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terça-feira, 30 de maio de 2017

Últimos dias de agonia



Leonardo Sodré
Jornalista e escritor

Completei 60 anos no último dia 21 de maio. Cheguei nesta idade consciente de que deveria ser mais condescendente com as opiniões que não batem com as minhas e, como trabalho muitas vezes em equipes de marketing político, reforcei na minha mente uma máxima que me ensinaram há muitos anos: “política é a arte da convivência entre os contrários”.

"Deve-se ter a total clareza que corrupção não é política e sim politicagem" escreveu Emily Sabrina Machado, acadêmica do 3° ano do curso de Administração Pública, modalidade à distância, pela UEM, publicado no site http://www.informativo.uem.br.

Mas, o que nós vemos nesses últimos dias agoniados de um período político que parece não ter fim?

De um lado vemos um candidato com propostas e que busca a alternância de poder. Um candidato de oposição. Do outro uma candidata que busca a mesma postura de oposição prometendo o que vai fazer num eventual segundo mandato. O que deixou de fazer no primeiro. Aliás, suas propostas passam ao largo de suas acusações ao candidato de oposição, enquanto seus ataques lembram as três primeiras campanhas derrotadas do seu antecessor, Lula da Silva, que somente ganhou na quarta tentativa quando assumiu a postura do ‘paz e amor’ e apresentou propostas para o Brasil.

Qualquer marqueteiro político sabe que campanhas são feitas de propostas. O candidato de oposição entendeu isso muito bem, tanto que nos debates mantém postura tranquila enquanto o marketing da situação explora defeitos fabricados, expõe montagens, agride deslavadamente o candidato da oposição. Nestes últimos dias de agonia as redes sociais, principalmente o famoso ‘Facebook’, estão lotadas dessa forma de fazer política, como era feito nas primeiras décadas da República. Nada de propostas! Tudo de agressões.

Mas é possível entender esse desespero da situação. Afinal não há mais o que dizer, o que prometer, o que se defender. Como seria possível montar uma defesa palpável para os casos mais conhecidos, dos muitos escândalos do governo petista? Imagino o pensamento do marqueteiro. Como seria possível mudar de agressões para propostas nos últimos dias de agonia? Deve se angustiar o marqueteiro.

A frase de Emily, lá em cima, diz tudo e deixa refletir que politicagem é também aparelhamento do Estado pela simples ânsia de perpetuação no poder. E, aparelhamento se faz com corrupção. E aí, a arte de entendimento pelos contrários passa a ser a compra da consciência dos contrários. O ‘Petrolão’ e o ‘Mensalão’ são os dois últimos e maiores exemplos desse tipo de fazer política.

Ninguém pode dizer que se o candidato da oposição ganhar, fará um bom governo. Mas, sem dúvida, qualquer pessoa esclarecida sabe que se a situação se mantiver a Nação caminha para um governo totalitário; uma ditadura que caminhará para o isolamento em todas as áreas. A falta de crescimento econômico já evidencia essa realidade. De resto, resta aguardar os últimos dias de agonia para ver se teremos alguma esperança na alternância de poder, principal qualidade da democracia, ou se continuaremos a contabilizar um Estado aparelhado e ansioso de poder.

21 de outubro 2014

quinta-feira, 16 de julho de 2015

Fliper


Leonardo Sodré
Jornalista

Fliper não é um golfinho como o nome sugere. É um cachorro parecido com um “Cocker Spaniel” inglês. Sua mãe deve ter sido da raça, mas o pai é seguramente um VLPO (Vira-lata Puro de Origem). Fliper é tranqüilo e todo o dia passeia com o seu dono, o ex-procurador do Estado Paulo Barra, pelas imediações da Matriz de Santa Teresinha, até por volta das 18h30, quando então se instala ao lado do seu dono na cadeira mais voltada para o sul, no Bar Azulão, enquanto Paulo toma uma ou duas cervejas holandesas, sem açúcar.

Nada altera Fliper. Nem os carinhos dos freqüentadores do bar mais charmoso de Natal. Apenas uma coisa lhe irrita: o baixo tom dos motores a diesel dos alternativos que ainda teimam em passar pela avenida Afonso Pena, embora a avenida Rodrigues Alves, muito mais larga, esteja ao longo de toda ela. Coisas do poder público que a maioria dos mortais nunca vai entender. Talvez Fliper entenda, porque ele não pode ver um alternativo que perde completamente a compostura canina, que exibe durante a maior parte do dia, e mostra os dentes querendo morder, matar, trucidar. Estica a corda e nem o seu dono, Paulo Barra, consegue conter seus latidos. Ele não gosta de alternativos e deixa isso bem claro.

O cenário de hoje, no Azulão, estava parecido com os dos outros dias da semana que começou na terça-feira por causa do feriadão. Na mesa ao sul, o engenheiro Manuel da Costa Neto, doutor Neto e o advogado Paulo Barra, devidamente acompanhado de Fliper. Na outra, o músico e funcionário público Mário Henrique de Faria, o bancário aposentado José Carlos Menezes e eu.

O conversa era boa e estávamos apenas na metade da solução dos problemas brasileiros, quando Mário Henrique teve uma dúvida legal sobre matrimônio e propôs:

- Paulo Barra, deixe Fliper com doutor Neto e venha para nossa mesa tirar uma dúvida jurídica que pode mudar a minha vida. Sou quase um ex-solteiro! Dramatizou para atrair o interesse do advogado.
Paulo, que adora conversar e entende muito de direito, olhou para doutor Neto, que aquiesceu de pronto.

- Pode deixar o bichinho comigo que eu tomo conta. Disse isso e foi logo enrolando a coleira no pulso esquerdo, já que o direito estava ocupado com uma dose de “Black”, temperada com duas pedras e meia de gelo.

Enquanto Paulo Barra chegava a nossa mesa, o imbróglio canino aconteceu. Pára, na esquina da avenida Afonso Pena com a rua Apodi, um alternativo com um motorista enfezado (qual motorista de alternativo não é enfezado?) que começa a buzinar e a acelerar para forçar a saída de um carro mais lento. Fliper, acostumado com a coleira de Paulo Barra, sempre atenta e esticada na metragem certa, sentiu que o comando de doutor Neto era mais flexível, amigo, por assim dizer, e fez carreira para tomar satisfações com o motorista, levando a reboque o seu guardião.

A cena – por assim dizer cinematográfica -, ficará na história da boemia de Natal. Imagine um cachorrinho pequeno, de uns 12 quilos, puxando um homem de quase uma arrouba ônibus adentro. Ainda vi que o destino do alternativo, pelos dizeres da porta, era a Ribeira. E lá se foi doutor Neto e Fliper, que mordia o motorista e o cobrador, avenida Afonso Pena abaixo com destino ao ex-bairro boêmio.

A dose de Dr. Neto, pela metade, ficou abandonada na mesa. Paulo Barra e Mário Henrique, que conversavam sobre o novo casamento do último, nem notaram.

