Leonardo Sodré*
Conversando com um padre sobre o perdão e a incapacidade que muitas vezes temos de perdoar, recebi uma explicação reveladora. Ele disse que o perdão era uma das fontes principais das graças de Deus e de muitas curas, da alma e de doenças somáticas. “Mas, para isso – continuou - era preciso entender a lógica divina”. Citou um exemplo clássico, apesar de simplório:
- Se alguém pisar no seu pé você tem o dever de perdoar e o agressor o direito ao perdão.
O mundo ensina o contrário. Somos instados a cobrar, a sermos duros e a não aceitar que outros cometam erros, principalmente quando eles nos atingem diretamente.
Há alguns dias presenciei um debate entre duas senhoras sobre o perdão e o poder de Deus. A peleja revelou como nossa época e os seus valores influem na fé e no comportamento das pessoas, até das mais orantes. Uma dizia que o poder de Deus era infinito e que podia mudar o comportamento e o modo de ser de quem se abrisse verdadeiramente para Ele. A outra, também praticante de muitas orações, jejuns, estudos bíblicos e retiros espirituais, discordou. Discursou alegando que Deus não quereria modificar o temperamento e o jeito de ser de uma pessoa por mais que ela se abrisse para isso por ser o homem, desde o seu nascimento, um produto acabado. Em sua opinião, por exemplo, uma pessoa de temperamento colérico jamais poderia ter seu jeito de reagir mudado, nem por Deus. A discordante, talvez fechada ao perdão por sofrimentos passados, argumentou com maestria e qualquer passante menos avisado sairia convencido por suas alegações, que contrariavam a simplicidade da lógica divina.
Assistindo aquilo meu pensamento foi rápido para a figura mais conflitante da história: Paulo de Tarso, como os romanos chamavam antes São Paulo. Ele foi o maior apóstolo dos Gentios e o maior símbolo de mudança de comportamento pelo poder de Deus. E isso, não foi um fato único, pois a história relata dezenas de casos de drásticas mudanças de homens e mulheres, alguns até tornados santos.
O coração se fecha quando não conseguimos nem tentar perdoar. Vemos as coisas embotadas. As alegrias têm que ser procuradas, fabricadas. Temos poucos momentos de descontração. Tornamo-nos desconfiados, sem brilho...
Num tempo de muita confusão espiritual, quando me debatia por impor minha vontade em detrimento da vontade de Deus e lutava para conservar meus rancores, ganhei um presente de valor incalculável de uma mulher que um dia me amou: um livro escrito por Taylor Caldwell sobre a vida de São Paulo. Na dedicatória a revelação de uma alma em turbilhão: “Ao meu amor, a história daquele que considero seu espelho espiritual”.
As quatrocentos e noventa e nove páginas do livro, relido algumas vezes, serviram como guias de mudanças.
Às vezes é difícil entender o poder e a presença de Deus nas nossas vidas. É complicado compreender que o simples nome de Jesus exerce um efeito apaziguador e que muitas mágoas se tornam reféns desse nome quando nos falta o dom pessoal de perdoar. Nome que podemos usar muitas vezes e até em pensamento: eu não consigo, mas em nome de Jesus eu te perdôo...
Aquele que erra se arrepende e que por mais que lute e se esforce não consegue obter o perdão também, sofre. Sofre muito.
Houve um momento na passagem de Jesus pela terra, que após chegar de barco na cidade em que morava, Cafarnaum, se deparou com uma multidão e junto com ela havia um paralítico. Era um homem, triste, desanimado, deitado num catre. Vendo-o, Jesus disse:
- Tem ânimo, meu filho; os teus pecados te são perdoados.
Diante de alguns rumores, havia alguns que até diziam que ele blasfemava contra Deus, deve ter ficado muito sério quando continuou:
- O que é mais fácil dizer: Os teus pecados te são perdoados, ou dizer: levanta-te e anda?
Não se pode avaliar a sutileza do gesto seguinte. Tampouco traçar uma alegoria dos movimentos, do seu olhar, mas pela descrição de Mateus, talvez tenha sido corriqueira a frase que encerrou a questão:
- Levanta-te, toma o teu catre e vai para casa.
Mateus, como um repórter cuidadoso e sutil, deixou um recado fantástico: o nome e o poder desse nome para todas as gerações, quando narrou o final da passagem: “vendo o ocorrido, a multidão ficou com medo e glorificou a Deus que deu tal poder aos homens”.
Porque será que ele não disse apenas “... tal poder a Jesus?”
O Repórter deu a dica. Estava implícito o desejo de Jesus Salvador de que todos nós fossemos seus imitadores.
Quanto ânimo e quanto vigor não terão brotado daquele paralítico? Quantos pecados ele carregava? Quais? Que tipos? O que ele fez? Ele matou? Talvez roubou?
Jesus não quantificou nem qualificou. Para Ele, mais importante do que o mau que qualquer um tenha feito, em primeiro lugar está à oportunidade de salvação, de ser amado, de retornar íntegro ao mundo, a família. Ele praticou um perdão curativo. Desses que todos nós precisamos um dia. Tanto de receber quanto de dar, pois às vezes os castigos e os desprezos oriundos da falta do perdão se tornam maiores do que os erros que foram praticados, e, nada pode ser melhor do que amar e ser amado.
*Jornalista e escritor (DRT 0985 RN)
Texto publicado no “O Jornal de Hoje”, em 07 de junho de 2002.
Leo,
ResponderExcluiraqui a turma feliz pelo seus comentários na TV Caju. Você merece sucesso.beijo