quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Deus existe


Leonardo Sodré*

Recostada no banco do carro ela olhava a paisagem invadida por uma paz nunca antes experimentada. Uma sensação inenarrável, surgida diante de uma contemplação única. “Na verdade, – ela pensava – poderia passar o resto da vida dentro daquele carro, com aquela sensação, que tudo estaria bem”. Virou-se para o marido, que dirigia calado, concentrado, desde as curvas após a ponte do Rio Paraíba, e disse:
-Meu amor, acho que Deus existe.
Ele não disse nada. O zumbido do silêncio continuou como antes, mas lágrimas brotaram dos seus olhos e depois de alguns segundos, que para ela, diante da importância da revelação, pareceram minutos, ele apenas colocou a mão no seu joelho, ternamente, balançado a cabeça como se dissesse:
- Eu sei. Que bom que agora você também sabe.
Ela voltou a posição original. Não tinha mais a profundidade da sensação anterior, mas o silêncio, que para ela, que gostava muito de conversar era uma novidade, foi providencial. Queria pensar e calculou que as duas horas que faltavam para chegar ao seu destino seriam suficientes. Disse isso ao seu marido. Finalmente ele falou:
- Talvez não, é provável que depois dessa experiência você não queira mais parar de pensar durante o resto da sua vida, pois agora você o tem, e Ele diminui os obstáculos e reduz os caminhos.
-Será meu amado, - surpreendendo-se em pensar que isso seria positivo. Logo eu que sempre busquei tantas explicações sobre sua existência?
Não esperou resposta, recostou-se novamente no banco pôs-se a pensar. Organizada, começou pela infância. Não era rica nem pobre, era apenas uma estudante aplicada, ávida por leituras e conhecimentos, passou pela adolescência, juventude, faculdade e viu-se hoje, médica, cheia de responsabilidades, mas, também, feliz com a profissão e com a família que formou com seu amado. De revés olhou para ele, admirando-o e prestando atenção em todos os detalhes do seu rosto, como se quisesse gravar para sempre sua imagem no coração.
Voltou-se novamente para as lembranças, dos inúmeros casos que atendeu, das dores das criancinhas, muitas pobres, que passaram pelos seus cuidados médicos. Particularmente lembrou-se de um caso antigo, do começo de sua carreira, que lhe havia assustado. Viu-se dizendo, naquele ambulatório:
- Aí meu Deus! Que faço?
E, depois de presenciar a rápida recuperação daquela criança, atribuir a cura a modernidade da medicina e dos alopáticos. Lembrou-se de que nem agradeceu a Deus, pois agora tinha certeza de que Ele havia estado ao seu lado durante aquele procedimento difícil.
Quando o sal das lágrimas de felicidade chegou a sua boca percebeu que durante poucos minutos havia conseguido lembrar-se de dezenas de casos em que Ele esteve junto com ela. Sentiu-se aninhada, aquecida e perdoada. E, no mesmo momento, também perdôo os que a magoaram. "Parece um pacto de amor", pensou.
A sensação de paz voltou, mas dessa vez ela veio junto com uma alegria muito grande, diferente, grande demais para ser exprimida. Uma alegria interior.
Remexeu-se, mudou de posição. Olhou novamente para o seu amado que olhava distante, dirigindo cuidadosamente. Esperou que ele ultrapassasse um caminhão, aproveitou para olhar para ele novamente e entendeu porque ele, que sempre teve Deus no coração, a amava tanto. Com a estrada livre novamente, ela virou o rosto e, sorrindo, com olhos brilhantes disse:
-Meu amor, Deus existe...

*Jornalista e escritor
(Julho de 2005)

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