Aí, José Carlos Menezes, que não deixa barato nem jogo de porrinha, disse ao dono do bar:

- Dequinha, doutor Neto foi tomar uma com o cachorro de Paulo Barra lá na Ribeira e voltam já. Segure a conta...

Eu juro!

terça-feira, 21 de outubro de 2014

Últimos dias de agonia

Leonardo Sodré
Jornalista e escritor

Completei 60 anos no último dia 21 de maio. Cheguei nesta idade consciente de que deveria ser mais condescendente com as opiniões que não batem com a minha e, como trabalho muitas vezes em equipes de marketing político, reforcei na minha mente uma máxima que me ensinaram há muitos anos: “política é a arte da convivência entre os contrários”.

"Deve-se ter a total clareza que corrupção não é política e sim politicagem" escreveu Emily Sabrina Machado, acadêmica do 3° ano do curso de Administração Pública, modalidade à distância, pela UEM, publicado no site http://www.informativo.uem.br.

Mas, o que nós vemos nesses últimos de agoniados de um período político que parece não ter fim?

De um lado vemos um candidato com propostas e que busca a alternância de poder. Um candidato de oposição. Do outro uma candidata que busca a mesma postura de oposição prometendo o que vai fazer num eventual segundo mandato. O que deixou de fazer no primeiro. Aliás, suas propostas passam ao largo de suas acusações ao candidato de oposição, enquanto seus ataques lembram as três primeiras campanhas derrotadas do seu antecessor, Lula da Silva, que somente ganhou na quarta tentativa quando assumiu a postura do ‘paz e amor’ e apresentou propostas para o Brasil.

Qualquer marqueteiro político sabe que campanhas são feitas de propostas. O candidato de oposição entendeu isso muito bem, tanto que nos debates mantém postura tranquila enquanto o marketing da situação explora defeitos fabricados, expõe montagens, agride deslavadamente o candidato da oposição. Nestes últimos dias de agonia as redes sociais, principalmente o famoso ‘Facebook’ estão lotadas dessa forma de fazer política, como era feito nas primeiras décadas da República. Nada de propostas! Tudo de agressões.

Mas é possível entender esse desespero da situação. Afinal não há mais o que dizer, o que prometer, o que se defender. Como seria possível montar uma defesa palpável para os casos mais conhecidos, dos muitos escândalos do governo petista? Imagino o pensamento do marqueteiro. Como seria possível mudar de agressões para propostas nos últimos dias de agonia? Deve se angustiar o marqueteiro.

A frase Emily, lá em cima, diz tudo e deixa refletir que politicagem é também aparelhamento do Estado pela simples ânsia de perpetuação no poder. E, aparelhamento se faz com corrupção e aí a arte de entendimento pelos contrários passa a ser a compra da consciência dos contrários. O ‘Petrolão’ e o ‘Mensalão’ são os dois últimos e maiores exemplos desse tipo de fazer política.

Ninguém pode dizer que se o candidato da oposição ganhar, fará um bom governo. Mas, sem dúvida, qualquer pessoa esclarecida sabe que se a situação se mantiver a Nação caminha para um governo totalitário; uma ditadura que caminhará para o isolamento em todas as áreas. A falta de crescimento econômico já evidencia essa realidade. De resto, resta aguardar os últimos dias de agonia para ver se teremos alguma esperança na alternância de poder, principal qualidade da democracia, ou se continuaremos a contabilizar um Estado aparelhado e ansioso de poder.

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

“Bilhete para o meu amor”

Por Leonardo Sodré
Jornalista e escritor

Na quarta-feira, 1º de outubro de 2014 o prefeito de uma cidade da Grande Natal, onde presto assessoria de imprensa, realizou uma carreata com os candidatos da sua coligação pelas ruas da cidade, até o final de uma avenida, onde realizou um comício.

Saí na frente e fiquei esperando a passagem dos carros para fotografar detalhes da atividade política que reúne os mais diversos tipos de pessoas. Os que adoram serem fotografados, os que detestam, os que vão para beber, os que vão beber muito! Os que dançam, os que aproveitam para pedir uma ajudinha. 

Reúne também ambulantes diversos e a cerveja mais vendida é a pavorosa Schin, que perde de longe para as muitas latinhas de cachaça 51 que são consumidas ao longo do cortejo, com músicas altíssimas e fogos, muitos fogos, em cada esquina.

Já vi de tudo nas muitas campanhas em que trabalhei. Tipos engraçados que estão ali para se divertir. Puxadores de saco que estão lá para mostrar aos políticos a sua face. Ei! Eu estou aqui! Parecem dizer...

Mas, nunca tinha me deparado com uma mulher apaixonada e desesperada. Experiência nova que passei quando cheguei perto do palanque improvisado numa picape e começar a anotar o discurso do prefeito para depois produzir “release” para a mídia. A mulher, com lágrimas nos olhos, aproximou-se e disse:

- Meu senhor, eu estou desesperada. Me empreste esta caneta e um pedaço de papel para eu escrever um bilhete para o meu amor!

- Minha senhora... Tentei argumentar, pensando que todo mundo precisa de uma caneta, mas quase ninguém carrega uma.

- É um caso de vida ou morte, eu juro! Disse com abundantes lágrimas que agora escorriam rosto abaixo.

Me rendi. Arranquei um pedaço do bloco de anotações e entreguei minha caneta junto, rogando para que ela fosse mais do que rápida. Antes de escrever apontou com o beiço inferior:

- Ele tá bem ali, vai ser ligeiro...

Ela não demorou muito enquanto escrevia e eu exercitava guardar na mente as palavras do prefeito. Deu certo e quando ela terminou me agradeceu e saiu em disparada para entregar seu bilhete apaixonado. Fui cobrir o evento e me esqueci da mulher. Na volta, quando já estava chegando ao meu carro me deparo novamente com a apaixonada. Agora os olhos dela brilhavam.

- Meu senhor, sua caneta salvou meu namoro, muito obrigada!

Sorrindo, eu já estava abrindo a porta do carro quando a chamei. Ela, distante poucos passos voltou. Estava até mais nova, radiante.

- Diga meu senhor...

- Fique com esta caneta. Ela pode ser muito poderosa...

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

O que esperar de um grande amor?

Por Leonardo Sodré
Jornalista e escritor

Sem nenhum sucesso em conseguir agradar plenamente a mulher que amo, sou, entretanto, um observador das cenas urbanas, praiana etc. Quando escrevo ‘plenamente’ tento dizer que nunca acertei em agradar no quesito máximo, ou seja, cem por cento. Da mesma forma, também não sinto agradado ‘plenamente’ e isso serve para os dois, cuja via de relação é de duas mãos.

Afora meus rompantes por nunca ter tido a frieza de controlar os sentimentos, procuro compreender e entender a forma dela ser; seus melindres, suas aspirações, manias, cacoetes etc. Ela também me vê da mesma forma. Sou absolutamente adepto da pontualidade e não me incomodo nem um pouco quando ela pergunta:

- Que horas você vem? Por exemplo.

