Por Leonardo Sodré*
Chovia fino quando ela acordou debaixo de um banco na Praça André de Albuquerque, tonta, nauseada. Não se lembrava como havia ido parar ali. Tempos atrás jurara que nunca dormiria debaixo daquele banco. Tinha visto um bêbado dormindo ali todo sujo, com muitas baratas ao redor e aquilo a havia enojado. Aquele banco sempre lhe amedrontara. Parecia que uma “coisa ruim” habitava nele. Tentou colocar o pensamento em ordem. Surpreendeu-se com isto, pois nunca se preocupava com o que tinha acontecido com ela ou o que ela teria feito com outras pessoas. Sentiu-se diferente.
Tentou andar. As pernas lhe obedeciam relutantemente e trôpega andou a esmo. Não tinha para onde ir, nunca tinha. Mas passava os dias andando, pedindo esmolas, roubando, assaltando... Sentiu vontade de fumar crack e tateou a pequena mochila junto do corpo em busca das pedras e da “marica”, instrumento tipo uma piteira, que usava para tragar a droga. Não encontrou nada e isso lhe deixou com raiva. Muita raiva. Tanta, que na primeira esmola que lhe negaram soltou para o assustado transeunte todo o seu repertório de palavrões acumulados em uma vida inteira, que não era tão longa assim. Tinha talvez uns vinte anos. Não sabia ao certo. Tampouco quem eram seus pais ou se um dia teve uma casa. Suas lembranças sempre foram as das ruas e praças do centro de Natal, onde foi largada ainda criança. “Sou uma moradora de rua”, pela primeira vez assustou-se com essa realidade.
De esmolas conseguiu juntar um pouco mais de um real. Deu para comprar um pão com queijo e um refrigerante. Saiu comendo e sentou-se à beira de uma calçada, numa sombra, numa das ruas do Centro Histórico de Natal.
Cadê minha “marica?”, pensou...
Depois que encheu a barriga começou a pensar com mais clareza sobre os fatos do dia anterior. Lembrava-se de mais uma vez ter sido usada por homens que bebiam num bar do Beco da Lama, em troca de dinheiro. Depois disso comprou a droga e fumou muito. Depois, bebeu cachaça e “muito doida” – riu silenciosamente – saiu pedindo esmolas.
Nas lojas da rua Coronel Cascudo, a maioria gerenciada por mulheres, quando lhe negavam esmolas ela simplesmente tirava a roupa. Ficava nua e espantava a clientela. “Me vingava”, - riu novamente. Mas, o que tinha acontecido depois disso?
Uma senhora que passava lhe negou uma esmola. Ela estirou o dedo e com ele em riste soltou muitos palavrões. Mas, sentiu uma coisa estranha quando aquela mulher lhe olhou cheia de medo. Sentiu pena. Nunca havia sentido pena de ninguém antes. Por que isto estava acontecendo com ela?
Acabrunhou-se.
Tentou pensar novamente. “Mas eu nunca penso, nunca consigo pensar, não sei pensar...”
Agoniou-se.
De repente sua vida começou a passar diante dos seus olhos. Viu-se muito pequena, sozinha no meio da rua, com algumas roupinhas num saco. Talvez tivesse uns cinco anos. Depois se lembrou de como foi seviciada tantas vezes por outros garotos que também viviam nas ruas. Lembrou-se das muitas vezes em que foi enxotada das casas onde batia em busca de comida ou dinheiro. Das dores de dente que só passavam quando consumia crack, maconha ou cachaça. Das brigas, dos assaltos e roubos que praticou, das prisões, das violências que viu, das noites em que lhe roubaram o pouco que tinha quando adormecia entorpecida pelas drogas, em qualquer canto. Da facada que havia levado daquele homem que depois de fazer sexo com ela lhe negou o pagamento. Lembrou-se que era viciada em drogas, assaltante, ladra e prostituta. Também que não sabia o que era dormir numa cama ou rede, ou de ter ido a um médico ou ginecologista. Que não conhecia um chuveiro, que tomava banho nas torneiras das praças. Lembrou-se que não se sentia gente... Que odiava gente!
Mas, o que havia mudado nela?
Pensava, porque pensava. Nunca havia pensado tanto antes. O que estava havendo?
Num estalo lembrou-se daquela mulher. De repente! Ela era linda e a cena começou a se desenhar na sua mente: caminhava pela rua João Pessoa e passando defronte a um banco viu aquele menininho de uns três anos de idade, lindo e sorridente, sem o olhar vigilante da mãe, que apesar de segura-lo pela mão conversava distraidamente com outra mulher. Quando ia passando, não resistiu e deu um grande “cascudo” na cabeça do menino, saindo de perto rapidamente. Sem se virar apenas ouviu o grito de dor e os gemidos da criancinha. Sentiu doer os músculos das costas. Todas as vezes que fazia alguma maldade, as costas lhe doíam, mas não resistia. Detestava crianças, mas não sabia o por que.
Continuou andando rapidamente, esquivando-se dos transeuntes para ter mais velocidade, mas não conseguiu se esquivar daquela bela mulher, de olhar intenso e sorriso manso, que lhe segurou firme, mas sem violência, pelos ombros. A doce mulher olhou para ela firmemente e disse:
-Você bateu naquela criancinha... Você também apanhou muito, pobre criança, muito...
Ninguém nunca havia falado com ela daquele jeito firme, mas com paciência, demonstrando carinho, atenção. Ela não conhecia aquele tipo de olhar, de mansidão. Ficou estática, não conseguia falar, mover-se, fugir. Mas, sentiu paz, uma paz que nunca havia sentido antes e quedou-se quando a bela mulher lhe abraçou. Sentiu-se quente, protegida, amada...
Depois disso ela não conseguia lembrar-se do que havia feito, até acordar no outro dia. Mas, somente a lembrança daquela mulher lhe fazia sentir uma espécie de emoção boa que ela não entendia. Um sentimento de paz que nenhuma droga conseguia lhe trazer.
Depois de todas essas lembranças, saiu andando de posse de um novo sentimento: alegria. Via as cores, as luzes e pela primeira vez na vida caminhou sem pedir esmolas, roubar ou xingar pessoas. Nem pensava na cachaça ou no crack. Sentia um sono leve...
Cansada, entrou pela primeira vez numa igreja católica. Não sabia porque. Talvez por ter muitos bancos, onde ela poderia descansar um pouco.
Quase não havia ninguém na igreja. Ela sentou na terceira fileira e ficou olhando para as imagens, uma a uma, como se fizesse uma descoberta. Era tudo novo, sentia um cheiro bom, mas não sabia de onde partia. Estava concentrada, sentia-se bem.
Mergulhada nos seus pensamentos e descobertas, demorou a perceber que uma pequena mão puxava a ponta de sua surrada camiseta. Virou-se e viu uma criança parecida com a que ela havia maltratado. A criança sorriu e perguntou:
-Você ta rezando, ta?
Pela primeira vez sorriu para uma criança e apenas balançou a cabeça negativamente. Depois voltou os olhos à sua peregrinação pelas muitas imagens que havia e viu uma que era igual àquela terna mulher que há havia abraçado na rua. Compreendeu tudo e disse baixinho:
-Você vai me ensinar a rezar, num vai...?
*Jornalista e escritor
(Junho de 2005)
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