terça-feira, 11 de junho de 2013

Refugiados que vivem no DF celebram sua data com almoço em restaurante de refugiados cubanos

“Se quiser vencer no Brasil, você precisa esquecer Cuba e viver como mais um brasileiro”. O conselho dado por um amigo, ainda em seu país, foi vital para que a refugiada Loida Labrada tomasse a decisão de deixar Cuba e recomeçar sua vida no Brasil, pois as atividades políticas do seu marido haviam colocado em risco a segurança de toda a sua família, obrigando-os a partir.


Juntamente com o marido Guillermo e dois filhos, Loida chegou ao Brasil
em 2009 – quando foram reconhecidos como refugiados pelo governo
brasileiro. Formado em gastronomia, o casal optou por abrir um negócio
próprio e se tornaram os proprietários do Restaurante Laura, em Riacho
Fundo, há cerca de 30 quilômetros do centro de Brasília. No restaurante,
Loida e Guillermo atuaram como anfitriões do almoço que marcou o Dia
Mundial do Refugiado na capital federal – onde vivem cerca de 30
refugiados e 300 solicitantes de refúgio, vindos de mais de 30 países.

Promovida no último sábado (08/06) pelo Alto Comissariado das Nações
Unidas para Refugiados (ACNUR), em parceira com o Instituto Migrações e
Direitos Humanos (IMDH), a festa reuniu famílias de refugiados e
solicitantes de refúgio que vivem em diversas cidades do Distrito
Federal.

Cerca de 40 adultos e crianças refugiados e solicitantes da condição de
refugiados, de países como Colômbia, Cuba, Paquistão e República
Democrática do Congo, passaram uma tarde trocando experiências e
convivendo com os moradores locais que frequentam o restaurante do casal
cubano, que já se prepara para abrir um novo negócio. O evento teve o
apoio do Comitê Nacional para os Refugiados (CONARE).  

Para receber os convidados, os proprietários do Restaurante Laura
prepararam um cardápio variado com receitas típicas cubanas, com
ingrediente já conhecidos do paladar brasileiro. Pratos com frango,
peixe e carne, banana e mandioca à cubana, arroz e feijão, com destaque
para o Ajiaco, tradicional caldo de carnes e vegetais, conhecido também
como Caldosa. Além da ajuda dos filhos, Loida e Guillermo contaram com o
apoio do amigo cubano Gustavo Marrero, que preparou um bolo decorado com
a bandeira de Cuba, que foi servido como sobremesa.

Para o presidente do CONARE e Secretário Nacional de Justiça, Paulo
Abrão, que participou do almoço, a comemoração serviu como um
exercício de consciência sobre o conceito de humanidade. “O que nos
une é bem mais forte que eventuais diferenças que possam nos separar. O
Brasil, neste sentido, tem reafirmado seu compromisso com a
solidariedade internacional", disse ele.

Entre os refugiados convidados para o almoço estava o colombiano Adolfo
Botina, de 29 anos, formado em Administração Pública, e que chegou ao
Brasil há quatro meses – ele ainda não teve seu pedido de refúgio
analisado pelo governo brasileiro. “Não escolhemos ser refugiados.
Nossas viagens não foram planejadas, não temos capacidade financeira e
nem contatos”, disse “Por isso, um refugiado não pode ser tratado
como um estrangeiro comum”, disse Adolfo, que atualmente encontra-se
sem emprego.

“Sabemos que o refúgio é uma situação dramática”, disse o
Representante o ACNUR no Brasil, Andrés Ramirez, “mas este é um dia de
esperança e alegria, no qual celebramos a força e a resiliência de
pessoas que foram obrigadas a deixar seu país para sobreviver e estão
dispostas a enfrentar uma nova realidade, apesar de todos os
desafios”.

O almoço com refugiados em Brasília reflete o tema global deste ano
para o Dia Mundial do Refugiado, que é o impacto dos conflitos na
família. Em todo o mundo, guerras e perseguições já forçaram mais de
45 milhões de pessoas a deixar suas casas, a grande maioria delas
tornando-se refugiadas ou deslocadas internas em seus próprios
países. O
Brasil abriga cerca de 4.200 refugiados reconhecidos pelo governo
brasileiro.

Com o tema deste ano para o Dia Mundial do Refugiado, o ACNUR e seus
parceiros pretendem mostrar como as guerras e os conflitos afetam
famílias, que são forçadas a deixar suas casas, cidades e pessoas
queridas, sob o risco de nunca mais voltar a vê-las. Neste processo
traumático, o apoio de organizações humanitárias, governos e da
sociedade civil é fundamental para que possam reconstruir suas vidas com
dignidade e respeito aos direitos humanos.

Entre os convidados, a jovem cubana Laura Braga, de 21 anos, conversa
com brasileiros e estrangeiros em seu português recheado de expressões
típicas dos jovens de sua idade. Quem a escuta, não se dá conta de
que ela é refugiada. Formada em Música em Cuba, de onde trouxe um
saxofone, ela agora estuda Administração.
“Logo que cheguei, em 2009, fui vender enciclopedia no Pará e tinha
de explicar - em português - que informações ela continha”, relembra
Laura, rindo. “Mas foi trabalhando como balconista em uma loja em
Brasília que me ensinaram os costumes daqui e que descobri minha
vocação para Administração”. Filha do casal de cubanos de Riacho
Fundo, Laura foi homenageada por seus pais, que deram seu nome ao
primeiro restaurante da família.

Seu irmão, Júnior, reforça a admiração da família pelo Brasil. “Amo
muito Cuba, lá estão todas as minhas raízes. Mas aqui no Brasil consegui
ter oportunidades e ganhar meu dinheiro”. Ao seu lado, o amigo –
também cubano – Gustavo Marrero confirma. “Tive dúvidas sobre vir
para o Brasil, pois tive de deixar minha filhinha com a mãe, em Cuba.
Mas resolvi ficar quando vi que conseguia em três meses uma quantia de
dinheiro que levaria um ano no meu país para juntar”.

O Dia Mundial do Refugiado é comemorado em todo o mundo no dia 20 de
junho, conforme resolução da Assembleia Geral da ONU aprovada no ano
2000. Criado em 1950, o ACNUR é uma das maiores agências humanitárias do
mundo, com presença em mais de 120 países, tendo ganhado por duas vezes
o Prêmio Nobel da Paz (1954 e 1981).

Por Karin Fusaro, de Brasília

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