segunda-feira, 18 de outubro de 2010

TRANSIÇÃO E ESTRATÉGIA POLÍTICA

Daniel Gonçalves de Menezes
Sociólogo e Professor
(www.cartapotiguar.com.br)

A transição é o momento propício inicial do exercício daquilo que era apenas expectativa, como também para a continuação da concorrência política por outros meios. Isto ocorre principalmente quando o grupo vencedor conseguiu derrotar aqueles que antes capitaneavam a gestão do estado em disputa.
Há quem defenda que é o período adequado para liquidar a fatura, abrir as contas públicas e, para a possibilidade de encontrar algo questionável, enfraquecer ainda mais o grupo perdedor. A atividade de auditoria, aliada ao discurso da transição, não se resumem, portanto, a uma questão técnica. Se configura também como o prolongamento da atividade política.
É importante, no entanto, que o grupo vencedor exerça a crítica no processo de transição aos ex-gestores com bastante cuidado, pois aquilo que aparentemente significa apenas empurrar um bêbado ladeira abaixo, pode tornar-se uma grande dor de cabeça.
Micarla de Sousa, após ter triunfado contra as principais lideranças da cidade, não perdia a oportunidade de apontar a gestão anterior de Carlos Eduardo mesmo depois de empossada. A tentativa de enfraquecê-lo se mostrou desastrosa. Ao invés de deixar Carlos Eduardo “morrer politicamente”, como se diz, a atual prefeita o colocou firme e forte na oposição. O ex-prefeito, que iria ficar dois anos de molho sem disputar cargos públicos, o que representa uma eternidade em matéria de política, foi jogado num cenário favorável que lhe garantiria a sobrevivência.
A líder do PV, ao empreender a estratégia, criou uma polarização inoportuna com Carlos Eduardo, aglutinou uma oposição contra ela (numa região em que, nos últimos anos, não vem apresentando sólidas formações de oposição locais e estaduais – vereadores, prefeitos e deputados são facilmente cooptados pela máquina pública) e, ainda de quebra, antecipou a disputa para a prefeitura de Natal em 2012.
Modéstia a parte e para não me apresentar como “especialista de última hora”, “cantei a bola” em fevereiro de 2009 com o envio de alguns artigos para alguns jornais da cidade.
Agora é a vez de Rosalba Ciarlini. Com a aprovação das urnas, começa a sua gestão gozando de grande legitimidade. Não é nada fácil, num estado em que os prefeitos estão sempre com o pires na mão, parte da sociedade depende de benefícios do governo e os empresários têm as secretarias públicas como suas principais clientes vencer uma eleição ainda no primeiro turno contra um candidato com a caneta cheia de tinta para assinar. Porém, já ensaia um movimento parecido (guardadas as devidas diferenças) com o que foi empreendido por Micarla em 2008 – transição, auditoria e continuação da eleição por outros meios.
Se a intenção de Rosalba Ciarlini, ao propor a auditoria das contas públicas, é conhecer a situação do RN, ponto para ela. Ninguém pode assumir a gestão do estado sem conhecer a sua real situação.
No entanto, é preciso cuidado para não retirar da UTI quem está agonizando politicamente.
Getulio Rego e José Dias, dois deputados experientes, já perceberam o perigo da situação. Disse, acertadamente, o deputado eleito pelo PMDB – “auditoria não pode ser revanchismo”.
Rosalba Ciarlini tem que cuidar de construir uma base política de apoio, fortalecer suas bases sociais de sustentação – já que um governo não vive sem sociedade –, cooptar os desgarrados do grupo derrotado e deixar os demais convalescerem com a própria falta de oxigênio que a ausência do uso da máquina acarreta. Se sem cargos um grupo político não sobrevive, como já vaticinou o sociólogo alemão Max Weber ainda no início do século XX, para quê conversar com os mortos?
A borboleta tem só dois anos de mandato, mas também pode procurar o mesmo caminho. É difícil, mas não impossível.

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