vontade própria dela, Jobim no novo ministério.
         Considerando que no Brasil o voto é secreto, somente se justifica a desnecessária confissão de voto pelo ministro da defesa a uma provocação, uma afronta à presidente Dilma.
         Ao contrário do outro Tom, que jamais desafinou Jobim tentou subir na serra, daí ter sido defenestrado.
         Quanto à nomeação do novo ministro, aí é assunto para outra lera.

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Amigos da mesma laia

Autor: Sílvio Caldas
(jsc-2@uol.com.br)
         Acho que amizade sincera só pode dar certo quando os amigos são, como se diz no vulgo, da mesma laia.
       Se não possuem interesses e valores em comum não são amigos. Aliás, nem os mesmos gostos. Isso não significa que um seja melhor ou pior do que o outro, apenas são diferentes e tem o seu modo de ser que é singular em relação aos interesses ou gostos pessoais.
       Muita gente se gaba de possuir um milhão de amigos. Acho que quem tem um milhão de amigos não tem nenhum. Amigos mesmo, contam-se nos dedos da mão. E mesmo assim, é difícil tê-los dez. Outra coisa: fazer amizade é fácil, difícil é conservá-las!
       Muitos confundem amizade com coleguismo, com parceiros de jogo ou de bar, ou de boemia. Ledo engano. São amizades passageiras, pois a verdadeira amizade tem que ter a duração da eternidade.
       Existe a possibilidade de amigos não pertencerem à mesma classe social, ou as mesmas afinidades. Mas isso é coisa rara. Do contrário, os irmãos de sangue seriam necessariamente amigos entre si.
       Todavia, não se busque investir numa amizade apenas por alguém pertencer à mesma classe social . O fundamental de uma amizade sincera é que não seja baseada em interesses menores ou em coisas materiais. Pode-se ter bons relacionamentos comerciais ou profissionais sem que o relacionamento se baseie numa amizade e sim, apenas, nos interesses comuns.
       Outro detalhe infelizmente importante: o fato de você dedicar sinceramente uma amizade a determinada pessoa não significa que haja por parte dela uma reciprocidade. E você não tem que se magoar com isso, pois o fato de você amar alguém não significa que terá que ser correspondido. Limite-se pois a amar sem ser amado.
       Finalmente, se você quer saber que é realmente amigo de outra pessoa, basta que pergunte a você mesmo: seria eu capaz de dar a vida por Fulano (ou Fulana)?
       Se sua consciência responder a isso afirmativamente, então considere-se amigo verdadeiro. Caso contrário, desista, pois vocês não são da mesma laia.

segunda-feira, 11 de julho de 2011

O país dos extremos

Sílvio Caldas
jsc-2@uol.com.br).
     Na minha opinião somos o país dos extremos. Exemplos vários.
 .
    Comecemos pela proibição do trabalho infantil. Recentemente foi descoberto um autêntico trabalho escravo no Estado do Piauí. Como de resto existem vários pelo Brasil a fora que retiram as crianças de viverem potencialmente a infância e os seus direitos sociais, como o acesso à educação de qualidade.
.
     Outrossim, é meritória a campanha que tenta a todo custo livrar nosso país da prostituição infantil, tanto ao longo das rodovias como nos nossos grandes centros urbanos. Porém, no duro, ninguém consegue acabar com os flanelinhas, desocupados e fumadores de crack. Estou me referindo às crianças na rua.
.
     De há muito penso sobre o fenômeno e me atrevo a dar uma opinião. É muito fácil (ou menos problemático) localizar o trabalho escravo ou mesmo promover blitz espetaculosas. Via de regra previamente acompanhadas pelos chamados “furos” jornalísticos. Mas... o que fazer com as crianças desocupadas e que continuam fora da escola? Bem, aí vem a parte difícil e complexa. Muito fácil aplicar os rigores da lei e as fiscalizações espetaculosas. O que é mais difícil (o lado propriamente social), aí, deixa-se para depois...
.
     Outra balela: o Brasil sem fome. Ou seja, aplica-se o dinheiro do contribuinte no falacioso fome zero, mas nada de se ensinar o povo a produzir, simultaneamente. A educação continua sendo criminosamente descuidada, pois um povo educado desenvolveria com mais eficiência seu senso crítico, o que vale dizer, melhor conscientização na hora da escolha dos governantes. Ou seja, povo de barriga aparentemente cheia é povo aparentemente feliz, para alegria de maus políticos.
.
     Não tenho autoridade técnica para falar de estatísticas. Mas tenho pra mim que nossa Nação gasta muito mais com segurança do que com educação. Os resultados começam a florescer e vai dar trabalho para inverter a estatística. Hoje em dia pagamos à polícia, em geral, bem melhor do que aos nossos professores. Não que os policiais não mereçam. Mas os resultados do seu trabalho são imediatistas. A polícia prende, a Justiça solta e a bandidagem continua a florescer, ao passo que professores mal pagos e mal formados vão se marginalizando ou migrando para profissões que lhe asseguram uma qualidade de vida mais digna. Antigamente, ser professor no Brasil era uma honra e dava status. Hoje em dia, dá pena. Afinal, investir em educação é o mesmo que investir em saneamento. Trabalho de custo elevado e de resultados de futuro relativamente longínquo em relação às próximas eleições. Bem mais produtivo as obras de fachada.
.
     Só para exemplificar: quantas escolas poderiam ser construídas com o dinheiro gasto nessa tal arena das dunas que demoliu nosso poema de concreto?
.
     Acho que hoje amanheci de mal humor. 

