sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Recomeço em Natal

Paulo Correia
Jornalista

paulo.correia@r7.com

Ele já foi capa de revistas e já desfilou nas melhores festas e eventos do Rio de Janeiro e São Paulo. Era ator do casting da principal rede de TV do país. Escolhia seus horários e novelas que ia participar. Seu nome no elenco era garantia de boa audiência e retorno em anúncios publicitários. Paparicado por diretores e apresentadores de TV. Seu charme era inconfundível. Os homens queriam sua beleza e as mulheres o desejavam na cama. Era um dos medalhões da televisão.
Não faltavam convites para peças e filmes. Por mais insignificante que fosse a peça ou película, o sucesso era garantido pela sua presença solar. Namorou as mulheres mais bonitas e desejadas do Brasil. Sua agenda era lotada.
Com o tempo descobriu a porcaria que iria acabar com a sua carreira de sucesso. Descobriu a cocaína. O pó branco que invadiu as suas narinas e que despejou lixo na sua trajetória brilhante foi descoberta por acaso. Conheceu a droga em uma das produções cinematográficas que participou. Um dos membros da equipe o apresentou ao eufórico produto, e dali em diante sua vida foi se moldando para conseguir o entorpecente.
Trabalho, família e amigos iam ficando para segundo e terceiro plano. O que o instigava era a loucura momentânea da cocaína. A alegria era cheirar e trepar com quem viesse pela frente. Nada de lindas modelos ou atrizes, mas quem estivesse disposta a dividir carreiras de pó com ele. Sem reclamações ou discursos politicamente corretos.
Os contatos de trabalho foram minguando. O mercado publicitário lhe dava as costas e a TV, antes sua companheira fiel, agora não confiava nas suas promessas de melhora. As boas peças teatrais iam caindo e agora era obrigado a dividir o palco com atores importados de reality shows e que somente faziam o que ele mais queria: dividir carreiras de cocaína nos intervalos e depois das produções.
A conta de uma vida à base de drogas e tudo o que girava em torno dela, de traficantes e putas de luxo, foi cobrando o seu pagamento. As finanças que adquiriu na TV e nos outros trabalhos foram acabando e ele se viu obrigado a deixar o Rio de Janeiro. Tinha que se mudar para outra cidade. Pensou em Salvador, mas ali era perigoso: festas demais e dívidas com traficantes. Gostava do Nordeste. Pensou então em Natal. Já estivera na cidade e ali poderia recompor a vida.
Foi morar em Areia Preta, num luxuoso apartamento. Não durou dois meses. Saiu por conta de confusões e mais drogas. Resolveu radicalizar. Sumiu na cidade. Ninguém mais soube dele. Deixou a barba crescer e foi se enfurnar num sobrado velho na Ribeira. Parecia que desta vez a sua penitencia era maior. Queria recomeçar a vida ali, na parte quase esquecida de Natal. Observava de longe o movimento da cidade. Não mais aparecia nas colunas sociais que tanto o louvaram na sua chegada. Sofreu para se livrar do vício em cocaína. Gritou e chorou muito nas noites da Ribeira. Gritos que eram ouvidos apenas pelos bêbados e prostitutas que faziam ponto naquela região. Natal também o esqueceu.
Em uma tarde, não tendo muito que fazer a não ser assistir televisão e dormir, deu uma passada na frente de um prédio ali próximo. Viu que era o local de ensaio de um grupo de teatro da cidade. Uma vontade louca passou pela sua cabeça. Queria se juntar com aqueles jovens atores. Queria fazer parte daquela trupe e ajudar com a sua experiência aqueles meninos e meninas. Queria voltar aos palcos.
Naquele dia a cocaína perdeu definitivamente um usuário, e o mundo artístico abraçou novamente um filho que se achava perdido.

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