quinta-feira, 10 de junho de 2010

Assinatura do convênio desnuda o pretexto de viagem de Iberê a São Paulo

Roberto Guedes`
Por e-mail

Ao anunciar para a tarde desta quarta-feira, 9, ontem, a assinatura com o ministro do Turismo, Luiz Barreto, do convênio para a realização das obras de drenagem de San Valle, na zona sul de Natal, o governador Iberê Ferreira de Souza terminou oferecendo aos relutantes uma prova cabal de que não o assinou na quinta-feira 28. A informação veio reforçar a tese de que nesse dia o chefe do executivo largou tudo aqui para ir correndo cuidar da saúde em São Paulo, a despeito de não o confirmar perante a população potiguar.

Na manhã do dia 28 de maio, Iberê desapareceu subitamente de Natal, deixando de lado uma série de compromissos inadiáveis, entre eles uma audiência com líderes do Sindicato da Polícia Civil (Sinpol), categoria profissional que estava em greve principalmente porque não conseguia se fazer ouvir pelo chefe do executivo.

Só quando a cúpula da entidade começou a mostrar impaciência diante da ausência de Iberê na Governadoria, o chefe da Casa Civil, engenheiro Leopoldo Rosado Cascudo Rodrigues, o “Popôdo”, concunhado do Governador, informou que este havia viajado para São Paulo. Para justificar a viagem, “Popôdo” informou que na véspera o Ministro do Turismo havia telefonado para Iberê, convocando-o para assinar em São Paulo, naquela manhã, o convênio relativo a San Valle.

BATE-E-VOLTA

A história soou mal, porque até àquela manhã Iberê não havia demonstrado o menor interesse em estar naquele dia em São Paulo, onde se realizava um encontro nacional sobre turismo e no qual o governo do Rio Grande do Norte estava muito bem representado, pelo secretário estadual da área, o administrador de empresas e ex-deputado federal Múcio Sá.

Diante, porém, da palavra do chefe do gabinete civil, da necessidade real de investimentos em drenagem em San Valle, com benefícios para outras áreas da região sul de Natal, e do montante de recursos mencionado, os líderes do Sinpol concordaram em conversar com o Governador na sexta-feira, porque, como Leopoldo reiterou na ocasião, Iberê era o maior interessado em ouvi-los pessoalmente.

Caso tivesse efetivamente sido convocado, e não convidado, pelo Ministro, Iberê poderia ter feito uma viagem do tipo bate-e-volta. Ele viajaria no jatinho que o governo do Rio Grande do Norte havia alugado, naquela semana, por 85 mil reais cada viagem a São Paulo, distância adotada como parâmetro, para transportá-lo a partir de Natal.

QUATRO MINISTROS

Se o convênio era o único compromisso subitamente colocado diante de si, depois de assiná-lo o Governador poderia almoçar em São Paulo e retornar em seguida para Natal, onde no dia seguinte participaria, no Centro de Convenções da Via Costeira, de um ato a que não queria faltar. Tratava-se do almoço que amigos e correligionários ofereceram ao senador Garibaldi Alves Filho e ao deputado federal Henrique Eduardo Alves, presidente regional do PMDB, pelo transcurso do quadragésimo aniversário de vida pública de ambos.

Iberê seria então um dos únicos oradores. Ele havia demonstrado, em conversa com Henrique Eduardo, franco desejo de homenageá-lo, inclusive porque seu pronunciamento teria projeção junto ao presidente Lula da Silva. Como se sabe, o evento atrairia a Natal quatro ministros de Estado, todos a seu ver interessados em ajuda-lo a conquistar mais quatro anos à frente do executivo estadual em outubro. Um dos visitantes que mais lhe interessava ter como ouvinte, na ocasião, era o ministro das Relações Institucionais, cientista político Alexandre Padilha, hoje um dos interlocutores preferenciais de Lula

Chegada a hora da festa, ninguém tinha notícias de Iberê. Já por volta das 14h30m, Leopoldo, presente ao Centro de Convenções, informou que o Governador havia tentado deixar São Paulo naquela manhã, mas um problema com o trem de aterrissagem do avião que o transportava o obrigou a retornar ao aeroporto paulista. Só então se soube que, tendo viajado para cumprir um compromisso rápido, Iberê havia passado em seguida muito mais tempo em São Paulo, onde ainda se encontrava.

Um esquema emergencial estava então sendo adotado para que ele chegasse o mais cedo possível a Natal e pudesse conversar com os visitantes. Ele viria num avião de carreira até Recife enquanto o avião do governo do Estado iria buscá-lo no aeroporto dos Guarapes.