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Promover para remover?

Sílvio Caldas / (jsc-2@uol.com.br)
          Há muitos anos trabalhei numa instituição que quando desejava se livrar de algum membro de certa importância que estava criando alguma dificuldade local, mas que não podia demiti-lo utilizava uma estratégia: a promoção do “servidor”.
         - Parabéns, fulano, você foi promovido para (se estava no Rio Grande do Sul era deslocado para Amazonas, por exemplo, ou mesmo para algum país distante da Ásia). Você foi promovido a diretor (e lá surgia um cargo de certa importância). Contanto que a comunidade local pudesse se ver livre do “incômodo”, nem que fosse por algum tempo.
         Havia até festa de despedida. No fundo, os altos escalões bem sabiam do que se tratava.
         A presidentA Dilma é sucessora do presidente Lula. Legítima cria da política dele, em nível nacional. Mas embora continue adotando as grandes metas do governo anterior, ela tem  revelado com uma relativa autonomia. Sabe-se das dificuldades que tem sentido em não criar embaraços para seu antecessor e no varejo bem que tem atendido aos seus apelos.
         Mas de repente Dilma externa um elogio desabrido e justo a alguns feitos do ex-presidente Fernando Henrique. Se tal fato tivesse ocorrido por causa do falecimento dele, poderia ser interpretado como um elogio protocolar, mero exercício de diplomacia política. Mas não, Fernando está vivo e bulindo, como se diz no popular. Compreendo como sendo o reconhecimento de uma base deixada para que políticas sociais pudessem ter continuidade... políticas de ESTADO e não de GOVERNO.
         Sei não, mas tenho pra mim que Lula não gostou da atitude de Dilma. Afinal, sempre que pode, ele faz críticas negativas ao governo anterior, pois, como sempre proclama... “nunca dantes, na história desse país....”
         Portanto, nossa presidentA está adquirindo cada vez mais luz própria, no que alias, faz muito bem.
         Quanto a Lula, acaba de ser nomeado para um alto cargo na África...
         Semana memorável. Morre Itamar Franco, que em apenas dois anos de mandato devolveu a auto-estima do brasileiro com o sucesso do plano Real.
         Semana significativa. A presidentA Dilma, pessoalmente, demite quatro figurões do Ministério dos Transportes, inclusive o famoso Pagot, tão denunciado pelo senador Mário Couto, do Pará, desde o início do segundo governo Lula. Parabéns presidentA.

terça-feira, 28 de junho de 2011

O anjo de Hamburgo

 Sílvio Caldas
(jsc-2@uol.com.br)
         Acabo de receber um e-mail da minha amiga Albanisa Cysne, paribana radicada de há muito no Ceará, dando conta de uma das nossas maiores heroínas brasileiras de todos os tempos.

         Refiro-me a dona Aracy de Carvalho Guimarães Rosa, falecida em 2008. Casada com o grande poeta e diplomata Guimarães Rosa, enviuvou em 1967, e ainda mulher formosa preferiu permanecer viúva.