Mas, se eu fizer uma pergunta dessas o Céu escurece, o mundo treme de medo e a resposta já está na ‘ponta da língua’, em tom nada amistoso:

- Vou quando der! Sou muito ocupada! Responde.

Mas, garanto e me ressinto: este tipo de resposta está reservada apenas para mim. Para outros, menos chegados, a resposta é suave. Estou dando apenas um exemplo. Ela provavelmente tem muito mais para dar de mim guardado no alforje de seus ressentimentos. É natural. E o que pode unir pessoas às vezes tão diferentes? Somente o amor?

Acho que não. Na História da relação contamos com uma situação de cumplicidade tão forte que faz com que, aos poucos, as diferenças sejam aplacadas, porque jamais serão sanadas. Não é toa que muita gente diz que quando se troca de parceiro a mudança está apenas no CPF, porque não existem pessoas perfeitas, que se encaixem direitinho no jeito que queremos que elas sejam.

A escritora britânica Taylor Caldwell, autora de ‘Médico de Homens e de Almas’, sobre a vida do apóstolo Lucas e do ‘Grande Amigo de Deus’, sobre a vida de São Paulo, diz no último livro que Paulo, que também era um fabricante de tendas, desejaria ter passado a vida as fabricando ao invés de exercitar tanto a mente e a oração para divulgar a ‘Boa Nova’ de Jesus Cristo. Paulo discursa, exortava e escrevia muito. Será que por isso ele era tão irascível, como comprovam seus biógrafos?

Observo que pessoas ligadas às artes e ao pensamento às vezes são bem mais diferentes das pessoas comuns. Será que se eu não escrevesse livros, reportagens, pintasse quadros e não tomasse nem uma dose de rum; talvez sendo um fabricante de tendas, eu agradasse mais o meu amor?

Desconfio que sim. Vejo nas pessoas ligadas as artes um semblante de inquietação. Eu sou inquieto, mordaz e, às vezes, ferino nas observações. Assumo como defeitos incontroláveis.

Entrementes quando o amor explode dentro do coração aceitamos incontinente nosso parceiro ou parceira com tanta alegria e entusiasmo que não percebemos que estamos dizendo ‘sim’ ao seu jeito de ser, de viver. Aos seus vícios seus murmúrios. Quando a fumaça da paixão se esvai e o amor amadurece, constroem-se castelos, formam-se vidas simbióticas. Nada é somente mais de um. Depois, como por mágica um ou outra acolá ou ali, resolve que o ‘outro’ tem que se adequar ao jeito desejado de um ou de outro. Chega a amargura... C’est La Vie. 

sábado, 23 de agosto de 2014

Integridade: Uma obrigação

Leonardo Sodré
Jornalista e escritor

Outro dia recebi telefonema de um político sem mandato. Nunca teve um, mas chegou perto em uma ocasião. Ele pretendia me contratar, como escritor, para lançar um livro cujo título ele já havia criado: “Os políticos mais íntegros do Rio Grande do Norte”.

Ele é uma pessoa agradável, inteligente, perspicaz, mas eternamente simplório. Devia ter tomado uns dois uísques antes de ligar para colocar seu plano de fazer um livro com tal título. Da mesma forma, fui agradável com ele para recusar sua proposta de trabalho.

Parti de duas verdades inabaláveis. A primeira, de que não existe mensuração para julgar integridade. Ou se é integro ou não. Não existe o mais ou menos íntegro nem se pode medir esse valor numa escala. A segunda a de que integridade é obrigação do ser humano, seja ele um político ou não.

Ontem me encontrei com ele na rua. Nem me lembrava mais do assunto, mas ele falou sobre o projeto que morreu antes de ser começado. E foi franco, dizendo que havia pensando muito e que eu tinha lhe aberto os olhos. Tentou dizer, do seu jeito, que realmente a integridade era uma obrigação e que isso poderia ter sido sua bandeira enquanto concorrente a mandatos por diversas vezes.

Não confessou falta de integridade. Pareceu entender, nas proximidades dos setenta anos, que o atributo poderá fazer a diferença nas disputas, talvez em um futuro longínquo, considerando que atualmente vale tudo para se olhar para o próprio umbigo com orgulho de vencedor.

sábado, 16 de agosto de 2014

O olhar que avisa

Leonardo Sodré
Jornalista e escritor

É inegável que na maioria das vezes a gente vê e não enxerga. Não percebemos as particularidades que vemos. Não sentimos a profundidade da luz ou da escuridão à nossa frente. O nosso olhar é vital e como tal tende a ser profundo, se quisermos sair da apatia das milhares de imagens que vemos todos os dias.

Por isso é tão bom olharmos pela janela do carro enquanto trafegamos. Nas viagens podemos enxergar coisas bonitas e boas e também coisa feias e negativas. O olhar pode ser a mágica do dia; pode nos levar ao bom humor ou não.

Mas, nosso olhar brilha diante das coisas boas, das coisas que emocionam.

É a luta solitária dos nossos olhos para que o nosso coração se renda ao otimismo e a vontade de vencer e ser feliz. E é por isso que ele fala para outros nos dizerem: “Como você gostou! Seus olhos brilham...”

Uma vez li um texto de um cientista que garantia que alguns craques do futebol, como Pelé, por exemplo, raciocinavam cerca de dois segundos antes dos outros jogadores. Obviamente a ligação desse raciocínio vem de um olhar que avisa, um olhar de rapina, tal qual uma águia.

Convencido que a mansidão é vital para uma vida boa, estou de disposto a perceber melhor o meu olhar. Quero ver e ser avisado por ele, assim como os grandes pintores e fotógrafos, porque o olhar está intimamente ligado a nossa vontade de perceber, de enxergar e separar o bem que se vê do mal que não queremos enxergar para o nosso coração.

sábado, 9 de agosto de 2014

Control “ser”; control “ver”

Leonardo Sodré
Jornalista e escritor

Pródiga em receber lançamentos de livros quase que diariamente, Natal vem sendo contemplada com obras excelentes de autores locais. Algumas memorialistas, que resgatam em vários aspectos fatos vividos, muitos desconhecidos de leitores curiosos, quem nem, ou, biografias de figuras ilustres, algumas conhecidas e outras, nem tanto, e muitos livros de poemas. Muitos!

Como tem poeta em cada esquina desta quase metrópole!

Entrementes, também recebe obras que também têm seu valor pelo trabalho de pesquisa, mas que são meros e exaustivos atos de copiar e colar da Internet, nos computadores pessoais. As conhecidas dedadas no “Ctrl V” e “Ctrl C”, depois impostas nas laudas do “Word”, e que aqui apelidei no título do “ser”, o colante, e o “ver”, do ansioso leitor, que depois de tantos goles do proverbial uísque do lançamento da obra não correrá o risco de esquecer-se de decodificá-la e até decorar algumas passagens, para, no momento social oportuno, mostrar todo o seu conhecimento da imperdível leitura. Que seja.

