domingo, 16 de maio de 2010

.


Dodoca e a quartinha cabeluda

Leonardo Sodré
Jornalista e escritor

No final dos anos 1960 o jogador de futebol de salão Dodoca, pivô do América Futebol Clube e titular da Seleção Norteriograndense, que chegou a ser vice-campeã brasileira da categoria, misturava o seu talento com a bola com inúmeras noitadas boemias. Era um tempo romântico.

Numa das intermináveis farras, terminou chegando na fazenda do agropecuarista Gilberto Lira com um grupo de amigos. Era uma fazenda bem estruturada com geladeira repleta de cervejas, a bebida predileta do então jogador de futebol de salão, que não tinha pressa nenhuma em voltar para sua casa, no Tirol.

Lá para as tantas, Gilberto se lembrou que havia sido convidado para o casamento da uma filha de uma moradora, num distrito não tão perto da fazendo. E, lá se foi o grupo todo curtir o forró que iria acontecer na casa da mãe da noiva, viúva ainda nova. No caminho os atributos dela foram realçados. Dodoca não disse nada, mas lambeu o beiço.

A beleza da mãe da noiva não havia sido relatada com a fidelidade que ela merecia. Dodoca, um garanhão louro e doido por uma aventura, foi logo se chegando. A casa não tinha luz elétrica. Era tudo na base do lampião e não demorou para que ele, na cumplicidade das muitas penumbras, seduzisse a viúva para uns demorados amassos. Sarro mesmo.

Ela, por razões óbvias e por notar que os convidados estavam percebendo o afã de Dodoca, não permitiu que ele fosse aos “finalmentes”. Tampouco que pegasse nas suas partes mais íntimas. Mas, havia promessa velada em seus olhos. O galego tinha conquistado o coração da viúva mais gostosa daquela região.

Como ficou tarde e todo mundo muito “alto” de tanta cerveja e cachaça, resolveram dormir no alpendre da casa. A viúva, para poder ficar a disposição do patrão, também armou sua rede por lá. Lampiões apagados, escuridão total, haja ronco de bêbados e muitos peidos depois de tanta galinhas caipiras e bodes, acompanhados de batata doce e outros ingredientes formadores de gases.

Mas, Dodoca não dormia. Pensava na viúva e como iria fazer para abordá-la em meio aquela cúmplice escuridão. Como era desprovido de medo, saiu livrando as redes até chegar na rede da viúva que dormia compassiva, quase saciada de amor. Aí, Dodoca começou a passar as mãos nas suas pernas, subindo avexado, feito um elevador moderno. Estava ansioso. Somente não esperava o grito da viúva:

- Meu Deus do Céu tem um tarado aqui!

Lampiões foram acessos imediatamente, enquanto Dodoca, no maior constrangimento, dizia:

- Mas dona fulana, eu acordei com um sede danada de ressaca no meio desse escuro todo e estava tateando, procurando uma quartinha para tomar um pouco de água.

A viúva, que estava realmente assustada, respondeu sem titubear, revelando irritação por ter sido acordada:

- Ora, seu Dodoca, onde já se viu quartinha com boca cabeluda!

Um comentário:

  1. Leo! estou me acabando de rir aqui. Muito boa demais essa crônica(não tanto como a viúva).Dodoca é show de bola rsss beijos e mais uma vez parabéns por saber narrar em detalhes um cenário e situação.

    ResponderExcluir