         Apesar de uma mulher de conduta irreprochável, dona Aracy sempre foi uma inconformada com as injustiças da vida. Assim rebelou-se desde cedo com as recomendações da ditadura Vargas que restringiam, ao tempo da guerra, vistos para autorizar a vinda de judeus para o Brasil. Funcionária concursada do Itamarati, trabalhando em Hamburgo, Alemanha, ainda solteira, desobedeceu às ordens da diplomacia brasileira e furtivamente misturava entre as papeladas que o cônsul brasileiro tinha que assinar a autorização para que judeus se deslocassem legalmente da Alemanha para o nosso país. Aliás, faça-se justiça, seu futuro esposo que também trabalhava no mesmo consulado sabia de suas manobras, mas não a denunciava.

         Por sua corajosa atitude em favor do povo judeu Aracy recebeu expressiva homenagem de Israel, e tem seu nome emplacado no famoso Jardim dos Justos, naquele país.

         Mais tarde, por ocasião do regime militar que vigorou entre nós a partir de 1964, aqui já residindo, deu guarida a inúmeros brasileiros que foram perseguidos pela revolução, dentre eles o famoso compositor Geraldo Vandré.

         Portanto, dona Aracy enfrentou com sua coragem Hitler, Getúlio Vargas e Costa e Silva.

         Não sei se no Brasil existe ou já foi feita alguma homenagem a essa valorosa mulher. Desconheço.

terça-feira, 21 de junho de 2011

Adeus, Machadão


Sílvio Caldas
(jsc-2@uol.com.br)

          Está chegando a hora. O “Poema de concreto” será reduzido a escombro. Vai morrer na flor da idade – apenas 39 anos, enquanto o Coliseu de Roma resiste há mais de dois mil anos.
        O Machadão, ao tempo da sua construção, foi inaugurado sob o nome de Marechal Castelo Branco. O ano era 1972.

        O apelido “Poema de concreto” foi batizado pelo saudoso ex-governador Cortez Pereira, tendo sido ratificado pelo grande comentarista futebolístico João Saldanha, quando de sua primeira visita ao estádio.
        Realmente o projeto do meu amigo, arquiteto Moacir Gomes, pela delicadeza de suas formas, lembra um poema. Tenho certeza que comigo concordaria o poeta (e arquiteto) Joaquim Cardozo.

        É justo que a memória se recorde que o então jovem arquiteto Daniel Holanda (filho do grande construtor Joaquim Victor de Holanda) também colaborou, embora ainda jovem e iniciando sua carreira. E mais, que o cálculo que garantiu aquela beleza arquitetônica foi de outro grande, dos calculistas José Pereira e Hélio Varela de Albuquerque, este, exímio violonista.

        Em 1989 o Brasil começava a buscar novos caminhos políticos. Aproveitou-se a opinião para prestar uma justa homenagem ao grande esportista João Cláudio de Vasconcelos Machado, que emprestou seu nome ao estádio que de logo foi apelidado, e até hoje, de Machadão.

        Inicialmente o Estádio foi projeto para 42.000 espectadores, embora seu recorde de público tenha alcançado posteriormente mais de 50.000. Posteriormente, com o advento do descaso dos responsáveis por sua conservação, a capacidade de público ficou reduzida praticamente à metade. Agora, nem isso. Restará apenas a memória de tão bela obra, em função de uma futura Copa do Mundo que aqui abrigará um ou dois jogos daquele campeonato.

        Extinto o Machadão, surgirá diante da paga de milhões e milhões de reais do contribuinte uma tal de Arena das Dunas.

        Sinceramente, não sei se valerá à pena. Mas que valeu a pena a obra de Moacyr e José Pereira, ah, disso não tenhamos dúvida.

