Possibilidade de epidemia
Por José Delfino*
Os jornais dão conta de mortes. Os infectologistas alertam para a possibilidade de epidemia. No hospital onde trabalho não mais se vêem os rostos das pessoas, encobertos por máscaras. Leitos acolhem pacientes contaminados com seus pulmões ao ponto de explodirem. Vagas nas unidades de terapia intensiva, poucas, muito poucas, quando existem. Rede de saúde estatal desaparelhada para eventuais atendimentos em massa, principalmente quando implicam o uso massivo de UTI. Uma delas, inclusive, desativada temporariamente por uma fatal razão: o óbito de uma paciente, que, por sua vez, contaminou o médico de plantão ( já internado há quase uma semana) e mais quatro enfermeiras. Atentem ao fato: aconteceu numa UTI, onde a adoção de medidas profiláticas é levada a cabo com extremo rigor por profissionais extremamente qualificados. Mas pessoas até que se tocam, a julgar pela manchete que li num jornal daqui, há uns três dias: “ Se for pra ir de máscara é melhor ficar em casa” . O poder público é que parece que não. A gripe suína tá aí , e o Carnatal também, pra, eventualmente, fechar com chave de ouro a desgraça. E ninguém se movimenta. Não cabe a mim dizer o que se deveria fazer. O estado e a prefeitura têm técnicos capazes. O Ministério Público, idem. A vontade política e o poder de decisão ( no sentido de se tomar uma atitude) recaem neles. Não se trata de alarmar as pessoas, pois não se pode com certeza absoluta afirmar que algo muito sério iria acontecer. Mas, as evidências científicas sugerem fortemente que a probabilidade não é desprezível. Questão só de racionalidade e prevenção. Informação, pelo menos! Ou esse caras estão pensando que no corredor da folia o povo irá lavar as mãos constantemente, evitar contatos suados, beijo de língua, troca de saliva, esfrega-esfrega, contato íntimo ou bem próximo, beber em copo contaminado, o escambau. Promiscuidade, diga-se de passagem, muito salutar, até recomendável em tais circunstâncias. Mas, não na atual, com certeza. Por mais paradoxal que possa parecer, o poder público é que não deveria lavar as mãos. Nós o elegemos para isso. Afinal, a questão é salvar a própria pele.
*José Delfino é médico anestesiologista e poeta
Nenhum comentário:
Postar um comentário