Paulo Correia
Jornalista
ph-correia@uol.com.br
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Era mais uma tarde de sexta-feira. Sempre a mesma coisa de todos os dias: passageiros mal humorados, feios, alguns com o repugnante mau cheiro de corpo sem limpeza ou desodorante; algumas garotas de 16, 17 anos, saindo mais cedo dos colégios próximos ao centro da cidade. Umas belezinhas que levam qualquer garoto a miséria. Também faz parte da viagem o Rubens, o cobrador que ajuda nas horas de transito lento e que adora falar das antigas glórias do seu ABC. Um sujeito pacato, na dele, quase um monge. Mas até esse poço de calmaria se agita com a sua entrada na lotação.
O seu nome já ouvi por alto, enquanto presto atenção em um carro mais afoito e um passageiro que pede parada, é Adriana. Adriana que me alegra com sua presença nas minhas modorrentas viagens de Felipe Camarão até as Rocas. Viagens que pioram com esse calor infernal de março. Adriana que me esquenta as noites solitárias em casa, com suas coxas grossas e bem desenhadas. Como gostaria de tirar essa sua farda de comerciária, tirar esse cansaço de sua face e alegrar o seu dia. Como gostaria de saber escrever melhor, com mais poesia, com mais elegância, mas sei bem até onde vai a minha escrita, e coitada, ela é tão pobre. Quero pensar em coisas bonitas, e só me passa na cabeça bobagens.
Qualquer dia vou tomar coragem e entregar essa carta para você. Em meio ao seu espanto, a minha timidez, e o olhar de Rubens. Nesse dia acredito que algum passageiro vai reclamar com o motorista sobre o porquê dessa parada brusca. Alguma senhora vai perguntar se é assalto. As meninas do colégio vão rir a vontade e escrever algo nos seus twitter´s. Algo irá acontecer nesse ônibus da linha 22.
Só espero que algo bom.
Se não, ai meu São Jorge, o calor de março ficará pior para esse motorista sem jeito.
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