        Adeus, Machadão. Desculpe o que fizeram com você.

segunda-feira, 13 de junho de 2011

O poder e o papel da imprensa

Sílvio Caldas
(jsc-2@uol.com.br)

         Refiro-me à imprensa séria, descomprometida. Imprensa sem cor partidária. Imprensa que só funciona nos regimes democráticos, sem mordaça. Imprensa capaz de derrubar chefes poderosos de Estado, como Nixon, nos Estados Unidos. Imprensa como a Folha de São Paulo, capaz de derrubar um ministro poderoso como Palocci.
         Não cabe à  imprensa provar ou julgar os atos de quem quer que seja. A prova cabe a quem acusa; o julgamento cabe à Justiça. A imprensa apenas divulga o que chegou ao seu conhecimento. Nem todas as informações que chegam ao conhecimento dela  são verdadeiras. Mas, como disse, não é outro seu papel, senão o de divulgar.
         Em relação a Palocci, ninguém é capaz de duvidar da sua capacidade, da sua competência. Afinal, não é todo mundo que consegue em apenas dois anos multiplicar o próprio patrimônio por vinte!
         Por outro lado, apesar da crise política que envolveu o governo Dilma, que lhe deu todo crédito; apesar do parecer do Procurador Geral do Estado, que não acatou as denúncias, por falta de fundamentação técnica, Palocci não pode e não deve jactar-se de um remoto procedimento ético de sua parte. Ele pode até ser inocentado futuramente pela Justiça. Esta nem sempre julga de acordo com a verdade absoluta. Tecnicamente é possível inocentar-se o culpado e condenar-se um inocente.
         Justiça mesmo, afinal de contas, reside na consciência de cada um.
         Cristo foi condenado à morte, mas todos temos consciência da sua inocência.
         Barrabás foi inocentado dos seus crimes, contudo todos sabem dos crimes por ele praticado.
         Assim, o maior juiz de Palocci é a consciência dele. Isto é, se ele tem alguma.O resto é bla-blá-blá.
E mais, que não se julgue Palocci apenas por sua aparência. A julgar pelas aparências, pessoalmente acho que ele é um cara de pau. Mas a ninguém é dado julgar ninguém apenas pelas aparências.
Agora, gostei mesmo foi da nova Ministra. Muito bonita!

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Também não gostei, presidentA

 Sílvio Caldas (jsc-2@uol.com.br)

         Aos poucos a presidentA Dilma vai imprimindo sua própria marca, sua maneira de ser. Quanto ao estilo, é mais positivo, a meu ver, que a escorregadia maneira do presidente a quem substitui se posicionar, embora haja um certo continuísmo no governo.

         A presidentA foi muito clara ao se pronunciar sobre o indigitado e tão badalado kit gay. “Vi e não gostei”. Curta e grossa, como certas coisas devem ser rebatidas.

         Ninguém de bom senso está necessariamente contra as preferências de cada um, sejam sexuais ou de qualquer outra natureza. Até porque preferência sexual é uma coisa muito pessoal, depende da natureza de cada um e ninguém pode ir contra a forma de ser de cada um/a. Agora, uma coisa é certa: é importante respeitar o entendimento, valores e escolhas do vizinho e vice-versa. Ninguém pode pretender que eu contrarie a minha natureza. Compreendo as preferências sexuais de cada um e pronto. Quero que respeitem as minhas.

         Por outro lado, chega a ser ridículo o puxassaquismo do marqueteiro que a título de enfatizar sua “campanha” chega a comentar a profundidade de penetração da língua da garota lésbica, ao beijar a coleguinha da hipotética escola. Acho que Dilma também não gostou do infeliz comentário do ridículo senhor.

         Gostei muito da sinceridade da presidentA em relação à questão. Contudo, gostaria de saber quem vai bancar as despesas que já foram feitas em relação à produção do referido kit. Sem falar na baboseira da cartilha do “Nós pode”. São milhões de reais que se esvaem do bolso do já combalido contribuinte brasileiro.

                 E afinal de contas, quando o Brasil vai realmente enfrentar a problemática da educação do seu povo?

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Palocci e a professora Amanda


Sílvio Caldas (jsc-2@uol.com.br)
         - O que eles têm em comum?

         - Ambos nasceram no Brasil. Só isso.

         De resto, são bem diferentes.

         Palocci, homem inteligente, de rara competência, é capaz de sozinho ganhar vinte milhões de reais em um ano de eleições. Depois, volta ao núcleo do poder, assume um ministério ainda mais influente que o do tempo do escândalo da Caixa Econômica Federal e volta a ser a grande eminência parda da Nação. Blindado, não tem satisfação a dar  da mágica que o transformou num dos milionários do país, a ninguém.

         Já a professorinha, não.

         Refiro-me à norte riograndense Amanda Gurgel, que notabilizou-se na internet graças ao seu brilhante e patético depoimento na nossa Assembléia Legislativa.

