Paulo Correia
Jornalistapaulo.correia@r7.com
Esses dias, uma manifestação pública em Natal chamou a atenção para a situação de quase abandono dos nossos policiais militares por parte dos órgãos administrativos. Uma situação que não é de hoje e que se reflete no modo de pensar e de agir de muitos homens de farda. Uma omissão com os seus problemas de saúde, física e mental, e com a questão da infraestrutura fornecida para esses homens trabalharem.
Repito que não é de hoje que essa negligencia contra os PM´s se reflete nos casos de abandono do serviço e de internações médicas por conta de crises de pânico. O Estado acredita que somente com carros novos e armas consegue a satisfação plena dos quadros militares. Uma pena que os engravatados do governo tenham uma cabeça tão pequena. Não sabem nem um terço da real necessidade dos policiais militares.
E é nesse caldo de abandono governamental que as brechas da corrupção e da violência extrema aparecem. Essa omissão de anos fez surgir o segundo e terceiro emprego, que muitas vezes leva o PM a trabalhar de vigilante de prédios privados ou na segurança de determinado empresário. Muitas vezes, já cansado de uma rotina estressante da guarnição. Fora isso, a corrupção pura e simples. Extorquindo pequenos traficantes de drogas, recebendo dinheiro ou outra coisa de comerciantes locais, e no caso mais extremo: participando de esquadrões da morte na eliminação de bandidos ou devedores do traficante extorquido.
Não deve ser nada fácil trabalhar honestamente e ver que sua família não consegue sobreviver decentemente com o pequeno salário. Saber que muitos dos seus superiores possuem boas casas e escola particular para os filhos. A tentação para o caminho errado da vida acompanha esses homens dia e noite, lado a lado. A paranóia é uma colega indesejável que os circula a todo o momento.
Quem bem retratou a vida desses homens da Lei foi o escritor e cineasta Leonardo Gudel, no seu livro Sangue Azul. Na publicação lançada em 2009, o autor conversou com um soldado da PM carioca e relatou nas páginas do livro a trajetória desse homem que viveu de tudo nas intermináveis noites de perseguições em favelas, e na cronologia da corrupção que começou pequena e que terminou com a sua separação da esposa e filho.
Uma história triste e reveladora de como anda a cabeça de nossos cavaleiros azuis, e de como essa confusão pode acabar com a paz de famílias e a segurança de nossa sociedade.
O ato promovido em Natal é um alerta, dado pelos próprios familiares desses homens, de que a coisa não está boa. As esposas dos soldados pediam atenção e carinho para com os seus maridos. Pediam respeito para os verdadeiros homens da Lei.
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