segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Brigas acadêmicas

Paulo Correia
Jornalista
.
Em meio a discussões sobre o melhor nome para gerenciar a Fundação Cultural Capitania das Artes (Funcarte), e sobre o palavreado pouco educado do atual diretor, o jornalista Rodrigues Neto, me veio a cabeça a lembrança de um livro do mestre Jorge Amado que completa 30 anos de publicado agora em 2009. O livro é “Farda, fardão, camisola de dormir”, que trata nas suas páginas sobre uma fictícia eleição para a Academia Brasileira de Letras, disputada por dois militares, e tendo os velhos Imortais da Casa de Machado de Assis fazendo o papel de conspiradores de mão cheia.

A publicação de 225 páginas é recheada da boa malicia com as palavras que só Jorge Amado é capaz de escrever. Uma estória que foi concebida nos últimos anos do regime militar no Brasil, e que nas folhas retrata o país vivendo outra ditadura, a do gaúcho Getúlio Vargas. Uma época de namoro descarado do governo Vargas com os ditadores Benito Mussolini e Adolf Hitler. Um tempo perigoso na História brasileira. Anos de censura nas artes e na política partidária.

A estória começa em 1940, logo depois da morte do poeta Antônio Bruno na Paris tomada pelas tropas nazistas, e na crença geral que Hitler estava ganhando espaços além do permitido. Aqui no Brasil, sua vaga de membro da ABL estava desocupada e um coronel do Exército a queria a todo custo. O poeta Antônio Bruno, que morreu de tristeza profunda com a invasão nazista na sua Paris de sonhos, era um escritor das coisas bonitas do amor, da alegria dos casais apaixonados, e que tinha o maior respeito de seus pares na Academia. O coronel Agnaldo Sampaio Pereira, que queria a cadeira de Bruno, era o oposto do poeta. Era sim, um simpatizante do regime assassino de Hitler e um torturador conhecido nos porões da ditadura Vargas.

Na outra ponta da disputa, entra em ação o também militar Waldomiro Moreira, General aposentado das fileiras do glorioso Exército brasileiro, mas um certinho de papel passado. Na certa, uma disputa que a Academia Brasileira de Letras nunca tinha visto. Uma briga pela imortalidade do fardão verde.

Entre os dois oponentes, uma boa dose de mentiras, armações e muita ironia dos velhos acadêmicos. Uma guerrilha para não deixar cair em mãos erradas a cadeira de um representante da democracia. Uma disputa que nada lembra a boa fleuma dos que compõem a ABL.

Uma publicação que deve ser lida por todos. Dos pedantes burocratas aos intelectuais da terrinha.

Uma sátira para esses tempos chatos de politicamente correto.

Nenhum comentário:

Postar um comentário