         Amanda começou seu depoimento apresentando o contracheque aos atônitos deputados. Apenas R$ 930,00 por mês.

         “Com esse salário os senhores não conseguiriam nem pagar a indumentária que usam para estar aqui” – começou entrando logo de sola, como se diz no jargão do futebol.

         O destino da professora é incerto e não sabido. Afinal, como se diz na gíria, ela se queimou, concluindo seu depoimento desaforando a classe política em geral : - “Eu falaria aos governantes para deixarem de usar essa máscara de pessoas sérias, honestas, e que tratassem os educadores como eles merecem”.

         Amanda é mais uma dessas heroínas anônimas, que honram a terra em que nasceram, mas que está fadada ao fracasso econômico-financeiro. Deus queira que não venha a ser demitida. Em tempos de golpe seria taxada de perigosa comunista. Como agora o próprio comunismo só existe em Cuba e em Macau, acho que irão taxá-la de doida. Deus queira que permaneça no emprego, com o mísero salário de R$ 930,00. Bem menos que um motorista de ônibus. Não que o motorista de ônibus não mereça o que ganha. Afinal de contas, ele conduz vidas humanas para o trabalho e para a escola. O problema é que Amanda também conduz vidas humanas para a vida a fora, como a maioria das educadoras que se empenham em fornecer elementos para que os alunos se apropriem das ferramentas necessárias para circularem em uma sociedade letrada. Deveria ser bem mais valorizada, portanto.

         No primeiro governo de Lula eu admirava muito o Palocci. Mas agora admiro muitíssimo mais a Amanda em nome de quem saúdo as professoras desse Estado. Palocci, este da forma como enriqueceu não merece mais a admiração de ninguém.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Agora nós pode


Silvio Caldas
(jsc-2@uol.com.br)
            Certa vez meu estimado e hoje finado professor Bento Ferreira de Carvalho descreveu, na informalidade, o então INPS como uma organização esculhambada, enquanto o jogo do bicho como uma esculhambação organizada. Explicou-me a tese e convenceu-me. Só que quando repassei a piada ao meu saudoso pai ele retrucou-me: como piada está boa, mas lembre-se de que a palavra esculhambação é uma palavra chula, não deve ser usada em certos ambientes etc.

            Na semana passada, em função do artigo que hoje escrevo, tive a curiosidade de consultar dois dicionários, e lá está a palavra esculhambação como uma palavra normal (um deles apenas destaca que se trata de um regionalismo e que significa um estado de desordem, de anarquia, de bagunça, de avacalhação, dentre outros significados. Portanto, meu pai hoje estaria superado.

            Superado fiquei eu também, ou melhor, estarrecido, ao ouvir e depois ler uma reportagem segundo a qual o Ministério da Educação e Cultura - MEC defende que aluno não precisa seguir algumas regras da gramática para falar de forma correta.

            Como exemplo, cita o livro publicado às expensas daquela instituição  intitulado “Por uma vida melhor”, aprovado para o ensino da Língua Portuguesa destinado a Educação de Jovens e Adultos -EJA de escolas públicas.

            A título de ilustração, no citado livro, às folhas 14 agora permite  a frase: “Os livro ilustrado mais interessante estão emprestado”.

            A orientação aos alunos continua na página seguinte: “Mas eu posso falar ‘os livro’?”. E a resposta dos autores: “Claro que pode. Mas, com uma ressalva, dependendo da situação a pessoa corre o risco de ser vítima de preconceito linguístico”.

            (I)moral da estória: pelo que estou entendendo, se um professor de Português, agora, fizer alguma observação ao aluno no sentido de que está falando errado ele poderá vir a ser processado por dano moral, já que está sendo linguisticamente preconceituoso.

            Mas agora, a confusão: o MEC informou ainda que a norma culta da língua portuguesa será sempre a exigida nas provas e avaliações. Agora, durma-se com um barulho desses.

            O grande filósofo nacional Chacrinha tinha razão quando dizia: “Eu vim para confundir e não para explicar”.

            Portanto, agora sim, estamos todos confundidos. Falar errado, agora pooooode. Escrever errado, também pooooode. Mas se escrever errado na avaliação (vestibular, por exemplo, aí leva pau).

            É ou não e uma esculhambação?