Até aí, tudo bem, considerando o trabalho de prospecção do intelectual, mesmo com a falta da criatividade e da originalidade. O que não está bem nesse tipo de livro é a falta da citação da fonte e a assinatura da obra apenas como “autor”, quando na verdade deveria ser de “organizador” como faz bem a ética literária de todo livro que não lhe pertence verdadeiramente – cito, como exemplo, a antologia -, citando, incólume, as fontes do exaustivo e operativo “copiar” e “colar”.

“Autores” que primam por essa prática e alguns nem fazem uma revisão cuidadosa dos textos, poderiam passar para a História de Natal como pesquisadores ou, até mesmo, memorialistas se citassem suas fontes. Mas, enquanto a vaidade se sobrepõe a humildade – como arde a fogueira das vaidades! – passam ao largo de sorrisos críticos. Sorrisos de leitores que teimam em não vê-los em suas próprias “obras”, e julgam que elas estão teimando em inclinar-se mais para o “ver” de aparecer socialmente do que para o “ser” verdadeiro de quem quer contribuir com a cultura da terra de Poti.

sábado, 2 de agosto de 2014

Promessas de final de ano

Leonardo Sodré
Jornalista e escritor

Aos 58 anos chego cético às festas natalinas. Nada que perturbe minha fé em Jesus Cristo, mas chego cético porque enquanto criança vivia o Natal como um momento mágico. Lembro-me que aos seis anos, quando nossa família morava na Rua Manoel Dantas, em Petrópolis, numa manhã de Natal, curtindo os meus brinquedos, frutos da visita de Papai Noel – eu ainda acreditava, conversei com um menino que chegou com olhar pidão no nosso portão.

- O que você ganhou de Papai Noel? Perguntei.

- Nada... Disse o garoto, com olhar triste, fixamente mirando o meu principal presente: um de Jeep de plástico vermelho, enorme, que acendia até as luzes.

Depois que o menino foi embora inquiri papai e mamãe sobre o fato daquele pobre garoto não ter tido a visita do “bom” velhinho. Papai e mamãe me enrolaram e nunca deram uma resposta satisfatória. Esse fato nunca saiu da minha cabeça e aos poucos fui percebendo que o bom velhinho era mesmo uma conta bancária com saldo suficiente para comprar presentes.

Fui crescendo e percebendo que o relacionamento das pessoas deveria ser como nas vésperas de Natal. Escrevi sobre isso até ficar completamente decepcionado com a realidade de que todo mundo é bonzinho, perdoa, é perdoado e deseja tudo de bom apenas na festa que antecede a data de nascimento de Jesus. O restante dos dias não condiz com a inegável presença de
Cristo Salvador em nossas vidas.

Ao longo dos anos tenho participado de festas natalinas. As mesmas comidas, crianças que ainda acreditam em Papai Noel, espumantes e muita gente que eu somente vejo uma vez por ano. Tudo igual. Abraços, promessas, “a gente se vê” e por aí vai. E, no outro dia, durante o almoça com as regalias do “resto de ontem”, fico a imaginar, na outra semana a festa do Ano Novo. E haja promessas!

No dia 02 de janeiro tudo volta a ser como antes e somente no final do ano vou voltar a me confraternizar, novamente, com pessoas que nunca vejo, exceto meus amores cotidianos.

Uma promessa eu cumpri: não como panetone de jeito nenhum!

sábado, 26 de julho de 2014

Escravo da alegria

Leonardo Sodré
Jornalista e escritor

Chama atenção nesses dias de muitas notícias ruins, de trânsito incomum onde todos reclamam da enorme quantidade de carros, embora todos precisem deles porque transporte público de qualidade na capital e na Grande Natal passa do imaginário para o sonho. Ou seria pesadelo?

Confesso-me escravo da alegria.

Diferentemente de muitas pessoas que conheço e algumas que convivo, não sei o que é acordar de mau humor, por exemplo. Enquanto escravo da alegria, não sei o que é o aborrecimento ou o pessimismo constante. Claro, que vez em quando, me entristeço e muitas vezes me aborreço. Mas, tais sentimentos passam tão rapidamente que não existe tempo e ou espaço para mágoas.

Um dia escrevi sobre o bom dia, a boa tarde e a boa noite... Cumprimentos corriqueiros sobre os quais dificilmente alguém faz uma reflexão. Ora, o que direis de um “bom dia” amargurado?

Como posso desejar o bem ou o bom de “cara feia”, de mal com a vida, que de tão curta deve ser alegre?

Enquanto escravo da alegria rascunhei este texto num bloco de anotações surrado, escutando música popular brasileira num bar e restaurante que tem três nomes, numa tarde de sábado: Original, Chapéu de Couro e Chapéu de Palha, tomando uma cerveja gelada.

E, enquanto não aparece um ser tristonho, viva a vida, a alegria e um sorriso franco.

E pronto!

sábado, 19 de julho de 2014

Entrando na chuva

Leonardo Sodré
Jornalista e escritor

Diferentemente do ator e dançarino Gene Kelly, que protagonizou um dos mais belos momentos do filme “Singin’in the Rain” (Cantando na chuva), de 1952, quando dança, embevecido de amor, debaixo de chuva, o publicitário Eugênio Soares, o famoso “Meio Quilo”, não gosta nem um pouco de ser atingido por ela, apesar de – na qualidade de sertanejo do Seridó – ansiar todos os anos por inverno generoso.

Numa quarta-feira, Natal amanheceu diferente, debaixo de uma chuva grossa, como há muito tempo não se via, principalmente no Tirol.

Logo cedo, quando cheguei à agência para trabalhar vi Meio Quilo se preparando para sair de casa visivelmente aborrecido. Afinal, naquela região da Afonso Pena, não é apenas o deplorável “Trânsito Livre” imposto pela Prefeitura de Natal, que inferniza. Quando chove, a calçada fica cheia de água. Água, aliás, que estava na metade dos pneus do carro do publicitário.

De longe fiquei assistindo a marmota.

Sai Meio Quilo com uma bacia azul na cabeça para não molhar seus longos cabelos. De longe eu sabia que era ele por causa do seu enorme nariz, que lembra a vela principal de um saveiro, acompanhado por Nilda, sua secretária, que segurava um guarda-chuva que ele comprou na antiga Casa Rio, na década de 1960, quando a loja funcionava na avenida Rio Branco, esquina com a rua Coronel Cascudo.

- Nilda! Gritava Eugênio, com as canelas finíssimas enviadas dentro da água, em direção ao carro.

- Segure o guarda-chuva do Oeste para o Leste porque está respingando água em mim e eu não posso sair molhado! Exigiu.

Nilda, que já estava encharcada devido aos inúmeros buracos do velho guarda-chuva, gritou enfezada:

- Então me diga primeiro para que lado fica o Leste.

