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No começo da semana passada faleceu um dos maiores oradores políticos do Brasil do seu tempo. Refiro-me ao Dr. Cid Sampaio.
Certa vez, discursando na tradicional pracinha do Diário o doutor Cid recebeu estrondosa e ensaiada vaia. Sem perder a calma, ao cessarem os apupos retornou ao discurso nesses termos:
“Feliz do povo que pode vaiar em praça pública o seu governador”... e foi por aí. Moral da história, ao terminar o discurso o povo delirava e levou-o de volta literalmente nos braços, para o palácio do Campo das Princesas.
A esse tempo houve um verdadeiro escândalo em Pernambuco. Elegeram para deputado estadual um bode de Jaboatão – o bode cheiroso.
À época eu era ainda um jovem eleitor e ouvi de muitos que a eleição do bode apenas mostrava que o Nordestino em geral ainda não levava a sério a eleição, que não sabia ainda o valor do voto etc.
Ocorre que de lá para cá ocorreram outros fenômenos parecidos com o bode, como o macaco Tião, no Rio de Janeiro, isto é, no Sudeste do país.
Quando Pilatos ofereceu Barrabás no lugar de Jesus Cristo a multidão preferiu crucificar Cristo e soltar o maior ladrão daquela época.
Acho que o povo, isto é, a massa é aparentemente contraditória, mas sua opinião será sempre resultante de um momento psicológico e histórico. Acho que o fenômeno não foi ainda devidamente explicado pelos sociólogos e muito menos pelos cientistas políticos. Não depende da cultura do povo nem da época em que o fenômeno ocorre.
Agora mesmo nos deparamos com o fenômeno Tirica. Como explicar a palhaçada do eleitor, fazendo do colega o deputado federal mais votado do país? E o fenômeno ocorreu em São Paulo, isto é, no maior Estado da federação, o mesmo que há tempos elegeu para prefeita uma ex-matuta, nossa Erundina (com meus respeitos), nascida no interior paraibano. E a doutora Erundina continua lá, como deputada federal, a dar as cartas.
Aqui mesmo, no nosso Estado, apesar da derrota de Dilma/Lula o povo tornou a fazer da cidadã Fátima Bezerra a deputada mais votada do Estado. Será que foi pelo fato de ela pertencer ao quadro do PT? Ou por que é reconhecida por todos como amiga do Presidente Lula? Ou o sucesso de Fátima deve-se à sua própria competência em ser representante legítima do professorado norteriograndense? Acho que vale mais a pena apostar na última hipótese.
Lamentável que São Paulo tenha dedicado mais de um mihão de votos ao autor de Florentina de Jesus.
Parabéns, meu Rio Grande do Norte, parabéns Deputada.
Caro Leonardo,
ResponderExcluiré impressionante como a cegueira preconceituosa tende a dificultar o desenvolvimento de uma análise mais reflexiva sobre os acontecimentos perpetrados pelos indivíduos em interação.
Não se trata de lamentar a eleição de Tiririca, mas de tentar compreender as suas razões e sua base social de sustentação.
Assim como Miguel Mossoró abocanhou os votos dos jovens - universitários, diga-se de passagem - desgostosos com os rumos que a política vinha tomando naquele momento, os paulistas parecem não sentir efetivamente a presença do Estado e, mais especificamente, do poder legislativo.
A frase do Tiririca, ao meu ver, é lapidar. Diz ele: "você sabe o que um deputado faz na câmara? Eu também não, mas se você me colocar lá eu vou te dizer".
Poxa, há um forte conteúdo crítico em tal tipo de brincadeira. O legislativo, que já é fortemente rebaixado pelos desmandos do executivo e é constantemente usurpado em seu poder de gerar leis pelo judiciário, ainda fica a mercê de um próprio distanciamento promovido por ele mesmo com relação as mais variadas frações de classe da sociedade.
Tratar os eleitores como brincalhões e/ou como burros é não perceber o aparato institucional (ou a ausência dele) que promove o esgotamento da crença nas possibilidades que a democracia pode trazer.
abs
daniel menezes