            Enfim, matemática num sou bam, bam, bam  naum, mas português eu agaranto.

quarta-feira, 4 de maio de 2011

A volta do boêmio


Sílvio Caldas
(jsc-2@uol.com.br)

            Não faço referência ao famoso samba-canção eternizado na voz do velho Nelson Gonçalves.
            Também aviso de logo que me considero um boêmio, pois curto a boêmia. Refiro-me à boa boêmia, a que pratico com meus amigos e que meu saudoso pai me ensinou. São pessoas de espírito alegre, que gostam de música, poesia e de jogar (boa) conversa fora. Pode ser em um bar ou em uma reunião domingueira, de preferência em lugares sossegados.
            Mas a palavra tem também seu lado pouco lisonjeiro, ligando por vezes seu sentido a pessoas irresponsáveis, hedonistas, que saem pela vida a fora e que por vezes não tendo pátria nem profissão digna, praticam atos à margem das boas normas de conduta, quer por instinto de sobrevivência, quer por egoísmo, em favor próprio e/ou do grupo a que pertence.
            O cristianismo nos ensina que devemos dar a outra face, perdoar até nossos próprios inimigos ou devedores. Entretanto, Cristo expulsou com veemência os vendilhões do templo.
            Deduzo que podemos e devemos perdoar aqueles que erram, mas jamais estimulá-los a repetir erros antigos. E mais, é preciso que certos erros, além de reprovados, sejam penalizados pela sociedade. Por exemplo, se alguém alcançou o patrimônio público, o mínimo que se espera é que o patrimônio seja ressarcido.
            Em 2.005 Delúbio confessou, apesar do eufemismo (dinheiro não contabilizado) que praticou atos financeiros pouco recomendáveis. O processo hiberna no Supremo até hoje (tomara que não prescreva). Mas ainda que prescreva, a prescrição não transforma o ato praticado num ato de moral. Apenas ele deixa praticamente de existir no mundo jurídico, mas não se apaga na memória da sociedade.
            Por enquanto, pelo menos, não se pode nem falar em perdão, expresso ou tácito, já que a ação praticada pelo boêmio Delúbio ainda acha-se “sub-judice”.
            Mas nosso herói pediu seu retorno ao partido político a que pertencia, de forma “emocionante”, isto é, aquele mesmo cinismo que expôs ao usar o eufemismo “dinheiro não contabilizado”.
            O partido aceitou Delúbio de volta. Ao menos não esperou pelo julgamento do Supremo. O presidente do partido, alegando motivo de doença, renunciou ao resto do mandato.
            Ou seja, continua tudo como antes, no quartel de Abrantes.

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Uma vida ao violão


Sílvio Caldas
jsc-2@uol.com.br
             Conheço Henrique Annes desde que ele tinha apenas 12 anos de idade, fins da década de cinquenta. Na ocasião a ele fomos apresentados pelo grande violonista já falecido Wilson Sandes responsável por apresentar a criança ao instrumento que abraçaria pela vida a fora.
            De lá para cá Henrique só evoluiu, no tamanho e no talento. Aos quatorze anos já era uma violonista de chamar atenção, e assim que pode ingressou no conservatório pernambucano de música, sem abandonar, entretanto, a roda de amigos boêmios que tocavam por pura diversão. Uma criança paparicada pelos adultos, tendo em vista além dos clássicos, a que já se iniciara, ser também um dileto apreciador da música popular brasileira (leiam-se chorinhos, principalmente).
            Henrique cresceu, ganhou o mundo, ficou famoso, mas jamais cortou suas raízes com Pernambuco. Estudou toda a obra do grande Alfredo Medeiros, autor de Choro Triste, gravou em parceria com Canhoto da Paraíba, além de ele próprio ser autor de vários chorinhos.
            Assim, para Henrique, mesmo na intimidade, tanto faz estar tocando um clássico universal, Pixinguinha, ou Jacob ou mesmo músicas brasileiras de menor repercussão. O importante é que a música lhe desperte a atenção.
            Na semana passada recebo um telefonema de Henrique. Fazia seguramente uns 20 anos que não entrávamos em contato. O último ocorreu aqui em Natal, quando foi entrevistado no programa Memória Viva, pelo saudoso Carlinhos Lira. Terminado o programa, continuaram os dois ali mesmo no estúdio, trocando figurinhas. Chegou a ponto de o tímido Carlinhos pegar o violão de Henrique e dedilhar algumas músicas. Ainda recordo como se fosse hoje.
            - Carlinhos, você toca profissionalmente?
            - Não amigo, aliás, nem sei porque tive a ousadia de pegar seu violão.
            - Ora, você ainda tem tempo de se dedicar ao instrumento, pois talento não lhe falta.
            Eis parte do diálogo entre Carlinhos e Henrique. Tudo presenciado por mim.
            Mas Henrique não é apenas esse instrumentista de fama mundial. Trata-se de uma excelente figura humana e que estará nos visitando quando aqui se apresentará no Teatro Alberto Maranhão. Vem a convite do grande violonista pernambucano João Raione professor da Escola de Música da UFRN, de quem foi professor. A data está a ser marcada.
            Aos que gostam de música clássica e de chorinho brasileiro, o aviso. Não percam a oportunidade de conhecer Henrique Annes ao vivo. Realmente vale a pena.