Então, Eugênio apontou o nariz em direção a praia e disse, enquanto milhares de pingos batiam nele e gritou:

- Para o lado da Praça das Flores, infeliz! Você não sabe que o Leste é em direção ao mar?


- Sei não “seu” Eugênio – disse entristecida -, eu só sei que o Oeste está deixando minha bunda toda molhada...

sábado, 12 de julho de 2014

Alex! Tire a mão do bolso...

Leonardo Sodré
Jornalista e escritor

O jornalista Alex Gurgel amanheceu feliz na quarta-feira, mas não sem antes passar por momentos de intensa aflição durante o jogo do ABC contra o BOA, na noite anterior.

Ele resolveu não arriscar a ver o seu time perder em algum bar com amigos americanos e preferiu ficar em casa vendo o jogo com a sua amada, Cléo.

Instalaram-se num sofá, um juntinho do outro e ligaram a possante TV de 56 polegadas. Do lado, um banquinho com cerveja e tira-gostos. Regulou a luz para que o ambiente ficasse meio sombrio e aguardaram o início do jogo.

- Olhe Alex, se o ABC jogar como da última vez, sei não... Disse Cléo.

Alex engoliu em seco. Pensou nas piadas dos amigos do grupo Aldeia Poti, mas não disse nada.

Depois que o ABC fez o primeiro gol ele deu um sorrisão e tomou quase uma cerveja inteira. Nisso Cléo olha por cima da sua barriga – num esforço considerável – diga-se de passagem, e diz:

- Alex, tire a mão do bolso.

Ele não disse nada. Como se não tivesse ouvido. Toda a sua atenção era para a televisão. Não queria passar pelo sofrimento do último jogo contra o Duque de Caxias.

E eis que o BOA começa a querer aprontar. Ele fica tenso, toma mais cerveja, come uma empada enquanto pensa que para o ABC ficar tranquilo tem que fazer mais um gol. Cléo da mais uma olhada e reclama:

- Alex, tire a mão do bolso!

Nada dele escutar e finalmente o ABC faz mais um gol. A tranquilidade voltou a reinar na cabeça do intrépido e finalmente o jogo termina.

- Alex, o que você está segurando com essa mão no bolso?

- Estava segurando umas moedas porque esse bolso é muito largo. Por quê?

- Ah! Bom! Como você estava muito tenso eu fiquei com medo de você esmagar um ou dois ovos...

sábado, 5 de julho de 2014

O Céu está vivo

Por Leonardo Sodré
Jornalista e escritor

Alcebíades, turista vindo de Ingá do Bacamarte não acreditava em OVNI. Depois da farofada na Praia de Cotovelo, onde rolou muita galinha caipira, com sua turma, ficou extasiado olhando para as nuvens de chuva que estavam se formando depois que um banhista gritou:

- Parece que o Céu está vivo!

Ele não percebeu a multidão de formigas que estavam se formando ao seu lado, num chão repleto de farinha, restos de galinha e algumas garrafas de cachaça. Estava encantado com o Céu vivo e aquele mar imenso que ele nunca tinha visto, a não ser em fotografias.

De repente o chão se abriu e ele caiu dentro de uma nave que estava enterrada, pronta para voar em direção as nuvens. Uma formiga morena gigante, com uma bunda enorme, que o recebeu nos braços foi logo dizendo:

- Bibi, meu anjo, eu vou lhe abduzir.

Alcebíades sentiu o hálito quente da negona e perguntou já se achando confortável naqueles braços enormes:

- Vai “zuir” o quê? Não entendi...

- Fique calmo, meu bem, e vá tirando esse calção de tergal da feira de Caruaru, que você vai gostar.

Nunca mais Bibi foi o mesmo. Tampouco, durante o resto de sua vida, pisou numa formiga. Naquela tarde ele conheceu o Céu. E, vivo!

sábado, 28 de junho de 2014

Falte logo...

Leonardo Sodré
Jornalista e escritor

Sentado na varanda da casa principal de sua fazenda, coronel Adrenalino mirava o Ford 29 zerinho que tinha mandado buscar em São Paulo. Orgulhava-se de poder ter comprado a “novidade” tão cara e que demorou um tempão para chegar. Sua propriedade era um exemplo de terra produtiva, mesmo embrenhada num sertão que sofria por conta dos grandes períodos de estiagem.

O fato é que seu tetravô, bisavô, avô e seu pai sempre se preocuparam com a seca e a fazenda era repleta de poços e açudes profundos. Não faltava água e até os vizinhos se beneficiavam nas épocas mais secas. Ele tinha quase tudo o que desejava inclusive uma esposa dedicada e muitos filhos saudáveis. Menos o amor de Ritinha. Ela era filha de uma antiga empregada da casa grande e, como ele, havia nascido na fazenda.

Quando crianças e adolescentes, sempre estavam juntos. Brincaram e cresceram à sombra dos muitos juazeiros que havia no pátio defronte a casa. Tomaram banhos de açude, colocaram armadilhas para caçar preás, enfim, eram – como se diz no sertão – “a casa e o botão”. Até para ir ao grupo escolar, iam juntos, pois seu pai, um homem letrado, permitia que os filhos dos seus empregados tivessem a mesma oportunidade de estudar, a exemplo do seu filho único. Até quando um grupo de cangaceiros ameaçou invadir a propriedade, se esconderam juntos e nesse esconderijo – quase adolescentes – experimentaram as primeiras carícias. Adrenalino sorriu baixinho, recostado na cadeira de balanço, enquanto pensava: “não vou me esquecer nunca daquele dia. Benditos cangaceiros!”.

Mas o tempo passou e Adrenalino foi instado a casar com a sua prima Isabel, que veio lá do Seridó e Ritinha ficou noiva e casou com Zé da Cerca, um vaqueiro da fazenda de muito boa índole, indo morar numa casa construída bem longe da sede, nos limites da imensa propriedade. Tinha sido idéia do seu velho pai, que sofria com constantes roubos de gado e com Zé da Cerca morando por lá, fatalmente inibiria os ladrões. Além do que, seu vaqueiro não era de levar desaforos para casa.

Adrenalino nunca esqueceu Ritinha e nas poucas vezes em que se encontraram, as trocas discretas de olhares foram significativas, como se voltassem no tempo da adolescência. Ele se consumia de desejos. Ela também. E, não foram poucas as vezes que Zé da Cerca pegou sua mulher com o olhar distante, como se esperasse alguém. Mas atribuía isso à solidão, devido ao local distante em que viviam.

Sem agüentar mais, o fazendeiro bolou um plano para ficar só com Ritinha, “pelo menos uma vez na vida”. Arranjou a venda de uma partida grande de gado para Mossoró e despachou o vaqueiro com a boiada. Ele teria que passar pelo menos uns cinco dias fora e no mesmo dia em que Zé da Cerca tomou o rumo em direção àquela cidade, o coronel armado de uma roupa nova e muita loção, aportou na frente da casa do seu vaqueiro no cair da tarde, fazendo um barulhão com a buzina do seu carro, que resfolegava dentro dos
inúmeros buracos das poucas trilhas da fazenda.

