segunda-feira, 16 de agosto de 2010

O BÊBADO E O EQUILIBRISTA

Simone Sodré
Médica

Foi bem naquele momento que notei que o pecê, ali, amarrado ao cinto de segurança, acabara de sofrer um solavanco. Uma placa mãe já se fora. Não, não desmonte mais nada... Mas ela desceu pronta pra reinvindicar. Eu, calculando outro prejuízo, não via a hora de não ver nada. Desceria aquela rampa, não fosse o trânsito parado dentro daquele estacionamento. É. Há tráfego e trânsito lá dentro, e em todos os níveis e entreníveis, andares e mezaninos.

Ah, que vontade de chegar a casa e verificar meu cérebro eletrônico...

Mas ela já havia chamado as "autoridades" e uma platéia ia se formar. Ajeitei-me, puxei o freio de mão, a bolsa, sacudi os cabelos e fui verificar o amassado na lateral traseira. Respirei fundo (do que me arrependeria logo, logo mais) e tombei um pouco para frente.

Encontrei o motorista do outro carro suando, suando e o seu carona de pé, a alisar o amassado e a dizer:

- Não, não fomos nós...

Eu, que tinha respirado fundo, já estava considerando meu copo meio vazio. Ou meio cheio?

Não podia divagar essa hora. Mas, tonta, ouvia e (juro) disfarçava para a platéia que eu ria, ria muito pra dentro.

O carona dizia: não houve batida!

O motorista, que não conseguia sequer sair do carro, dizia: a culpa é sua, que me mandou ir.

E assim, ele desfazia toda a defesa do amigo, que já levava a culpa por inteiro.

Virei-me e torci pra que ninguém tivesse visto minha surda gargalhada. Afinal, meu carro foi amassado, ali estavam dois embriagados prontos pra ir às ruas, a perícia não resolve acidentes em shoppings, não há câmeras, não há bafômetros, há crianças, idosos e demais indo até seus carros, e há bêbados manobrando veículos. Como poderia esse homem sair trafegando naquele estado?

Temi. Depois do pastelão, temi. Temi ainda mais quando lembrei que estávamos no meio do caminho. Meio caminho por andar, meio caminho andado. E, curioso, essa stone aqui. Digo, essa pedra no mid way.

Foi aí que o celular tocou.

O motorista conseguiu alcançá-lo dentro de um bolso apertado, mas pediu para o amigo carona atender:

- Fale aí, é minha esposa.

Esse descansou o peso do corpo de um lado e encaixou parte do, digamos, glúteo no amassado do meu carro, tentando um equilíbrio. Encheu de seriedade a voz, que ainda assim percebi pastosa, e disse:

- Calma Rúbia, estamos só resolvendo um probleminha...

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