...E COMEÇOU O BOATO

Na tarde daquela sexta-feira, Iberê conversou com os policiais civis, que anunciaram sua volta à ativa, e jamais, até ontem, divulgou qualquer informação a respeito da assinatura do convênio, muito menos do motivo de sua não concretização. A assessoria de comunicação social do Estado aplicou uma cortina de silêncio sobre o assunto, e se pretendia agradar ao chefe do executivo terminou assim por dar início ao boato de que a viagem a São Paulo teria sido determinada, à última hora, não pelo convênio para San Valle, comprovadamente não assinado até anteontem, mas sim por problema de saúde.

Não haveria surpresa em se tratando de um paciente que em março último foi surpreendido pela notícia de que portava câncer de pulmão, submetendo-se imediatamente à extirpação do tumor e seu entorno e logo em seguida a quase dois meses de quimioterapia e radioterapia. Entretanto, exatos quatro dias antes da inesperada viagem, Iberê havia anunciado, durante almoço que correligionários promoveram em sua homenagem, na casa de festas “Vila Folia”, em Parnamirim, que havia vencido o câncer como haveria de vencer a eleição para governador em outubro.

CONSULTA DE WILMA

Ao encobrir a volta de Iberê a consultórios de oncologistas, sua assessoria alimentou os boatos sobre a gravidade de que ainda se reveste sua situação. Neste período, corria em Natal a informação de que ele estaria procurando uma forma de descer da candidatura sem desmontar todo o esquema que havia sido montado para que sua vitória em outubro levasse ao sucesso várias outras candidaturas.

Todos os políticos ligados a Iberê passaram a sofrer as conseqüências da falta de informações seguras a respeito das reais condições em que ele mantém sua candidatura no ar, a despeito de a imobilidade imposta pelo tratamento freá-la na casa dos 15% das intenções de votos para governador, 34% abaixo da senadora Rosalba Ciarlini e 1% aquém do segundo colocado, o advogado, ex-prefeito e ex-deputado Carlos Eduardo Alves, presidente regional do PDT.

Sentindo-se insatisfeita com as informações que o próprio Iberê lhe transmitira sobre o resultado da quimioterapia e da radioterapia, a ex-governadora Wilma de Faria, presidente regional do partido de ambos, o PSB, entrou em contato com os médios que o assistiram durante o tratamento. Era compreensível: mais do que qualquer outra pessoa, Wilma precisa confiar no sucesso eleitoral do Governador, pois se este não se reeleger estará muito pior situação a candidatura dela ao Senado. A partir desta consulta, atribuiu-se a ela, aliás, boa parte das informações

FORA DO BARALHO

Leitores deste periódico virtual se lembram, decerto, da informação que um parente próximo ao deputado federal João Maia, presidente regional do PR e um dos colaboradores mais devotados ao sucesso eleitoral de Iberê, transmitiu numa conversa no Natal Shopping Center. Àquela altura, disse, com base em informações de fontes privilegiadas, Iberê já era “carta fora do baralho” da sucessão estadual.

O mais estranho neste episódio foi a contribuição que a imprensa de Natal emprestou à equipe de Iberê na aplicação da cortina de silêncio. Nenhum jornal da cidade ousou questionar sobre a viagem, nem na quinta-feira nem nos dias imediatamente posteriores. A princípio, somente o jornalista Roberto Guedes, criador e editor deste periódico virtual, divulgou a relação entre o abandono súbito da agenda governamental e problema de saúde enfrentado por Iberê. No início desta semana, finalmente, outro periodista potiguar ousou tocar no assunto. Foi a jornalista Daniella Freire, colunista social do vespertino “O Jornal de Hoje”. Ela informou então que Iberê tem sofrido muito em decorrência de males oportunistas que o atacam em virtude da perda de defesas provocadas pela quimioterapia.
Secretários de Estado e integrantes do segundo escalão que participaram na semana passada de duas reuniões comandadas pelo Governador informaram ao “Jornal de Roberto Guedes Via e-mail” que nas duas ocasiões o semblante de Iberê era o de quem continua sofrendo, e não o de quem comemorou a vitória contra o câncer.

Até hoje, porém, a governadoria silencia a respeito do motivo da viagem, a despeito de a saúde do chefe do executivo estadual ser tema de interesse público que deve ser tratado com toda clareza perante todos os cidadãos potiguares.

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