- Ritinha, estou passando para ver se está tudo bem. Daqui a pouco vou embora.

Ela, platinada com o resto de Sol que batia na varanda, abriu um sorriso maroto e discordou:

- Mas Coronel, está tão tarde para senhor voltar sozinho. Se achegue para comer um cuscuz com café bem quentinho e depois durma por aqui, no quarto dos meninos que estão na casa da avó.

Era tudo o que ele queria ouvir. Ficou, jantou, tomou café e por volta das sete horas foram dormir. Do seu quarto ele tossia. Como um código, ela tossia de volta e o festival de tossidas durou pelo menos uma hora por cima daquelas paredes que não vão até o telhado. Até que ela disse:

- Coronel?

Ele, suado e rígido de desejo, respondeu baixinho, com a voz rouca, tímida:

- Sim, Ritinha...

- Se quiser faltar com o respeito, falte logo que eu estou morrendo de sono!

sábado, 31 de maio de 2014

O peixe salvador















Por Leonardo Sodré
Jornalista e escritor

Uma boa pescaria começa no planejamento. No nosso caso, os planos e horários começaram na sexta-feira, 12 de outubro, na varanda de nossa casa, na praia da Barreta, como uns insistem, mas que Mercinha diz ser Barra Pequena. Ela tem razão. Mas, voltando à véspera da história, meia com “H” maiúsculo e meia com ele minúsculo, deixamos todos os detalhes prontos para o dia seguinte: o sábado.

O professor Eduardo Farias (Dudu), pescador de grandes feitos em muitos costados por esse mundo afora e Mário Henrique de Farias, seu pai e meu amigo de muitas mesas, combinaram comigo, Mércia e Lucina (o amorzinho e encanto do seu pai), a pescaria histórica do feriadão, depois que passei quase três meses fazendo política no interior. Exultei! Finalmente iria inaugurar o molinete supimpa que havia comprado – por meio de um amigo – em Miami. Aliás, esse molinete que tinha selo de fabricado no Vietnã somente durou duas pescarias. Fui fisgado!

Quase às 23h, depois de umas duas doses e meia de rum, já havíamos combinado tudo, separado o material de pesca, escolhido os camarões para as iscas e Dudu foi embora para Tabatinga, onde estava instalado com a esposa, para nos pegar por volta das 08h, para irmos pegar o almoço – quero dizer, os peixes - almejado por Mércia, em Malembá. Fomos embora. Dudu, como o pai, é pontual.

Fomos eu, Dudu, Lucina e Mário Henrique. Logo na chegada Mário notou que o Jeep Toyota de Dudu não tinha aparelho de som. O bicho é possante, mas não tem, sequer, um rádio AM. Aí, Mário cochichou no meu ouvido:

- Léo, desse jeito vai ser difícil a gente pegar um peixe...

Preparamos o material e mandamos ver. Praticamente arremessamos as linhas de uma vez só. Aí, abrimos as primeiras cervejas e ficamos a espera dos peixes que serviriam para reforçar almoço do sábado. Eu estava perto do Jeep quando Lucina disse:

- Léo, acabei de ver um peixe enorme sair de dentro da água... Levou uns trinta segundos somente para passar as costas. Era preto, Léo, enorme!

Diante de minha grande experiência com peixes e para parecer mais entendido ainda (de peixes) disse que poderia ser uma Cavala da cabeça ovalada. Não sei se vi o se sonhei que existia esse peixe, mas estava mais do que convicto. Mas, não tive tempo de continuar a conversa com Lucina porque a minha vara deu um puxão tão grande que tive que correr e me agarrar com ela. Devia ser o peixe que Lucina tinha visto. Ele saiu me puxando para dentro da água e Dudu correu para me ajudar. Segurou-me, mas o peixe continuava puxando, até Mário Henrique segurar Dudu e sermos arrastados até quase o pescoço.

Perdi o peixe. Ganhei a vida! E, todos nós saímos incólumes do episódio. Mário e Dudu exaustos, a ponta de minha vara quebrada. Claro, que tivemos que renovar a rodada de cervejas, mas continuamos a pescaria. Agora eu usava uma vara emprestada por Dudu.

Como existem coisas que somente acontecem comigo, um minúsculo “Barbudo” resolveu se suicidar diante do maior anzol da minha vara de pescar.

Imediatamente Dudu gritou do lado Oeste:

- Léo, guarde esse infeliz para virar isca na minha vara!

Pegou o bicho ainda vivo, iscou e mandou para o mar. Enquanto isso, seu pai, Mário, pegava o primeiro peixe raro daquele sábado: "Lagocephalus laevigatus". Logo depois pegou outro e quando a gente menos esperava a vara de Dudu dobrou-se mais do que as dos nossos coleguinhas do Azulão.

Quase foi ao chão. Um horror! Correu todo mundo em direção a ele e haja luta. O peixe puxava para o mar, ele puxava para terra. Lucina disse:

- Será que é o mesmo peixe que quase leva Léo para o alto mar?

Aí Dudu correu para perto das ondas. Mário gritou:

- Meu filho, tenha paciência!

- Traga um cigarro acesso, papai. Ele respondeu.

Lucina não se continha enquanto nos servia cerveja:

- Dudu puxe logo esse peixe que somente tem três latinhas de cerveja!

Finalmente a Raia apareceu. Comemos a bichinha na Barra Pequena, cozinhada por Mário Henrique. Era tão grande que alimentou mais de 15 pessoas.

Uma beleza!

Eu juro!

sábado, 24 de maio de 2014

Mamãe eu vou ali...

Por Leonardo Sodré
Jornalista e escritor

Encontro-me com Willy Saldanha, tio de Plínio “Bang” Sanderson, no Bar Azulão e pergunto:

- Qual o horário de visitas para Plínio na UTI?

- Ele já saiu da UTI, está no quarto 118... Respondeu.

Animei-me e disse:

- Vamos lá?

E fomos.

Encontramos o poeta que estava com sua mãe, Iracema, sentado diante de um laptop, depois de dar uma entrevista para Anderson Barbosa, do Novo Jornal. Estava animado e foi logo dizendo:

- Antes que você pergunte vou logo dizendo que a bala está saindo!

Passei a mão nas costas dele e alisei a bala, já bem pertinho da pele, como uma espinha que espera uma espremida.

Iracema disse alto, lá do sofá:

- Ele vai fazer um colar com essa bala... E riu.

Ele contou os detalhes do assalto, emocionou Willy e por fim perguntou para onde nós iríamos.

- Bem... Disse Willy. Como você está tão bem, nós vamos voltar para o Azulão para comemorar. Eu vou tomar uma cerveja e Leo um “Montola”.

Aí Plínio arregalou os olhos e olhando fixamente para Iracema, disse:

- Mamãe, tire aqui o soro que eu vou ali...

