domingo, 5 de fevereiro de 2012

Jornalismo: Profissão perigo


Paulo Correia
Jornalista

paulo.correia@r7.com

O jornal Folha de São Paulo na sua edição de domingo (29), publicou matéria, assinada pela repórter Sylvia Colombo, sobre os assassinatos de jornalistas no México a mando dos barões da droga. Uma reportagem que exibe os números da vergonha e que aponta o total descontrole governamental com a sangrenta guerra civil não declarada no país.
No texto da Folha, a informação que 10 dos 103 jornalistas assassinados no mundo em 2011 eram mexicanos. Na reportagem, o país foi considerado o mais perigoso para o exercício do jornalismo (à frente até do Iraque, com nove mortos). Na matéria, o Brasil é citado com cinco mortes. Empatado com o Chile e a Líbia de Muamar Kadafi em frangalhos.
No México, esses números são absurdos e já ameaçam até a linha editorial dos principais jornais. Uma prova desse descalabro foi à assinatura de um acordo entre o governo e as principais TVs, rádios e jornais do país. Em linhas gerais, o texto propõe critérios editoriais em comum, com o objetivo de não dar cartaz ao terror. Aos famosos narcos.
Mas não são somente os jornais e os seus repórteres que sofrem com a violência extrema dos cartéis das drogas. De 2006 para cá, o Mé­xi­co observa uma in­ten­sa guer­ra con­tra o nar­co­trá­fi­co. As lutas de tra­fi­can­tes pelo ge­ren­cia­men­to do maior nú­me­ro de lo­ca­li­da­des des­ti­na­das a pro­du­ção e venda dos en­tor­pe­cen­tes fez com que o pre­si­den­te Fe­li­pe Cal­de­rón promete-se uma ação enér­gi­ca con­tra esses gru­pos. Com essa de­ci­são, uma es­ca­la­da da vio­lên­cia ex­plo­diu no país e qua­dri­lhas ri­vais co­me­ça­ram a lutar não ape­nas con­tra as for­ças do go­ver­no, mas tam­bém entre si.
Em todo o Mé­xi­co, as ações de Calderón envolvem a Polícia Federal e as Forças Armadas, além do apoio dos EUA (treinamento, comunicações e inteligência). A resposta do crime à repressão vem na forma de execuções em massa. Segundo a Procuradoria Geral da República, em 2011 foram 12.903 mortes, ou 48 por dia. 48 por dia!
No país, os prin­ci­pais car­téis estão di­vi­di­dos em sete e co­lo­cam toda a sua força no imen­so ter­ri­tó­rio de cerca de dois mi­lhões de Km². São eles: o do Golfo, que con­tro­la as ati­vi­da­des de nar­co­trá­fi­co no Nor­des­te do Mé­xi­co; o Zetas, grupo pa­ra­mi­li­tar ori­gi­nal­men­te for­ma­do para tra­ba­lhar para o Car­tel do Golfo, mas que hoje atua de modo in­de­pen­den­te; o Bel­trán Levya, or­ga­ni­za­ção cri­mi­no­sa das mais for­tes do Mé­xi­co; Si­na­loa, que age nos es­ta­dos de Baja Califórnia, Si­na­loa, Du­ran­go, So­no­ra e Chi­hua­hua; La Fa­mi­lia, pe­que­no grupo ba­sea­do no es­ta­do de Mi­choa­cán; Ti­jua­na, or­ga­ni­za­ção que leva o nome da ci­da­de me­xi­ca­na lo­ca­li­za­da na fron­tei­ra com os Es­ta­dos Uni­dos; e o car­tel de Juá­rez, ba­sea­do na ci­da­de de Juá­rez, no es­ta­do de Chi­hua­hua.
Todos esses ban­dos ar­ma­dos são a maior dor de ca­be­ça dos ges­to­res pú­bli­cos de ci­da­des e es­ta­dos me­xi­ca­nos e as suas guer­ras pelo poder não pou­pam nin­guém. Um exem­plo claro de toda essa pro­ble­má­ti­ca é a ques­tão das mor­tes de mais de uma cen­te­na de mu­lhe­res em Ciu­dad Juá­rez, as­sas­si­na­das bru­tal­men­te du­ran­te a dé­ca­da de 1990 e nunca es­cla­re­ci­das na sua to­ta­li­da­de.
Até quan­do o México aguentará esse poder pa­ra­le­lo? Essa afron­ta à so­cie­da­de e aos seus veículos e profissionais de imprensa?
Alguém responde?

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