sexta-feira, 22 de abril de 2011

A loucura de Wellington e o trem bola


Sílvio Caldas
(jsc-2@uol.com.br)

            Os dois assuntos não se interligam, mas pertencem à memória da semana que passou.
            Quanto a Wellington, era tão louco que planejou adredemente o próprio suicídio. Normalmente o suicida comete o ato de inopino. Dificilmente se planeja a própria morte com a meticulosidade do nosso “serial killer”. Quanto a escolher salas de aulas de adolescentes do colégio onde estudou, já assistimos a esse filme antes, exportado dos Estados Unidos.
            Achei Wellington parecido com Bin Laden, quando assisti seu patético discurso no vídeo (acho, pela voz arrastada, que estava drogado). Só com uma pequena diferença: Bin Laden não se suicida nunca. Sempre manda os outros...
            A Nação ficou estarrecida. Até a durona Presidenta chorou. Não era pra menos. Afinal, nunca antes nesse país se viu tanta miséria humana. São os mais novos mártires brasileiros, que até hoje não sabem porque tiveram que morrer.
            Não adianta os milagreiros de última hora ficarem a se debater em soluções milagrosas ou mirabolantes, tais como o que fazer para a segurança das escolas ou se é preciso promover um novo plebiscito para consultar o povo sobre a proibição ou não do uso de armas. O buraco é bem mais embaixo e nada tem a ver, objetivamente, com a atitude do maluco. O maluco era maluco e pronto. Fora na Rússia, ou nos Estados Unidos, ou na Suíça, o fenômeno teria acontecido da forma que aconteceu. Nossos problemas são de outra natureza.
            Na mesma semana estamos diante de um novo problema. Refiro-me ao trem bala. Um gozador, amigo meu, está chamando de trem bola, dada a vultosa quantia que será espargida em função da sua criação, já que o Senado aprovou a milionária medida provisória, que de provisória, aliás, não tem nadica de nada. Excelente o discurso da senadora Kátia Abreu, transmitido ao vivo pela TV Senado. Quantas obras bem mais importantes e de real necessidade visando a infra-estrutura nacional poderiam ser realizadas no lugar do trem bola ou bala, sei lá. Aliás, muito bom também o pronunciamento do nosso senador José Agripino.
            De arrepiar, igualmente, a fala do senador Roberto Requião, denunciando o “currículo” de um dos planejadores do já famoso trem. E olha que o senador é do PMDB.
            Confesso que nunca fui muito com a cara do então presidente Itamar, mas falando francamente, estou apreciando com muita simpatia a sua atuação como senador. O Itamar, realmente, é muito franco.