- Ali aonde criatura de Deus?

- Vou tomar umas “Montolas” para recuperar o sangue que perdi com Leo e titio Willy e volto já...

Eu juro!

quinta-feira, 15 de maio de 2014

Ai, meu Deus do Céu!

FRANKLIN SERRÃO - FOTO: INTERNET

Por Leonardo Sodré
Jornalista e escritor

Um grupo de estudantes de fotografia foi assaltado na Pedra do Rosário, no Centro Histórico de Natal. A mídia deu um tremendo espaço para o caso e a maioria das máquinas fotográficas roubadas por três bandidos adolescentes foram recuperadas. Mesmo assim, num sábado, a Associação dos Fotógrafos do Rio Grande do Norte (Aphoto) e o Sindicato dos Jornalistas (Sindjorn) resolveram realizar um protesto pelas ruas do centro, que atraiu grande número de fotógrafos e simpatizantes.

Depois, por inércia, a maioria foi atraída para o quente Bar de Nazaré, nas proximidades do Beco da Lama, para umas cervejas geladas. A mesa era enorme, mas, na beirada que dá acesso ao bar, ficou um grupinho capitaneado pelo presidente da Aphoto, Alex Gurgel, que, em pleno meio-dia, vestido de preto, suava tal qual um cortador de cana.

Lá para as tantas, depois da primeira grade de cerveja, ele coçou o queixo e disse olhando para o Céu, que estava nublado:

- Eu tenho certeza que aqueles bandidos não atiraram na gente por causa de Deus...

E ficou olhando para o Céu, enquanto alguém confundia o suor que descia nas proximidades do bigode com uma lágrima faceira e desinibida.

O poeta Plínio Sanderson olhou desconfiado, mas ficou calado esperando o restante do relato de Alex, que até então era um cristão “não praticante”.

Com a voz mais rouca do que o normal – atribui-se à emoção -, Alex continuou:

- Na hora do assalto, eu rezei muito. Muito mesmo! E, com fé!

- E qual foi sua oração, infeliz? Você não sabe rezar! Disse Plínio Sanderson, absolutamente desconfiado do relato.

Aí, Alex colocou meia pálpebra nos olhos e, parecendo um santo, respondeu:

- Eu fiz uma oração poderosa...

- Pois repita! Disse o poeta ensandecido, cada vez menos crente.

- Eu clamei a Deus, dizendo: Ai, meu Deus do Céu! Ai, meu Deus do Céu! Ai, meu Deus do Céu! Ai, meu Deus do Céu! Ai, meu Deus do Céu! Ai, meu Deus do Céu! Ai, meu Deus do Céu! Ai, meu Deus do Céu! Ai, meu Deus do Céu! Umas cem vezes...

Todos os olhares da mesa estavam convergidos para Alex, que havia se levantado e colocado os braços para o alto com as mãos espalmadas, em êxtase.

- Nazareeeeeé! Traga outro “montola” para que eu possa agüentar as loucuras que estou ouvindo! Disse o poeta com olhos arregalados e sem acreditar na fé que o presidente da Aphoto professava.

O bar ficou dividido. Uns acreditavam que Alex havia finalmente encontrado o caminho da Igreja. Uma mulher que tomava uma lapada de cana no balcão declarou:

- Também, ele mora bem pertinho da Igreja do Galo... Um dia, Santo Antônio ia entrar no coração dele...

- Esse imbecil está dizendo que fomos salvos por causa de uma reza repetitiva. Nós fomos salvos porque não reagimos e por causa do meu olhar de ódio para aqueles bandidos miseráveis! Disse Plínio.

Aí, Alex, bem sério, após tomar mais um copo de cerveja, disse baixinho, fazendo com que todos esticassem o pescoço para ouvir sua voz, cada vez mais rouca:

- Eu vi Jesus naquele momento...

Plínio somente não explodiu porque o pavio estava longo, a montola tinha sido servida com bastante gelo e a Coca-Cola era normal. Mesmo assim, perguntou, olhando fixamente para o rosto de Alex:

- E com quem Jesus se parece? Diga! Diga! Diga! - Bradou.

- Antes de dizer com quem Jesus se parece, quero informar a todos que vou me entregar a Ele completamente.

- Vai para a católica ou para os crentes? - Perguntou a magérrima garçonete de Nazaré, que ia passando e ouviu a conversa.

- Nem uma, nem outra. Lembre-se que eu sou um empreendedor. Já mandei Cléo comprar uma bíblia em inglês, porque também vou aproveitar a recepção da minha escola, a “Practical” para fazer uns cultos três vezes por semana. Vai ser a Igreja da Revelação da Pedra, em homenagem ao aparecimento de Jesus naquele dia, que poderia ter se transformado numa tragédia!

Uma das meninas assaltadas, que estava na mesa, perguntou:

- Espere... Bíblia, em inglês?

- É. Eu vou inovar e pregar tudo em inglês. Antigamente, as missas não eram em latim?

- Mas ninguém vai entender nada... - Disse a assaltada, de forma insistente.

- Tem tanta música que o povo escuta em inglês, não entende nada e adora... Sorriu Alex, o pastor da Rua das Laranjeiras.

Aí, Plínio inquiriu novamente:

- Não fuja da pergunta! Com quem Jesus se parece?

Aí, Alex, bem sério, respondeu:

- Ele é todinho o artista plástico Franklin Serrão!

Plínio não agüentou:

- Se você continuar com essas mentiras, eu vou me amarrar em Nazaré até você me mostrar Jesus! - Gritou.

Nesse momento, vem chegando o poeta Eduardo Alexandre. Vinha diferente, parecia que tinha visto alma. Sentou-se, pediu uma cerveja e disse:

- Passei por uma experiência extraordinária. Meu automóvel não quis pegar de jeito nenhum. Estava parado defronte à Catedral Metropolitana. Então, eu, que não tenho muita fé, mas gosto de novas experiências, olhei para dentro da igreja e disse a Jesus:

- Homem, dê uma mãozinha, senão, quando eu chegar ao Bar de Nazaré, não vai ter mais nenhuma cerveja gelada. Pois bem, de repente, na primeira virada da chave, o carro pegou. E fez com a boca o barulho: “Vrummmm”.

Olhos esbugalhados estavam fixos em Dunga:

- Depois, quando olhei para o beco lateral da igreja, que dá para o Instituto Histórico, eu vi Jesus...

- Assim não é possível! - Bradou Plínio – Agora, diga, para ver quem é o mais mentiroso: com quem Jesus se parece?

- Bem... – Dunga coçou a barba por fazer –, eu o achei muito parecido com Franklin Serrão...

quarta-feira, 14 de maio de 2014

As gingas, diante dos meus anzóis, correram como loucas


Por Leonardo Sodré
Jornalista e escritor

Nesses dias postei no site de relacionamentos “Facebook” detalhes de uma pescaria que fiz durante o feriado prolongado da Semana Santa, na Praia de Barreta. Escrevi sobre a variedade dos peixes fisgados e o resultado nos diversos comentários postados foi que ninguém acreditou na minha façanha.

