sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Alguns pontos explicativos sobre a derrota do vilmismo

Daniel Menezes
Sociólogo e Professor


A quem interessa a discussão que invadiu os jornais locais que procura enquadrar os supostos culpados da derrota do grupo de Vilma nas eleições de 2010?
Sinceramente não sei. Mas talvez a explicação esteja no fato de que a derrota ainda não tenha sido digerida por muita gente.
Vou tentar oferecer uma resposta, pontuando algumas questões que, ao meu ver, são fundamentais, mas que não estão sendo devidamente relevadas.

1. Não é possível encontrar um único culpado. O processo de deterioração do grupo político foi longo e se iniciou em 2008. A desastrada estratégia de 2008 deu início ao desmoronamento do vilmismo. Fátima ajudou a desarticular fortemente a base naquele momento. A impressionante vitória de Rosalba, quando todas as pesquisas apontavam

Fernando Bezerra, em 2006, também acabou por gerar a composição de um poderoso grupo político para 2010. Garibaldi, que havia subestimado Vilma em 2006, perdendo a eleição no primeiro turno e não no segundo, soube depois da traumática derrota jogar como ninguém. Conseguiu a façanha de estabelecer uma ponte com os duas ilhas em que se encontravam as principais lideranças políticas do RN.

2. O segundo governo Vilma também ficou bem aquém do esperado e não adianta citar números. As pessoas precisam ter a sensação de melhora, o que não foi sentido.
3. Lembro de uma entrevista publicada pelo correio da tarde lapidar de Fernando Mineiro em que o mesmo afirmava que a segunda gestão de Vilma não estava seguindo a contento e que era necessário mudar os rumos da administração estadual. Apontou várias fraquezas da administração, tais como segurança, saúde e educação. A auto-crítica (Mineiro faz parte até hoje do governo) foi desconsiderada e fortemente atacada por um batalhão de jornalistas. O PTista cantou a bola e ninguém quis ouvir. E se existe uma qualidade imprescindível para um bom político é o dom de saber escutar o que os outros tem a dizer, pesar os interesses em jogo e a força dos argumentos.
4. Outro fato marcante foi o modo como os governadoráveis foram tratados. A disputa foi pessimamente conduzida, o que aumentou a rachadura já existente no navio governista.
5. Não concordo, além disso, com a história de dizer que Vilma pagou pelo desgaste natural de duas gestões seguidas. Muitos governadores já lideraram os seus estados por oito anos e conseguiram obter um resultado diferente. Isso é argumento de quem não quer ou não tem interesse em enxergar a verdade dos fatos.
6. Existiu um nítido enfraquecimento das bases sociais do vilmismo e, como já dizia Noberto Bobbio, nenhum governo se sustenta sem ter os pés fincados em parcelas significativas da sociedade. Vilma não parecia mais aquela política da década de 70 que, quando secretária de ação social, soube fazer um brilhante uso do movimento comunitário e ganhar os corações daquelas pessoas. Até hoje não compreendi quem Vilma representava socialmente na eleição. Parecia uma candidata desfigurada e o discurso da "luta contra os poderosos" não surtia mais o efeito de antigamente - o norte-riograndense já havia se acostumado com a idéia de que Vilma era uma das principais forças políticas do RN.
7. A estratégia eleitoral não foi boa. Qualquer manual de ciência política mostra que a capacidade de influência e transferência de votos entre esferas diferenciadas tende a ser bem menor do que a gente imagina. Acreditaram que Lula, que goza de boa aprovação popular, poderia interferir no processo eleitoral local. Ora, os eleitores costumam separar muito bem as áreas de governo. O fato bisonho disso tudo foi que, por mais que Iberê tenha lutado para colar seu nome no de Dilma, seus eleitores eram mais simpáticos a candidatura de Serra. Rosalba, que era sempre apontada como serrista pelos membros da marola vermelha, foi vitoriosa entre os eleitores da candidata do Lula.
8. O sentimento de mudança se impôs e Rosalba soube muito bem encarnar o idéia de “novo”.
9. A lógica do segundo voto desempenhou lá o seu papel. Era necessário reconstruir o inconsciente coletivo da sociedade, que tinha a idéia de voto casado em Garibaldi, Agripino e Rosalba fortemente estabelecida.
No entanto, o PT local, em mais uma de suas trapalhadas já tradicionais, ofereceu Hugo Manso como parceiro de Vilma e Iberê. O que ele conseguiu agregar a candidatura destes últimos além do forte voto de legenda do partido dele?! Praticamente nada... Faltou ousadia para colocar alguém de cara nova, com a possibilidade de trazer a idéia de renovação e até ajudar a amolecer a noção de continuidade, que já era do conhecimento de todos que a população rejeitaria.
O resultado está aí e cabe ao grupo vilmista deixar de chorar e procurar culpados e começar a atuar para re-articular os seus líderes sob a idéia de um projeto de oposição.
Depois de quase 20 anos no poder, Vilma precisa aprender que há o outro lado também. Faz parte da vida. Faz parte da democracia.

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