domingo, 4 de dezembro de 2011

Carta para uma amiga

Paulo Correia
Jornalista
paulo.correia@r7.com

Tudo começou quando eu tinha 15 anos. Realmente, antes dessa idade eu já era bem danada, serelepe e um pouco maliciosa. Mas foi com 15 anos que descobri os olhares de desejo e o poder que eu tinha em minhas mãos. Descobri a hipocrisia nos homens.
Nesse tempo ninguém me segurava: era bonita, bem feita de corpo e tinha um olhar de sensualidade que deixava muitos garotos doidos. Descobri a sacanagem nas suas formas mais acentuadas. O sexo para o prazer. O meu prazer. A malícia que era boba até os meus 13, 14 anos, foi sendo estudada como uma verdadeira ciência a partir dos 15. Entrei no perigoso mundo de provocar o desejo ardente nos rapazes, principalmente, nos rapazes que eram noivos ou namorados. Tinha fixação em descobrir os pontos podres desses castos namoradinhos de portão. E em todos, eu achava.
Com 16 para 17 anos, roubei o namorado de minha irmã. Hoje, nem sei onde ela mora. Não foi por causa disso que deixei de falar com ela. Até hoje ela não soube desse nosso caso. Um ano, foi esse o tempo que durou as minhas ficadas sexuais com o moleque que jurava amor a minha ingênua irmã. Hoje, essa é mais uma das minhas penas a pagar nessa minha vida louca.
Curti muito minha juventude. Aprontei com todo mundo, quase ninguém aprontou comigo. Se você me entendeu nessas poucas linhas ai de cima, sabe do que eu quero falar. Você, mais do que qualquer outra pessoa, sabe que fiz misérias com quem não merecia nada. Pintei e bordei em cima de pessoas que só queriam o meu bem. Dessas pessoas, só o que me interessava eram as suas finanças ou qualquer prestígio que elas poderiam ter. A doação de um verdadeiro amor não me satisfazia. Para mim, era ridículo demais um homem dizer que gostava do meu jeito . E esse sentimento bobo me dava asco. 
Em resumo, escrevo está carta sentada num boteco imundo de beira de estrada, com carros e caminhões passando para lá e cá e vendo um casal extremamente comum a minha rotina diária: um vagabundo e uma prostituta de vinte e poucos anos cheirando uma carreira de pó na mesa ao lado. Com as faces totalmente sujas das tormentas de suas vidas. Lá fora, o dono do bar tenta convencer uma garota de uns 16 anos a entrar na sua casa logo mais, prometendo a essa, pela milésima vez, um futuro emprego numa loja da cidade. Como escrevi no início: a sacanagem na sua forma mais acentuada, e agora na sua forma mais grotesca. 
Uns poucos bêbados ainda tentam me levar para a cama. Oferecem o que suas posses podem oferecer: mais cachaça e mais ressacas nos dias seguintes. Não, muito obrigado. Minha cota de homens já se encerrou. Prefiro ir para o meu canto. Sozinha eu consigo controlar os meus pesadelos melhor. 
É isso minha amiga. Escrevo essa carta para tentar, não sei como, lhe acalmar. Tento com essas poucas palavras lhe mandar forças para que você consiga sair desse problema com sua filha. A descoberta do relacionamento dela com esse homem casado, e enganando um namorado fiel, deve ser uma dor sem fim para você. Entendo, e infelizmente só entendo agora, nessa idade já tão cansada, como é ruim mexer com os sentimentos verdadeiros de alguém. Hoje eu sinto a dor, que não é de cotovelo mas de coração ferido, desse pobre rapaz que ainda luta pelo carinho de sua filha. 
Daqui, do meu cantinho, bem distante de minha família que um dia gostou de mim de verdade, peço a Deus que olhe para você. Que na sua bondade infinita, ele consiga fazer com que sua filha abra os olhos. E faça com que ela descubra que as ilusões só são isso, ilusões.

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