Uns diziam que era história de pescador, outros que eu estava apenas “tirando onda” me aproveitando do mar farto de Barreta, enfim, uma série de insinuações que o meu amigo Mário Henrique Faria não sofreria porque costuma filmar todas as suas operações de capturas de peixes. E olhe que não poucos!

Lá para as tantas, nos comentários, o fotógrafo/artista Antonio Mansus perguntou se naquela praia não teria aparecido umas gingas, peixes minúsculos muito apreciados nos bares da velha Redinha.

Respondi que as “as gingas, diante dos meus anzóis, correram como loucas”. Dei então a impressão que estava pescando com equipamento para grandes peixes. Mereci uma risada como resposta.

O fato é que ninguém acredita em relato de pescador. Lembro-me que uma vez, quando ainda morava em Brasília e costumava pescar no Rio Araguaia, que numa roda de amigos um companheiro de pescaria começou a contar umas histórias, digamos, exageradas. O papo regado a um bom uísque chamou a atenção do engenheiro Inácio Sodré, meu primo, que aloprou:

- Pois é, comigo que não gosto do esporte o resultado foi terrível durante a minha primeira e última pescaria.
A sala emudeceu para saber o que havia se passado com o paraibano de Campina Grande, tido como muito sério e de poucas palavras.

O fato é que Inácio estava aborrecido com tantas histórias mirabolantes e disparou:

- Pois bem, eu estava pescando em um açude no sertão da Paraíba quando senti uma grande fisgada na minha linha. O peixe puxou... Eu puxei e ficamos durante muito tempo nesse puxa e encolhe, até que eu reuni todas as minhas forças e dei um puxão terrível...

Nesse ponto ele fez uma pausa para tomar um gole de uísque, enquanto todas as atenções estavam fixas nele. Um companheiro mais afobado – exatamente o mais exagerado -, entusiasmado pelo desfecho da pescaria e sabedor do quanto Inácio prezava pela verdade, insistiu avexado:

- E aí? Puxou o peixe?

Inácio se permitiu a um sorriso quase imperceptível no canto da boca quando respondeu:

- Que peixe que nada. Eu fiquei foi todo molhado. O açude virou todinho em cima de mim...

terça-feira, 13 de maio de 2014

A soma de todos os chifres


Por Leonardo Sodré
Jornalista e escritor

João Fulô morava na cidade de Pedro Avelino, interior do Rio Grande do Norte. Morreu com 103 anos e vivia da renda de três cabarés que mantinha na cidade. Costumava dizer que tinha 120 mulheres, mas que tinha ficado sozinho no final da vida, embora aconselhasse seus filhos a ter de dez a doze amantes para ver se sobrava uma. Era um humorista nato e conhecia tudo de sua cidade. Onde estivesse sempre tinha um grupo ao seu redor escutando suas histórias.

Um dia, pega carona com um fazendeiro da região, para Natal. O tal fazendeiro tinha inimizade com um dos seus irmãos, que havia levado um chifre recente da mulher e estava doido para saber se a história já havia se propagado. No caminho, provocou:

- Fulô, quantos cornos tem em Pedro Avelino?

Fulô pensou um pouco, fez umas contas nos dedos e respondeu:

- Tem quarenta, doutor...

- E quem são eles?

Aí, Fulô começou a dizer os nomes. Alguns bem antigos. Gente que até já tinha morrido. Outros, mais recentes. Mas, não tocou no nome do irmão do fazendeiro.

Quando chegaram à casa do filho de Fulô, ele desceu, agradeceu a carona e quando já ia entrando o fazendeiro observou:

- Fulô, você disse que lá em Pedro Avelino tinha quarenta cornos, mas pelas minhas contas você somente disse o nome de trinta e oito. Quem são os dois que estão faltando?

Aí, João Fulô não contou conversa, disparou a resposta na mesma velocidade que entrava em casa, prá lá de afobado:

- Faltou dizer que um era eu e o outro o seu irmão!

segunda-feira, 12 de maio de 2014

Coração Cervejeiro


Por Leonardo Sodré
Jornalista e escritor

Naquele dia de muitos ventos de agosto, meu coração resolveu bater diferente, forçando uma respiração ofegante e rápida. Cansado e com histórico de hipertensão arterial, não demorei em chegar ao hospital. Depois de alguns exames repetidos constatou-se que não havia enfarto, mas que eu corria risco de tê-lo um dia.
Dias depois estive no Bar do Mário. Fiquei sozinho na cadeira alta do balcão. Nesse dia tinham poucas pessoas e eu aproveitei para pensar no meu coração, que começava a dar sinais de fraqueza diante do meu estilo de vida. Lembrei-me de que um dia, quando eu ainda era um adolescente, estudante do Colégio Marista, um velho professor de yoga, durante uma palestra, disse que todas as pessoas precisavam de vez em quando dar um mergulho na alma. Refleti um bocado sobre o assunto.
Mário Barbosa passava arrastando um dos pés vez por outra e olhava intrigado para o meu silêncio, enquanto atendia clientes que iam chegando ou saindo. Somente uma vez se dirigiu a mim.

- A casa está lhe tratando bem? Quer mais alguma coisa?

Depois de me servir mais uma vez, continuou atendendo sua vasta clientela enquanto eu, movido pela curiosidade, pensava na admoestação do velho professor. Entendia que como somos feitos de espírito, alma e carne, obviamente o espírito me poderia “ligar” a um ou outro. Com a alma eu já tinha experiência. Tentei o coração, que me ameaçava deixar na mão. Pensei nele reclamando e ele não gostou muito.

- Ora, meu caro, você fuma, bebe, ama descontroladamente, se emociona mais do que menino pequeno e até com poesia matuta, sofre pelos outros e tudo isso é jogado em cima de mim, que há décadas me mantenho acordado e batendo feito um doido para lhe manter vivo! O que você queria? Estou cansado, querendo entupir...

- Mas, meu coração, as questões do amor estão diretamente ligadas ao seu departamento. Entendo que as emoções de fora significam uma carga além das suas atribuições, mas entenda, são os ossos do ofício. Você não vê todos os dias, nas novelas? A turma somente fala no coração. Meu coração isso, meu coração aquilo...

- É, mas se você se amasse mais do que ama, eu sofreria menos... Por isso, estou em processo de liquidação – sorriu o coração.

- Não ria! Veja que lhe compenso com taças de vinho – eu respondi aborrecido, passando na sua cara o tratamento recorrente.

- Concordo que vinho faz bem para mim – disse o coração.

- Ah! Pelos menos concordamos numa coisa...

O coração batia devagarzinho antes de falar comigo de novo. Devia estar com batimentos de atleta quando finalmente capitulou.

- Eu gosto mesmo é de cerveja!