terça-feira, 12 de abril de 2011

Oposição, um bem necessário


 Sílvio Caldas
(jsc-2@uol.com.br)
         Até que enfim, parece que a oposição vai se organizar para valer, pelo menos no Senado Federal, graças à inconteste liderança de Aécio Neves.
         Quarta-feira da semana passada ele deu mostras da sua capacidade e liderança política. Ainda no vigor de sua relativa juventude, permaneceu dialogando e debatendo com os colegas de Senado durante mais de cinco horas, sem arredar o pé da tribuna.
         Quer queira quer não, impossível de dissociar sua figura em relação à figura do avô, o saudoso Tancredo Neves. Mas Aécio tem estilo próprio, tendo herdado do avô o profissionalismo e aquela simpatia natural.
         O debate foi de alto nível e mais competente ainda foi o discurso do jovem orador. Respeitou o governo, proferiu um discurso com argumentos bem fundamentados, reconhecendo-lhe as qualidades e dizendo verdades com elegância e firmeza.
         Embora a política seja uma ciência, mas é também uma arte. Aliás, em relação aos políticos, ela é bem mais arte do que ciência. Prova disso é o fenômeno Lula. Aliás, não é o mesmo caso de Dilma, que, não tendo a liderança e competência naturais de Lula, entretanto exerce a política muito mais como uma dedicada e estudiosa técnica.
         Apesar dos pesares, acho que a presidenta vai muito bem, pelo menos até agora, nesses três meses de governo. Discreta, dotada de personalidade marcante, preferiu divergir dos rumos de Lula em relação ao estilo populista e assistencialista dele. Acho que por isso mesmo está agradando ou, pelo menos, não está desagradando tanto.
         Sem dúvida, o Brasil está vivendo um grande momento político e o futuro nos reserva melhores rumos, com uma oposição responsável e o governo, por isso mesmo, mais atento aos novos caminhos.
         Lula, a meu ver, já cumpriu o papel que tinha que cumprir nessa transição para uma verdadeira democracia e espero que ele passe a fazer o que mais gosta, que é usar o palanque. Está com a vida feita, o futuro materialmente garantido e pelo visto vai ganhar muito dinheiro fazendo palestras pelas universidades do planeta.
         Quanto a Dilma, graças a sua forte personalidade, espera-se que ela se saia bem em relação aos aloprados. Não entendi a nomeação de Genuíno para assessorar o Ministério da Defesa, mas... ninguém é perfeito, nem mesmo ela. Como dizem que o mal por si se destrói, acho que será apenas uma questão de tempo.
         Quanto a Aécio, não é difícil de prever o brilhante e futuro estadista que tem à sua frente, pois como poucos, sabe aliar a política como ciência e como arte.

sexta-feira, 1 de abril de 2011

DEVO ESTAR ERRADO

Sílvio Caldas
            Não vou discutir, pois neste mundo de meu Deus eu não sei mais nem o que dizer.
         De acordo com a Portaria 48 da Previdência Social, o preso de justiça passa agora a ter o direito a uma pensão de R$ 810,00 mensais. E se vier a falecer na prisão a família passa a receber pensão por morte (ou seja, vitalícia).
         Por essa lógica é bem melhor estar preso do que trabalhar o mês inteiro para ganhar o salário mínimo, que é de apenas R$ 545,00.
         Bem sei que alguém vai me criticar, por estar “contra” os familiares do presidiário.
Mas eu não estou contra ninguém. Apenas gostaria de entender o baixo salário dos professores em geral; o da própria polícia em geral, dentre outros que se qualificam para prestar serviços públicos de qualidade e atualmente são avaliados sistematicamente, tendo como parâmetro básico o investimento em formação continuada e desempenho ( caso concreto dos professores da Rede Municipal de Natal).
         Aliás, não dá pra entender também como Fernandinho Beira Mar consegue, através de uma prisão chamada de segurança máxima, continuar dirigindo seus “negócios”.
         Também gostaria de entender a lógica do Estatuto da Criança e do Adolescente quando temos flagrado crianças de apenas 12 anos liderando quadrilhas e adolescentes assaltando e matando adoidado praticamente na impunidade, em nome de uma refinada e proclamada legislação que os protege, mas nem asseguram os seus direitos básicos e deixa a ver navios os homens que ganham o “pão de cada dia com o suor de seus rostos”!
         O crime cada vez mais se sofistica, inclusive se atualizando e se apoiando nas benesses que o mundo virtual está a propiciar.
         Onde os bandidos conseguem tantas bananas de dinamite para assaltar os caixas eletrônicos?
         A coisa chegou a um ponto que aqui e acolá estamos vendo os próprios pais denunciarem os filhos criminosos, entregando-os à Justiça, por se confessarem impotentes em impor limites e educá-los.
         Não sei o que se passa em outros países. Mas se a lógica for essa, as profecias que anunciam o fim do mundo para 2.014 estão fazendo sentido. Se cuidem.